segunda-feira, 8 de março de 2010

MULHER

Nossa mãe-rainha.

Outrora grandes Candaces (mães-rainhas), criadoras, governantes, conselheiras, protectoras, divindades, guerreiras, companheiras. Desde o princípio a mulher sempre esteve Pre-sente. Contribuiu, juntamente com o homem, no percurso normal do Un-I-Verso, de forma recíproca. É a fundadora e a primeira educadora da humanidade. Recebe a Vida, lhe alimenta, cria e apresenta ao mundo, à sociedade.

No início eram a mulher e o homen, “Carne da minha Carne e Ossos dos meus Ossos” - Umoja. Por isso, adulto “o homem deixa o seu pai e a sua mãe para se unir com a sua mulher, e os dois se tornam UMA só pessoa” (in bíblia sagrada).
«A mulher é o repositório da civilização, a guardiã dos segredos da sociedade, mãe de deuses, a manifestação de um princípio universal “feminino” que viu o universo, a terra e o subconsciente como o “útero” para a expressão da vontade Divina».[1]

Podemos citar a Candace Tyie, “a moda é profundamente influenciada por ela. Seu estilo de cabelo, seus brincos, ... dita a beleza feminina na corte real.”[2]

Governou como cônjuge rainha e mãe rainha de Egipto por metade de um século, antes de Cleopatra e Nefertiti. Foi a Candace nubia (terra de ouro) de egipto, Grande Esposa Real de Amen-hotep III, que disse ser ela «a rainha, a mais estimada, a esposa de graça, delicada em seu amor, quem preencheu o palácio com a sua beleza, a Regente de Norte e Sul, a Grande Mulher Rainha do Rei que a ama, a senhora de ambas as terras».

Mãe, por imposição legal, de Candace Nefertiti, que era casada com Akhen-aton, o mais velho dos seus sete filhos. Quando tinha quase 50 anos trouxe ao mundo o seu último filho, Tut-ankh-amen.

Nefertiri, foi uma outra grande Candace: a Rainha duma Missão Sagrada. No seu Tempo a mulher não era principal, que profetizava ou participava nas políticas sociais, mas objecto de sensualidade ou para ser usada pelos homens. Regista o Código de Hamurabi (fonte das actuais legislações) a época que havia o Tirhato, o preço da mulher para transações afectivas. O esposo comprava a sua mulher e podia fazer dela o que quisesse. Tornar a mulher um valor de troca, fazê-la assim sentir, foi empiricamente determinado por psicólogos antigos que pretendiam eliminar o ar de superioridade do nariz da mulher.

Entretanto, Amun-hotep IV (posteriormente, Akhenaton) escolheu a Nefertiri para ser a sua grande rainha mulher, a fundação da sua família. Ela que foi a mulher mais estimada daquele tempo. Principalmente porque não tencionava perpetuar a antiga ordem. Não quis relegar-se a norma tradicional de rainha servil.

Ela visionava um papel activo para ela na remodelação da civilização. Então, numa época de intensos conflitos no Egipto contra o domínio do clero sobre a sociedade, Nefertiri e Ankhenaton decidiram construir uma nova cidade, Akhetaten. “Uma cidade onde a arte pode florescer, onde homem/mulher querem representar a beleza, paz e felicidade”. Nesta cidade, puderam dar nascimento à sua sagrada missão: a missão à procura da Vida Divina, durante a qual tiveram seis filhas.

Como Isis, Nefertiri fez o que pode para manter o domínio de Ma´at (mulher rainha da Ordem, Equilíbrio, Equidade, Verdade, Justiça, rectidão).

E a Isis é a nossa «original madonna (Virgem) negra, a senhora dos milhares de títulos, a Grande Feiteceira, Senhora do Paraíso, sensibilidade feminina, Amor de Irmã, Senhora da Magia, Senhora da Luz, Aposento-de-Nascimento-de-um-Deus, Senhora do Nascer do Sol, A Bela e a Amada, Senhora da Abundância, Rainha Abelha: Fazedora de Mel, Aquela que Chora...» e abunda o Vale de Nilo.

Em períodos mais recentes já sobressaem as grandes rainhas guerreiras africanas como a Grande Rainha Hatshepsut, uma das primeiras rainha-guerreira da história africana, que proclamou-se Pharaoh de Egypto e bem a governou por, dissem, 21 anos.

Também quando a Ethiopia era o centro do mundo, antes da Europa emergir, era governada por uma rainha, Candace Makeda, a Rainha de Sheba. Dissem-nos que a sua luta foi mais diplomacia do que militar, ao contrário do que foi para a Hatshepsut.

Em Angola, outrora Ngoli Nbondi, havia a poderosa Nzinga que fortemente lutou contra o colonialismo português. Quando os portugueses desembarcaram, ela tentou negociar (conversar) com eles, mas quando percebeu que eles pretendiam apenas roubá-los, assimilá-los, desculturá-los e aculturá-los, em detrimento da sua própria cultura africana, organizou o exército e liderou-lhe numa luta armada contra tal colonialismo.

Grande defensora da independência e Liberdade do seu país, ela dizia “mais valia a morte de arco e lança na mão, sim senhor, que a vida, mesmo de mil anos, servindo. A vida de escravo.” (Leia mais neste blog sobre: Nzinga Mbandi Ngola. Meio caminho não andaram: uma carta).

Na resistência ao comércio de escravos e o sistema colonial, mulheres africanas, ao lado dos seus companheiros ou maridos, ajudaram a montar ofensivas por todo o continente africano: Empress Menem e Titul Bitul de Ethiopia, Tinubu de Nigéria; Nadi, a mãe do grande guerreiro Chaka; Kaipkire do povo Herrero de sudoeste de África; e o exército feminino que seguiu o grande rei daomeano, Behanzin Bowele.

A Yaa Asantewa, mãe rainha de Ejisu, que foi expatriada por ter inspirado a guerra do povo Ashanti – a denominada Guerra Yaa Asantewa – contra os britânicos que mantinham exilado o seu rei Prempeh para conseguirem o Banco Dourado, a arca de aliança deste povo.

A Harriet Tubman, grande condutora de Underground Railroad, que levou à liberdade vários escravos nos Estados Unidos da América, e outras grandes mulheres africanas da actualidade (dentro e fora do continente), fundadoras e educadoras das suas famílias, companheiras, grandes líderes e governantes, que permanecem perseverantes na luta pela liberdade, igualdade, justiça.

A mulher tinha (e ainda tem) um valor (não de troca para transações afectivas) e sabia disso, conhecia o Segredo da Vida e respeitava-a, não havia necessidade de preocupar-se com a afirmação. No entanto, a mulher de hoje co-habita mais o homem num círculo activo de agressões (verbal, física e espiritual). Sendo poucas aquelas que queixam-se ou libertam-se deste ambiente ambivalente e inúmeras as que suportam a dor conforme podem (Leia “Foram as dores que o mataram”, em Mornas as Noites de Dina Salústio,).

É unânime que a Educação (principalmente a educação-alternativa) é o principal remédio para a resolução efectiva desta problemática denominada “violência baseada no Género” ou, concretamente, “Violência Doméstica”. Uma situação, condição ou factor crescente de corrompimento da raiz da família, que reduz caoticamente a actuação positiva da mulher na sociedade como fundadora e educadora da família, ao invés, constitue famílias desiquilibradas e desestruturadas, uma plêiade de jovens com mentes transtornados, assim, de efeito espiral.

Presentemente, a luta permanente da mulher africana tem sido resgatar o seu valor e dignidade ancestral e não apenas a Igualdade e Equidade de Género. Ela pretende alcançar um estado de igualdade com o homem, mas, permitam-nos dizê-lo, claro sem generalizar, tem o feito de forma equivocada, sem antes procurar o ontem, no passado. Sem antes identificar ou conhecer o que fora. Aí, ela vem mudando e ensinando comportamentos, faz trabalhos pesados como carregar penedos, é novamente chefe, porém prossegue desconhecendo o seu Real Valor.

Analiticamente, em relação à mulher Rainha e guerreira de Nubia, Egypto, Ethiopia, Angola, Gana, Nigéria, Daomé, nota-se que hoje ela reflecte, mesmo inconscientemente, os hábitos e aspirações da mulher européia, principalmente da antiga Grécia e Roma, em constante repressão à acção da sua verdadeira identidade.

Interessa à mulher africana actual, rainha e guerreira, ser e estar em equilíbrio e harmonia com a Vida em total respeito à Ordem das coisas. Ela precisa regressar ao seu útero (nascer de novo) e destruir este sistema anacrónico que lhe atribue apenas um valor pecuniário, a condição de simples propriedade privada (“pikena”).

Neste mês de Março, considerado da Mulher e principalmente a Mulher Africana, honramos todas as nossas grandes mulheres mães, rainhas e guerreiras.

Ababa Abenaa.

[1 e 2] Tradução

... A MULHER IDEAL ...

Amando como um louco, em busca da ventura,
procuro em vão no mundo uma mulher ideal!
Por cada amor que tive, uma mulher fatal
surgiu na minha estrada, e trouxe-me amargura!

Por cada amor que tive – um sonho meu desfeito,
um sonho encantador, que abraço com paixão!
Sonhar que se desfaz em cálida ilusão,
que abruma, sangra, fere e abandona meu peito!

Por cada vez que amei, imaginei um anjo,
uma mulher divina, altiva e caprichosa!
A flor do meu jardim, a perfumada Rosa,
um ente celestial mais puro que um arcanjo!

Por cada vez que amei, minha rosa sonhadora
sonhou prazer, ventura e um mundo delicioso ...
Viu tudo côr de rosa, ameno e fulgoroso,
E, ao fim, quedou-se triste, aflita e sofredora!

Por cada amor que tive, a minha lira pobre,
entusiasmada e alegre, o meu amor cantou.
A flor por mim amada, ao píncaro elevou
da pura adoração, da santidade nobre!

Desiludida, ao fim, em voz triste e pungente,
a lira que cantara, a minha dor chorou!
Em verso doloroso, amargo, ele cantou
meu mal, minha ilusão, a sina dum sofrente!

Por cada amor que tive, eu tive uma ilusão,
um sonho de inocente, um dia de amargura!
Ferido pela dor, em vez de ter ventura,
recolhe-se a chorar meu pobre coração!

Meu peito desdenhado em busca dum amparo,
volúvel se tornou, amando dia a dia!
Procuro, em vão no mundo, o amor, uma alegria,
duma mulher celeste, um ente puro e raro!

Amando como um louco, em busca da ventura,
procuro em vão no mundo uma mulher ideal!
Porém, por cada amor, uma mulher fatal
encontro em minha via, e deixa-me amargura!


Abel Djassi (Amílcar Cabral)

Ninam na bus brasus

Mama Afrika, ventri sagradu di undi brota vida,
Fonti di inspirason pa kaminhus di retidon, amor e verdadi, mãe di amor inkondisional,
Di tudu sufrimentu, di tudu injustiza ki bus fidjus dja pasa, inda bu ka disisti di um dia tenéz na bus brasus,
mostranu kaminhu di volta pa kasa, inda nu sta perdidu, nu sta spadjadu pa tudu kantu des mundu, emigrantis klandestinus na diáspora.
Bus fidjus inda ka disisti di torna dau bu lugar, bu verdaderu lugar, bu tronu di rainha, raínha di raís finkadu.
Mama ventri di mudjeres di dor, mas lutadoras... di forza, kontinenti di mudjeris negras di pele brilhanti sima noti di strela.
Mudjeres di beleza inigualável e kubiçadu pa kenha ki ka ta podi intendi nós origem.
Nu volta pa nós kasa, pa nós verdaderu ragás, undi nu ka ta djobedu ku ódio, nem dispresu...afinal nós é di mesmu raíz.
Nu dexa mama Afrika toma konta di nós, nu dexal kontanu e kantanu nós stória, nós verdaderu stória sem mas, sem menus, mas nós stória. Txom di homis di koragem, homis di resistentis... nu bem xinta na sterra e prendi ama di novu, nu bem prendi adimira nós negros e negras, nu bem konxi nós ancestrais...nós heróis e nós iternus guerreiros.
-Hora kin tchiga na bó mama, dexam deta nha kabesa na bu ragás, dexam txora tudu nhas doris, nhas máguas...
Passa bu mon na nha kabesa di mansinhu, ninan na bus braços, dam amor sarra nhas fridas...
Danu dom di perdon..djunta bus fidjos ki exploradoris spadja...
inxinau ama.. ama... y ama...

(escrito em 19/12/09, às 18:26 por Ama)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A revolta de Ribeirão Manuel

A 12 de Fevereiro de 1910, Nha Ana Veiga lidera em Santa Catarina, na ilha de Santiago – Cabo Verde, a revolta de rendeiros de Ribeirão Manuel, que se recusaram a pagar as rendas aos “morgados” e passaram a colher, sem licença, sementes de purgueira nas suas propriedades.

A revolta de Rubon Manel, muito marcante entre outras revoltas, ocorreu um mês após a Proclamação da Re-pública em Portugal e a posse, na Cidade da Praia, do Governador Marinha de Campos. Ribeirão Manuel sobressai um contexto que a forma de exploração agrária agrava as estruturas de arrendamento em anos de intensa seca e de má colheita, reanimando as tensões entre os morgados e rendeiros.

Os proprietários rurais, estrangeiros feitos Morgados por cartas régias, com falta de escravos, que fugiam continuamente para o interior das ilhas de Cabo Verde, fixando-se em locais de difícil acesso, e de trabalhadores livres, foram forçados a parcelar as suas fazendas em pequenos tractos, dando-os de arrendamento, a dinheiro ou em regime de parceria, aos escravos alforriados, aos auto-libertados e aos libertos por imposição legal ou nascidos livres.

Estes rendeiros, que foram obrigados a servir de rendeiros e de parceiros, aliados às camadas mais desprotegidas, quando tomaram consciência da sua força e importância social, projectaram e executaram diversas rebeliões contra os grandes proprietários de terras, forçando-os a rever em parte as estipulações do contrato de arrendamento.

A ilha de Santiago, marcada pelo sistema de exploração de morgadios, regista a referida revolta que surge das apanhas de purgueira, planta muito rica utilizada na produção de óleo, sabão e que funcionava como moeda de troca no Ribeirão Manuel. Os terrenos de Riberão Manuel faziam parte do monopólio exclusivo dos morgados, pelo que as tropas da cavalaria, após queixa do morgado Aníbal dos Reis Borges contra algumas mulheres, alegando que estas teriam invadido a propriedade da irmã para roubar a purgueira, surpreendendo estas mulheres, as amarraram mesmo sob o protesto do povo.

Segundo relatos, o Padre António Duarte da Graça insurgiu-se contra a prisão deste pequeno grupo de mulheres que tinham colhido ilegalmente sementes de purgueira selvagem.

E o protesto do padre transformou-se numa revolta da população que, comandados por uma mulher, a Senhora Ana Veiga, organizou-se e decidiu libertar as suas mulheres, os homens de pedras e as mulheres de machados marcharam, sob o lema "Aqui não há negro, não há branco, não há rico, não há pobre... somos todos iguais!", em direcção à cadeia de Cruz Grande que acabou por ser aberta perante a sua determinação.

Assim, resulta o provérbio "Omi faka, mudjer matxadu, mininus tudu ta djunta pedra" (Homem faca, mulher machado, meninos ajuntam pedras).

Abeba

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Reciclando utensílios reutilizando ideias

A Associação Comunitária Waaldé tem na sua linha de actuação os que mais necessitam. Um dos seus objectivos é promover melhores condições às mulheres e crianças.

Pensando nesta camada, desenvolveu um projecto orgulhoso e de grande valor social: “Reciclando utensílios reutilizando ideias”. O projecto teve como base a produção de doces caseiros com produtos naturais e reciclados. O público-alvo da formação foram jovens, mulheres, mães, desempregadas ou de baixo rendimento, residente em Achadinha.

Com o financiamento vindo da própria associação e do Programa Nacional do Voluntariado sob a tutela do Ministério do Ministro-Adjunto e da Juventude e Desportos, o projecto foi adiante com muito entusiasmo e dedicação. Para além do grande propósito ser ajudar estas mulheres a criarem uma fonte de rendimento em comum, também desejou-se que elas criassem uma ligação de amizade e sobretudo de solidariedade e inter-ajuda.

Apesar da data de arranque do projecto ter sido afixado de Setembro a Outubro, a sua preparação começou muito antes com a divulgação no bairro, local onde foi realizado o tão aguardado projecto, e na rádio.

Todas as fases foram feitas com muito esforço e luta por parte dos elementos da associação que, entretanto, nunca desistiu desta grande luta em prol das suas companheiras.

Após todo o trabalho feito, finalmente, chegou o grande dia, que foi acompanhado de muita chuva, para abençoar ainda mais o momento. Os dias foram passando e cada etapa da formação foi mais uma ocasião para amadurecer e fortificar o laço de união criados entre todos os que, de alguma forma, participaram no projecto: quer sejam as formandas, os elementos da Waaldé, ou os formadores, que se disponibilizaram vivamente, para dar a sua contribuição.

No final, todos levaram um pouco de cada um. Com os erros e dificuldades, aprendemos para melhorar futuros projectos que certamente virão. Acreditamos que é possível criar alternativas de sobrevivência com poucos recursos e muita criatividade, respeitando sempre o meio ambiente.

Ama

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Ayiti, a outrora “pérola das Antilhas”


“TODO Homem é UM Homem”.

“Os despertos pertencem a UM mundo, mas os adormecidos têm cada um mundo”.

Conhecida pelo primeiro povo, dito ameríndio, a 7.000 A.C., pelo nome de Quisqueya significando na língua Taíno “Mãe da Terra” e Haiti traduzindo “país montanhoso” ou "terra alta", mais tarde pelos criollos por Ayiti, é depois de Cuba, a segunda maior ilha caraíbas, ocupando a terça parte ocidental da ilha que partilha com a república Dominicana.

Em 1492, no decurso duma viagem de exploração para o ocidente, Cristo-vão Colombo chega a Quisqueya chamando-a de Hispaníola e os espanhóis logo fixaram fortalezas no litoral, desprezando a anterior presença humana. Ou seja, logo depois, colonizam a ilha, segundo eles com o fim de “promover a civilização dos ameríndios”, ocorrendo entretanto a escravização dos ameríndios para trabalharem na agricultura e cerâmica.

Em menos de 15 anos, a Espanha extraiu em Ayiti 15.000 mil toneladas de ouro. Depois de quase exterminar os ameríndios, em 1697, assina o Tratado de Ryswick e concede a parte ocidental da ilha, onde fica Ayiti, à França. Hispaníola passa a ser chamada pelos franceses de Saint Domingue (S. Domingos).

Quanto a França, por durante 100 anos, a "pérola das antilhas" alimentara o essencial do seu comércio internacional. O açúcar, café, algodão, índigo, a madeira, entre outros, enriqueciam os negociantes estrangeiros enquanto os africanos viviam como animais de tracção.

Durante todo o século XVIII os franceses incrementaram a formação da agricultura açucareira na região, importando cerca de 500.000 escravos africanos.

No entanto, torna-se frequentes revoltas de escravos. Em 1757, um escravo originário da Guiné, chamado Makandal, “o velho homem das montanhas”, assume o comando de um grupo de auto-libertos, utiliza as crenças do vodu e incita os negros a matar brancos através de veneno. Em 1758, é capturado, condenado à fogueira como feiticeiro e queimado vivo. Mas os negros continuaram a venerar Makandal como profeta e, desde então, todos os ritos usados por eles passaram a ser chamados de makandals. O carácter político do vodu tornou-se tão evidente que tudo se fez para impedir qualquer manifestação religiosa dos negros. Em consequência, os franceses e principalmente a Igreja Católica passaram a reprimir ferozmente o vodu. Padres manifestaram o desejo explícito de extirpar as crenças africanas no país. Em 1941 decretou-se uma campanha para fulminar o vodu, considerado “macaquice, indigna de povo civilizado”. Em 1860, o Ayti e o Vaticano assinam uma Concordata que conduz a punição criminal do vodu.

Acontece uma outra revolta contra a autoridade colonial francesa, em 1790, liderada pelo Vicente Ogé, que acabou preso e torturado. Contudo, a revolta aumenta e os escravos fugem em massa, precedendo a enorme revolta de escravos de Agosto de 1791.

A revolução aytiana foi sempre constante. Os africanos se rebelaram no momento da sua captura na África, nos navios e nas plantações. Boukmann, líder da revolta de escravos de Agosto de 1791 no Ayiti, era um escravo de campo importado da Jamaica, que deu sua vida num esforço para livrar o mundo da escravidão.

Boukmann presidiu uma reunião política em Bwa Kayiman para planejar o fim da escravidão no Ayiti, um evento que teve repercussão mundial, inspirando rebeliões na Carolina do Sul, Louisianna, Virgínia e nas Américas, levando ao fim da escravidão em todo o mundo jurídico.

Após esta reunião, a revolução entrou em erupção no norte do Ayiti, e se espalhou pela ilha toda. Um terço da população do Ayiti, homens, mulheres e crianças lutaram e morreram para o benefício das gerações futuras, queimando plantações e matando os proprietários e capatazes.

Essa revolução durou até 1804. Financiados pelos ingleses e espanhóis, inimigos dos franceses, negros e mulatos se unem sob a liderança do intelectual africano Toussaient-Louverture, descendente dos reis da Arada, filho de Gaou Guinou, um poderoso guerreiro, que através de lutas em África foi escravizado e embarcado para o Caribe, nasceu a 1 de Novembro, no Caribe, e cresceu para ser um nobre, médico, ervalista e curandeiro.

O general Louverture comanda a revolta de Boukmanns, que conduz a uma guerra de libertação prolongada de 13 anos contra os colonialistas de S. Domingos (hoje capital da República Dominicana) e depois, o exército de Napoleão.

A França declara a abolição da escravatura nas colônias. Toussaient prepara a independência do Ayiti, cuida da volta dos antigos escravos à lavoura do país quase devastado e prepara um projecto de constituição. Entretanto, o novo governo francês, sob o comando do cônsul Napoleão Bonaparte, rejeita a proposta de Toussaient e, valendo-se da traição, envia Toussaient para a França, onde morre prisioneiro, recuperando assim a antiga colónia. Porém, um dos generais de Toussaient, o Jean-Jacques Dessalines, organiza o exército, continua a rebelião e expulsa as tropas francesas, derrotando a França, e proclamando a primeira república negra do mundo, em 1 de Janeiro de 1804.

Adquirida a independência (reconhecida pela França somente em 1838), foi preciso não apenas curar as feridas mas também pagar à França em troca uma indemnização financeira de 150 milhões de francos.

A maioria das nações incluindo os Estados Unidos evitaram Ayiti por quase quarenta anos, temível que seu exemplo poderia agitar lá e em outros países escravocratas. Sobre as seguintes poucas décadas Ayiti é forçada a remover empréstimos de 70 milhões de francos para reembolsar a indemnização e para ganhar reconhecimento internacional.

O inimigo tinha destruído tudo antes de isolar completamente o país, colocando-lhe numa situação impossível com medo do contágio, ante, como referido, o pensamento de que toda a caraíba podia ser influenciada pelo mau exemplo. O país isolado pelas grandes potências ocidentais, obrigado a pagar a Paris o preço em ouro da independência, reduz-se a um estado desestabilizado.

Em 1862, os Estados Unidos finalmente concedem a Ayiti o reconhecimento diplomático enviando o notável abolicionista Frederick Douglass como seu ministro Consular. Depois de 53 anos, em 1915, os fuzileiros navais de Estados Unidos da América ocuparam o Ayiti e estabeleceram o controlo sobre as autoridades alfândegárias e portuárias, assumindo o governo, sob o pretexto de proteger os interesses norte-americanos no país, no entanto a fim de cobrar a dívida externa, reprimir o vodu, entre outros.

De 1915 a 1934 o Ayiti conheceu a mais terrível humilhação da sua história: a colonização americana. A independência duramente conquistada e zelosamente preservada até então, é posta em causa com o desembarque dos “marines” americanos. Sem dúvida, antes de 1915, as potências imperialistas européias, aliadas à burguesia do país já disputavam entre si o mercado aytiano. Mas a ocupação americana, que se fez sob os moldes de colonização directa, acabará por orientar e integrar as estruturas do país dentro do capitalismo monopolista. O Banco Nacional, o comércio, a administração e o Exército serão totalmente colocados sob controlo do imperialismo americano. Camponeses serão expropriados e condenados a trabalhos forçados.

Diante do racismo da ocupação americana, adversários desta ocupação, como Charle-magne Peralte, leva os camponeses da região de Artibonite à insurreição. A resistência camponesa aos ocupantes cresce sob a liderança de Charle-magne, que é traído e assassinado por fuzileiros navais em 1919.

Em 1946, uma rebelião popular derruba o presidente mulato Elie Lescot, levando ao poder o negro Dumarsais Estimé. Desde a considerada crise de 1946, que não chegou a ser uma revolução no país, proprietários de terra e pequenos burgueses negros agitaram a bandeira do nacionalismo por uma participação no poder económico e político até então controlada pela burguesia mulata.

Depois eleições controladas militarmente conduzem à vitória do François Duvalier (1954), que em 1964 declara a si mesmo presidente vitalício e instaura uma ditadura violenta baseada no terror dos tontons macoutes (os "bichos papões"). Durante 35 anos esta ditadura assume uma realidade de exploração, injustiças e crimes.

Expulsos pela brutalidade da máquina repressiva ou pelas estruturas de exploração, muitos ayitianos, os boat-people, fugiram em pequenos barcos para a Flórida/Estados Unidos da América, onde posteriormente foram presos e despachados para o território ayitiano, sem tecto, família nem emprego.

O Ayiti de 1986 a 1990 foi governado por uma série de governos provisórios. Em 16 de dezembro de 1990, Jean-Bertrand Aristide foi eleito e assume a presidência de Ayti, a 07 de Fevereiro, num contexto que segundo o próprio “o país era um depósito de lixo”, as ruas esburracadas, as favelas vulneravéis às chuvas tropicais, à penúria de água, ao calor, aos cheiros, à falta de higiene, às imundicíes, o desprezo, caos, à anarquia.
Comprometendo-se Aristide a realizar uma revolução social, afirmando que antes houve apenas uma independência nominal. Porém 08 meses depois, foi deposto por um novo golpe militar planeado pelo general Cédras que Aristide nomeara para a chefia do Estado-Maior e mais tarde como comandante-chefe do Exército. E a ditadura restaura-se no Ayiti.

Em 1994, apoiado pelo Estados Unidos da América, Aristide reassume o país com a economia destroçada pelas convulsões internas, mesmo assim, o ciclo de violência, corrupção e miséria não é rompido.

Os protestos contra Aristide, em janeiro de 2004, fizeram várias mortes em Porto Príncipe, capital de Ayiti. Em fevereiro de 2004, surgiram conflitos armados em Gonaives, espalhando-se pelas outras cidades. Gradualmente, os rebeldes assumiram o controle do norte do Ayiti. Com o avanço destes rebeldes, o antigo presidente, em 29 de Fevereiro, asila na África do Sul e o Ayiti sofre intervenção internacional pela ONU.

Nesse sentido, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou o envio da Força Multinacional Interina, liderada pelo Brasil. Todavia, “considerando que a situação no Ayiti ainda constituía ameaça para a paz internacional e a segurança na região”, o Conselho de Segurança decidiu estabelecer a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Ayiti (minustah), que assumiu a autoridade exercida anteriormente pela Força Multinacional Interina, em 1 de Junho de de 2004, igualmente comandada pelo Brasil.

Missão que sempre foi combatida pelos ayitianos que a considera um braço do domínio imperialista na América latina, tendo a situação do país piorado após a ocupação das tropas minustah. Procurando garantir apenas a segurança das empresas multinacionais instaladas no país, que exploram brutalmente a mão-de-obra barata (escravos modernos), produzindo para os estados unidos a custos mínimos como na China e Bangladesh. "As tropas não estão cumprindo ajudas humanitárias", pelo contrário reprimem as lutas do povo, assassinam aytianos e estupram mulheres. "A ocupação militar e o plano económico" reduziu Ayti novamente a uma colónia. Saiba mais em www.scribd.com/doc/20850531/null.

Actualmente a economia de Ayiti encontra-se destroçada e em ruínas. O povo sofreu a perversidade de seus dirigentes tanto quanto sofrera a da colonização. Uma pequena minoria inspirou-se nos espanhóis, franceses, ingleses, americanos para perenizar a escravidão sob outras formas. Expulsou-se o mau senhor, mas aprendera-se com ele a pilhar, a roubar, a explorar, a reproduzir a dominação.

A outrora “pérola das Antilhas” que motivara os espanhóis, franceses, ingleses e americanos a explorarem seres humanos, com a captura de milhares de crianças, mulheres e homens da nossa ancestral mãe África para trabalharem nas plantações, é hoje a devastada Ayiti, que a 12 de Janeiro de 2010 foi surpreendida por um terremoto de proporções catastróficas, que alguns dizem merecido pelos séculos de adoração ao diabo, referindo-se ao Vodu (o deus da resistência negra, que assim como o criollo são as raízes do Ayiti, sendo o hougan, sacerdote vodu, um sacerdote completo que canaliza, orienta, revigora e vivifica a fé comunitária), e outros vêem como uma oportunidade para desenvolver a economia interna, conservar o poder e reconhecimento internacional por ditas “ajudas humanitárias” concedidas ao Ayiti.

Os ayitianos sobreviventes são obviamente, pelo seu percurso, um dos povos materialmente mais pobres do mundo, tal-qualmente, como genuíno africano, os mais corajosos da terra, que não se resigna, sempre fiel à Cultura e aos valores da Liberdade, por isso achará o Nia (Caminho, próposito) para continuar a labuta pela própria sobrevivência.

Avante Ayiti, para ti e todos os africanos (dentro e fora da mãe Alkebulan), ainda,
A LUTA CONTINUA.

Abenaa.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

“A LUTA CONTINUA”

No dia 23 de janeiro de 1963, o Secretário Geral do PAIGC (Partido Africano Independente da Guiné e Cabo Verde), Amílcar Cabral, deu início a luta armada contra os colonizadores portugueses. Uma luta pela causa da Justiça e o Direito dos povos da Guiné-Bissau e das Ilhas de Cabo Verde, de governarem suas terras como homens livres, com liberdade de pensar, de criar e caminhar com dignidade enquanto africanos. Uma luta que deu continuidade à nossa história, que foi interrompida pelos imperialistas, de nos desenvolver como uma nação livre e autônoma, contruindo uma nova vida. Uma luta pela qual o objetivo essencial foi a realização das aspirações à liberdade, à paz, ao progresso e a justiça social dos povos africanos.

Hoje, 23 de janeiro de 2010, 47 anos depois do dia em que se iniciou a luta armada, ficam algumas questões de reflexão para os nossos irmãos e irmãs africanos analisarem e consignarem em si mesmo a verdadeira importância do que foi o movimento de libertação nacional do PAIGC e repensar as nossas ações afim de redefinir o rumo em que estamos levando o futuro dos nossos povos. Um futuro que, a meu ver, caminha para o sentido oposto da história da construção do nosso Estado Independente. Unidade, Trabalho e Progresso.

Será que Amílcar Cabral lutou em vão? Qual foi a importância de uma luta armada na nossa história? Como hoje vemos e encaramos esse fato (luta armada) com a realidade presente do nosso País e do nosso Continente Africano?

A luta armada foi uma reação, uma resposta à violência, à brutalidade da opressão colonial e neocolonial. Ela não abrange somente a integridade física e territorial como também, a integridade psíquica e intelectual. Foi uma combinação de teoria e prática revolucionária para defender o nosso povo de um domínio estrangeiro, uma forma dolorosa, mas eficaz de continuarmos com o progresso do nosso povo. Mas antes, de falar da luta armada do PAIGC, é importande relembrar o que foi a colonialização e o que é a neocolonialização para que entendamos as questões já mencionadas e quais são os seus efeitos sobre nós africanos hoje.

No que se refere aos efeitos da dominação imperialista sobre a estrutura social e o processo histórico dos nossos povos, convém averiguar em primeiro lugar quais as formas gerais de dominação, do imperialismo. Elas são pelo menos duas:
1)Dominação direta – por meio de um poder político integrado por agentes estrangeiros ao povo dominado (forças armadas, polícia, agentes da administração e colonos) – à qual se convencionou chamar colonialismo clássico ou colonialismo.
2)Dominação indireta – por meio dum poder político integrado na sua maioria ou na totalidade por agentes nativos – à qual se convencionou chamar de neocolonialismo.”
Arma da teoria, Amílcar Cabral, pag. 31 a 32.

A dominação direta, sabemos que perdurou no mínimo quatro séculos, ou seja, quatrocentos anos sob o comando da igreja católica alegando que os africanos são pagãos e que precisam ser salvos por eles, tendo como base uma ideologia diabólica, racista, cruel e desumana. Construíram o imperialismo com o sangue dos nossos ancestrais, destruíram a nossa cultura, impediram-nos ao progresso e submeteram-nos ao regresso enquanto seres humanos. Esta dominação, a que Amílcar Cabral chamou de colonialismo clássico, não foi só uma forma que usaram para oprimir o nosso povo, foi também uma forma que adotaram para construir e perpetuar o seu domínio facista sobre toda a Terra. Hoje, todos sabemos e compreendemos que as grandes potências foram construídas com grandes sofrimentos, massacres e derrame de sangue, mas é incompreensível como poderíamos nós, descendentes dos oprimidos, continuar nas suas cidades, seus impérios, como se nada tivesse acontecido! Ainda sinto o cheiro de sangue quando caminho nas ruas e praças das suas cidades, as marcas dos nossos ancestrais estão por todos os lados, nos museus, nos arquivos históricos e até mesmo nos cemitérios onde existe a presença dessa dominação, por inúmeros lugares onde existiu a segregação, lugares que são frequentados por brancos separados dos negros, até mesmo em Cabo Verde temos essa prova com o cemitério de brancos e pretos na ilha do Fogo. Não há como não ver isso, mas a grande maioria infelizmente não tem essa percepção com frequência.

Essa falta de consciência foi embutida no nosso povo sistematicamente, planejada e calculada, através do neocolonialismo, o que Amílcar Cabral chamou de dominação indireta, em que eles passam a pseudo-independência para o nativo, continuando com o seu regime opressor e facista numa outra escala de domínio. São várias as teorias racistas que eles inventaram para justificar a escravatura e através destas fundaram as suas sociedades e construíram suas cidades nos usando como força produtiva e em troca nos segregaram dos seus planos sociais, culturais e econômicos. Veja algumas teorias racistas defendidas por eles, tendo-as como base da construção das suas sociedades:

O Rev. Thomas thompson publicou em 1772 uma monografia onde procurou demonstrar a inferioridade do negro diante do brando, intitulada: O Comércio dos Escravos Negros na Costa da África de acordo com os Princípios Humanos e com as Leis Religiosas Reveladas.”
Em 1852, o Rev. J.Priest, conhecido etnógrafo e fundador da Sociedade Antropológica de Londres, publicou em tratado denominado A Bíblia defende a Escravidão, onde é a favor desta, usando uma suposta argumentação biblica favorável, na realidade falsa.
Em 1900, C.Carrol em sua obra Provas Bíblicas e Científicas de que o Negro não é Membro de uma Raça Humana, afirma que todas as pesquisas científicas confirmam sua natureza caracteristicamente símia
.” Superando o Racismo na Escola, Kabengele Munanga – organizador, pag. 48.

Assim permanece as suas normas até hoje, a escravatura sempre existiu e ainda existe, mas não é percebida pelo povo. O neocolonializado. Por isso uma luta armada foi necessária e continua sendo necessário lutar também nesta batalha, para não acabarmos oprimidos por tempos maiores do que já fomos. A luta armada foi um instrumento de unificação, assim como foi um instrumento de progresso cultural, afirma Amílcar Cabral, que reuniu as massas em um único movimento de libertação e em uma única ideologia, A libertação nacional total. A importância da luta armada, além de nos garantir segurança, paz e a integridade física foi, sem dúvida, a consciência ideológica benéfica e louvada de ser compreendida e vivida eternamente em cada africano honesto. A luta exigiu a mobilização e a organização de uma massa significativa da população das diversas categorias sociais à unidade política e moral que hoje não se fala muito ou se fala, mas não se põe em prática.

Se aliarmos a estes fatos, inerentes a uma luta armada de libertação, a prática da democracia, da crítica e da autocrítica, a responsabilidade crescente da população na gestão da sua vida, a alfabetização, a criação de escola e de assistência sanitária, a formação de quadros originários dos meios rurais e operários – assim como outras realizações – veremos que a luta armada de libertação é não apenas um fato cultural mas também um fator de cultura. Essa é, sem dúvida alguma, para o povo, a primeira compensação aos esforços e sacrifícios que são o preço da guerra. Perante esta perspectiva, compete ao movimento de libertação definir claramente os objetivos da resistência cultural, parte integrante e determinante da luta.” Arma da teoria, A. Cabral, pag. 69 a70.

Numa perspectiva coletiva, a impressão que se tem hoje sobre a repercurssão da luta armada no nosso povo é que ela abriu-nos o caminho para a libertação nacional na totalidade, mas não foi efetivamente alcançada, porque o povo não beneficia com o “Estado Independente” , liberdade equitária. As normas da sociedade africanas continuam com os alicerces sobre uma constituição opressora, onde poucos tem de tudo em abundância e muitos nada possuem, na miséria. Esses estados independentes (Guiné e Cabo Verde) não foi capaz de manter a promessa de uma liberdade total sem o seu maior protagonista, o Secretário Geral Amílcar Cabral. O estado independente foi incapaz de continuar com a política revolucionária do PAIGC, porém é capaz de nos passar uma falsa ilusão do desenvolvimento e progresso financeirol. No entanto, na perspectiva individual, a luta de Amílcar Cabral foi e continua sendo uma fonte de inspiração para os retos no pensamento e justos na ação, de uma riqueza intangível, incapaz de ser expressa na totalidade por esse meio. Nos poucos que ainda dão real importância a essa luta, existe neles uma consciência revolucionária, uma luta individual comun as aspirações do nosso povo africano. Assim como Amílcar Cabral afirmou nos tempos passados, hoje cumpre-se rigorosamente palavra por palavra, de que a batalha é diferente à de 47 anos atrás, o inimigo pode ser qualquer pessoa com espírito de colono e a arma para enfrentar esta batalha é o conhecimento matématico e tecnologico.

Que esse dia fique na mente dos patriotas como um dia em que devemos renovar as nossas esperanças, pois o próprio Amílcar Cabral sempre mostrava essa esperança nos povos e assim viveu até os seus últimos dias em que esteve conosco fisícamente porque acreditava no destino da África, Alkebu-Lan. Cabral Vive!

Deixo esse discurso do Secretátio Geral, Amílcar Cabral, em Addis-Abeba, Etiópia, em abril de 1971 na Oitava Conferência dos Chefes de Estado de Governos da Organização da Unidade Africana (OUA): “Há pessoas ou combatentes que desesperam, mas os povos nunca desesperam. É necessário confiar nos povos e nós combatentes da liberdade africana, nós que estamos prontos para morrer e vimos camaradas tombar ao nosso lado, nós não temos qualquer razão para não acreditar no destino da África, na capacidade de qualquer que seja o povo africano de se libertar totalmente do jugo colonial e racista e de tomar nas suas mãos o seu destino, como vós próprios o fizestes.” A Arma da teoria, Amilcar Cabral, pag. 11.

Por Vadinho. Uma contribuição de www.Khemsvibes.wordpress.com

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Um pouco sobre a musicalidade de Cabo Verde

Esclarece o antropólogo caboverdiano João Lopes Filho, no seu livro “Introdução à Cultura Cabo Verdiana”, editado pelo antigo Instituto Superior de Educação de Cabo Verde, que a música Caboverdiana é de “melopeia bantu”, ou seja, de origem essecialmente africana.

Como o surgimento da sua população, os instrumentos musicais caboverdianos foram introduzidos em Cabo Verde com o tráfico de escravos, pelos próprios africanos escravizados.

A Cimbó ou Cimboa, uma espécie de rabeca, cujo termo, segundo o referido João Lopes citando António Carreira, é de origem mandinga. Mais diz João, que corroboramos, este instrumento musical preciso ser preservado para não desaparecer. Poucos o conhecem em Cabo Verde e menos ainda o sabem tocar. Diz-nos João que actualmente existe apenas na ilha de Santiago, mas já foi presente em Sto. Antão, S. Nicolau, Fogo e Maio, sendo estas as primeiras ilhas de Cabo Verde a serem povoadas. A Cimboa é normalmente utilizada nas festas da tabanca e no batuque.

Utilizou-se também em Cabo Verde o tambor africano, o Tam-Tam, mas a igreja proibiu o seu uso e substituiu-o pelo tamboril e o tambor português, ambos bimembrafones. O tambor africano desapareceu muito cedo de Cabo Verde. Entretanto, sempre é possível o seu resgate para a preservação, divulgação e manutenção da nossa história, cultura e identidade africana.

Coabitou no ambiente musical, violinos, violões, cavaquinho e bandolim (banjo). O banjo, igualmente, já quase não se usa. Jogo de maracás (chocalho), viola de 10 cordas (5 cordas duplas). Clarinete, trompete, tocados na Morna acústica.
*
As Cantigas de guarda-de-sementeiras, resultado de um meio rural tradicional, caracterizada pela existência ancestral e pela sua função utilitária, ligada ao exercício da actividade agrícola em condições de permanente desafio à natureza (cultura de sequeiro, donde provém o milho e o feijão). A escassez da chuva que causava perdas de sementeiras, e a necessidade de guardar a sementeira evitando corvos, parvais e galinhas-de-mato, determinara o surgimento das cantigas de guarda-de-sementeira, sendo eles as suas personagens.

As Cantigas de curral-de-trapiche, também conhecidas por “cóla-boi” ou “aboios”, surgem com a introdução da cana-de-açúcar em Cabo Verde. Em substituição dos animais de tracção era utilizada a força física do escravo africano nos primeiros engenhos de açúcar, assim, surgindo estas cantigas da “bestialização”, brutificação, destes escravos.

Em situações idênticas de trabalho escravo, surgiram as Cantigas de mondadores, na época da monda (sementeiras), que são designadas de bombena.

Fazem ainda parte da música e dança caboverdiana, a morna, na epóca considerada pelos moradores brancos de Cabo Verde “batuque que agora tocam por aí e que não permite às pessoas dormir”, a coladeira, o batuque - com finaçon e o funaná tendo como lugar próprio o «terrero» - e a mencionada tabanca (peregrinação dançante) de ascendência africana.

(...)
Abenaa.