segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O Drama de Sudão


Há quem ache o movimento das nuvens apenas um processo normal (natural) da ordem universal, sem perceber os seus maravilhosos fluxos e significados. Quem ache, com base no tamanho do próprio cerébro, que é superior, melhor que o outro, suficientemente para subjugá-lo, desculturá-lo depois aculturá-lo, e tentar exterminá-lo. Há quem ache que não houve genocídio em Sudão, que tudo não passa de mero sensacionalismo jornalístico.

Genocídio, depois de 1944, vem sendo definido como a destruição deliberada e metódica de pessoas determinada por diferenças raciais, religiosas, políticas. O professor Molefi Kete Asante defende que “não pode haver desculpa para a escravidão e o genocídio”, sendo ambos “moralmente indefensáveis, brutalmente monstruosos e eticamente repugnantes” (in “Genocide in Sudan”). Em 1991, quando escreveu este artigo, Asante considerou que em Sudão o nacionalismo reivindica uma base biológica para a perseguição, opressão, exploração e escravização de outros, sucedendo a escravização de africanos pelos próprios africanos.

Em sudão unifica-se o famoso Rio Nilo, até o Egipto, vivendo a maioria da população, sobretudo os Shilluk nas suas margens, praticando o cultivo da terra e a agricultura, já que o resto do país é demasiado seca.

Os primeiros povos (Dinka, Jhaynah e outros dentre 500), que habitaram esta parte do continente africano/Alkebulan, eram principalmente constituídos de pastores nómadas que andam com os rebanhos em busca de novos pastos (o que igualmente revela o nível elevado de consciência), mas a “guerra santa” destruiu também as pastagens e rotas de pastoreio.

Desde a antiguidade o Sudão (palavra árabe usada primeiramente pelos geógrafos muçulmanos ao descreverem “a terra dos negros”) foi uma terra de confluência racial, sobretudo depois da queda de Núbia e da chegada dos árabes. Foi a primeira região que os árabes entraram em contacto e onde é grande a influência islâmica. A área divide-se em 3 partes: o Sudão ocidental (interior do Senegal e os rios do Alto Níger); o Sudão central (a leste do último); e o Sudão egípcio (do sul do Egipto). O Sudão egípcio foi conquistado pelo Egipto no século XIX, antes de ser novamente separada e reconquistada como “Sudão anglo-egípcio”. Hoje é o maior estado africano, a república do Sudão.

A fronteira actual entre o Egipto e o Sudão não existia. O Egipto do Sul e a parte norte do Sudão eram conhecidos em conjunto como a Núbia. Subsiste, no entanto, um grande contraste entre o norte e o resto do país. O norte é maioritariamente muçulmano, de língua árabe, o Centro e o Sul expressa línguas e crenças africanas. Os africanos residentes no norte foram convertidos ao islamismo e relacionam-se com o Egipto e o mundo árabe e o restante é na maior parte animista e liga-se ao mundo africano (diferem em relação à língua, formação, cultura e religião). Conflitos entre os dois grupos, assim como sucedeu em Ruanda, resultaram mais de duas décadas de guerra civil.

Desde a independência do país, em 1956, o governo sudanês impõe o islamismo à população. O prof. Molefi diz que “inerente à configuração política da nação foram as sementes da sua própria destruição: o fundamentalismo religioso islâmico e animosidade étnica” fecundadas “por uma da mais severa crise de identidade em toda a África” resultando mortes incomensuráveis, órfãos, refugiados, pobreza. A população residente no Sul do país, de culto e expressão africanos, foram forçados a dirigir-se para Kartum, a capital de Sudão, vivendo agora em bairros de lata nos seus arredores. O prof. Molefi também estima que “o Sudão é um país em crise permanente, pois é uma nação de pessoas totalmente deslocadas de um senso de realismo histórico”.

Assim, o século XIX no Sudão foi de jihads, guerras santas destinadas à propagação do islã e à criação de estados islâmicos. A partir do século XI predomina a vontade de impor o islã por todos os meios e a todos os níveis da vida social. O islã manteve, até o século XI relações de coexistência com as religiões locais africanas largamente dominantes no duplo plano de número dos adeptos e dos efeitos sociais e políticos. Igualmente, no século XI, as relações do islã com as religiões antigas, sobretudo as práticas e costumes locais mudaram quando a aceitação do compromisso e da coexistência cedeu lugar à vontade de impor o islã.

Houve por todo o lado uma vontade de uniformização dos modos de vida, de maneira a torná-los estritamente conformes com os preceitos, a lei e o direito do islã: adopção quase generalizada de nomes muçulmanos, transformação das regras de filiação e de herança, com a desaparição progressiva das regras matrilineares em proveito dos mecanismos da patrilinearidade; homogeneização dos gostos e dos hábitos alimentares na sequência da condenação de certas práticas e da promoção de outros comportamentos, importados ou adaptados de Magreb; mimetismo vestimentar; codificação estrita da condição e dos géneros de vida das mulheres, necessidade para as elites, no caso de quererem ser levadas a sério pelos seus interlocutores árabes, de mostrar que estavam perfeitamente informadas a respeito das teorias e dos debates do momento. O direito muçulmano era solicitado não só para justificar a exclusão dos ditos infiéis da posse da terra, mas também para regularizar os antagonismos crescentes entre os próprios muçulmanos.

Africanos islamizados, roubados da sua tradição africana, afligiram o povo africano, afugentando-o do próprio terreno e comunidade/família, legando-o campos de refugiados, sem nenhuma condição de sobrevivência. Hoje, Inúmeras crianças formam os órfãos do drama em Darfur, as mulheres vítimas de agressões sexuais e os homens estão quase todos mortos ou mutilados.

Entretanto, seguidamente à fragmentação do continente africano, às invasões (motivadas, sobretudo pelo ouro sudanês (petróleo), às longas lutas e conquistas libertadores, ainda, resta aos Alkebulanos o papel de resgatar a tradição africana ancestral, sua identidade, e salvaguardar, para a posteridade, a sua sagrada cultura. O professor Asante, no artigo “The Future of African Gods. The Clash of Civilizations” pede-nos para observar o seguinte: “Show me the gods we africans workship and i will show the extent of our moral and ethical decay”. Concluindo que os africanos esqueceram a sua tradição/memória e aceitaram os deuses daqueles que os escravizaram e colonizaram, por isso actualmente se encontra num estado de Maafa.



Veja o filme “Areias e Lágrimas”.

Abenaa.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

FRELIMO
JUNHO DE 1975/INDEPENDÊNCIA DE MOÇAMBIQUE
Ontem mesmo, me disseram categoricamente: "esse negócio de unidade africana foi uma fantasia política criada pelo Ocidente, nunca fez sentido para o africano esse negócio de unidade, panafricanismo e repatriação ... tudo besteira".
Disseram-me também, ontem, que os discursos dos movimentos de independência africano sempre estiveram distantes e apáticos a perspectivas políticas que integrassem a diáspora africana a África.

Maputo – Frelimo 1975

Será? Indaguei.
E foi esse “será?” que permitiu-me não ser enganado, resolvi expor a Frelimo (Frente de Libertação Moçambicana), de ontem, essa questão que envolve diáspora, ocidente, repatriação hoje.

A seguir, a resposta da Frelimo.

Irmão do Ocidente


Irmão do Ocidente...
(Como explicar-te que é nosso irmão?)
O mundo não acaba à porta de tua casa
Nem no rio que limite teu país
Nem no mar
Em cuja vastidão às vezes pensas teres descoberto
O sentido do infinito
Para além de tua porta para além
do mar
o grande combate continua
homens de olhar quente e mãos
duras como a terra
à noite abraçam seus filhos
E partem ao nascer do sol
Muitos não voltaram. Que importa!
Somos homens cansados das algemas
Para nós a liberdade
Vale mais do que a vida
de ti, irmão, nós esperamos, não a mão caridosa
que humilha e mistifica
mas a mão solidária
cometida, consciente.
Como podes recusar,
Irmão do Ocidente?

Frelimo – 1973
Por Kwesi.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

É neste momento
Que devemo-nos preparar
Pra enfrentar dificuldades

É neste momento
Que devemos decidir
Unir, Lutar, Avançar

É neste momento
Que devemos sentir com mágoa
O sangue derramado pelos nossos heróis.

É neste momento
Que devemos estar conscientes
Mais corajosos
Pra lutar nunca vacilar

É neste momento
Que devemos ter em mente
E compreender a causa de nossa luta.

É nesse momento que devemos voluntariamente
Entregarmo-nos a revolução.

Josina Machel

terça-feira, 25 de maio de 2010

Liberação Africana

Hoje, 25 de Maio de 2010, designado pela então Organização da Unidade Africana, actualmente União Africana, em 1963, o dia da liberação africana, foi ressaltado as atribuições de cada país africano que deveriam ser realizadas rapidamente de forma a pôr fim ao colonialismo e racismo. Líderes de países africanos conscientes do domínio económico, político e social, exercido sobretudo pelos europeus, em conformidade de sentimentos, opiniões e objectivos a alcançar, almejaram conjuntamente a liberdade do continente africano.

Unidade que ainda hoje é concebida e reclamada por todos os africanos (no continente ou na diáspora). Evidentemente que refiro particularmente àqueles africanos conscientes da sua identidade africana e, consequentemente, continuamente construtores da sua personalidade africana; cientes da condição da África antes da chegada dos assírios, persas, gregos, romanos, arábes e europeus, e da conjuntura actual de permanente planejada deterioração mental dos africanos (Maafa); convictos da necessidade de continuação da luta pela libertação cultural/mental, económica e política do nosso continente e da importância da Unidade como única via eficaz para alcançar este objectivo.

Todo africano/a que queira participar positivamente nesta luta, é fundamental interiorizar, ao mesmo tempo exteriorizar, a Un-Idade. Sem ela nem precisamos iniciar a luta, se é que podemos falar deste tipo de luta sem a Unidade. Primeiro, há que se organizar a unidade individual (mente, corpo e espírito), depois a unidade colectiva. Cada um deve estar em conformidade consigo mesmo e com todo o Universo para viver, de forma harmoniosa e equilibrada, no mundo actual. O africano, especificamente, necessita da Unidade (individual e colectiva), além disso, para resgatar a sua liberdade e dignidade. Segundo Sua Majestade Imperador Haile Selassie I, infra referenciado « Nossa liberdade é desprovida de significação a não ser que todos africanos sejam livres ». Para isso, nós os africanos carecemos de Un-Idade.

Irmã Tasha já tinha dito no seu artigo publicado numa revista “Rasta-centrada”: “Individuality is a Given, But Unity is a Must”. Uma luta individual só terá significação se for feita de forma favorável à uma realização colectiva.

Todos os anos publicamos mais um artigo sobre 25 de Maio, não com o intento de integrar o ambiente sistemático que é criado neste dia (sabemos bem por quem), porém, aproveitando o momento, para frisar resumidamente valores e princípios humanos básicos à efectiva evolução humana, recorrer ao passado para melhor guiar o futuro e reflectir o significado e real alcance da liberação africana.

Quarenta e sete (47) anos se passaram, a luta pela Un-Idade continua.


UMOJA.

Por Abeba
*

Sua Magestade Imperial, Imperador Haile Selassie I, fala sobre Unidade Africana.
«A Organização da Unidade Africana é uma organização que o povo do nosso vasto continente estabeleceu a fim de performar certas tarefas específicas.
Resumidamente, a organização é instituída com o propósito de proteger, de melhor forma, a independência dos estados africanos. Também significou para acelerar o progresso económico e social através da cooperação de povos africanos. Também teve uma importante tarefa de assistir na manutenção da paz e segurança internacional. Nós sabemos que unidade pode ser, e tem sido alcançado entre homens das mais diferentes origens. Essa diferença de raça, de religião, de cultura, de tradição, não é um obstáculo intransponível para a vinda juntos de povos.
Nós erguemos hoje no palco dos assuntos mundiais, antes da audiência da opinião mundial. Nós viemos juntos para reclamar nosso papel na direcção dos assuntos mundiais e para lançar nosso compromisso com o grande continente do qual 250 milhões de pessoas nós lideramos. África está hoje no meio da carreira – em transicção da África de ontem para a África de Amanhã. Precisamente como estamos neste lugar, movemos do passado para o futuro. A tarefa pelo qual nós temos embarcado, a construção de África, não irá esperar. Nós precisamos agir para definir e moldar o futuro e deixar nossa impressão em acontecimentos quando eles passam para a história. Nós pretendemos neste encontro determinar para onde estamos indo e traçar o curso do nosso destino. Isto não é menos importante que nós conheçamos donde viemos. A consciência do nosso passado é essencial para o estabelecimento de nossa personalidade e nossa identidade enquanto africanos.
Há aqueles quem protestam que Unidade Africana é impossível, que a força que nos puxa, alguns nessa direcção, outros naquela, é muito forte para ser vencida. Ao nosso redor não há carência de dúvidas e pessimismo, nem falta de criticos e crítica. Estes discursos de África, do futuro de África e sua posição no século 20, em pedra sepulcral. Eles dirigem discórdia e desintegração entre africanos e brigas mortíferas e caos sobre o nosso continente. Deixem-nos confundi-los e por nossas acções, dispersá-los em confusão. Há outros cujas esperanças para África são resplandescentes, que mantém com a cara erguida em maravilha e temor na criação de uma nova e feliz vida, que têm dedicado a si mesmos para esta realização e são estimulados pelo exemplo de seus irmãos a quem eles devem as realizações do passado africano. Deixem-nos recompensar sua confiança e mérito confirmação deles ...
Nossa liberdade é desprovida de significação a não ser que todos africanos sejam livres.»

Extracto de discurso publicado em: “My life and Ethiopia´s Progress”, Vol. 2, por Haile Selassie I (Research Associates School Times Publications/Frontline Distribution International, 1997).


Traduzido por Abeba

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Lumumba, mártir e herói (República Democrática do Congo - RDC)

Quase no centro do continente Africano encontra-se um imenso território de 2.350.000 km ². Talvez seja o território mais rico da África. Neste desconhecido território abunda o diamante, ouro, petróleo, pedras de várias espécies, e um elemento muito cobiçado que faz funcionar o telemóvel que tens em suas mãos, o coltan. Esse país foi chamado Congo, depois Zaire, hoje República Democrática do Congo (RDC).

Mas a RDC, apesar de sua riqueza, foi empobrecida. As transnacionais levam minerais e hidrocarbonetos, às vezes sem pagar um tostão, muito pelo contrário, deixam um rastro de conflitos entre “etnia” (grifo nosso), sangue, morte. Dos mais de 60 milhões de habitantes desse país, menos de 5 milhões têm uma vida decente.

Este país sempre foi saqueado. As terras do Congo foram destruídas pelo rei belga Leopold II, que fez desta nação sua propriedade privada. Esse rei levou o marfim e a borracha, à custa de matar elefantes com mão-de-obra escravizada. Dizimou a população, matando, mutilando, escravizando e quando se cansou a cedeu para a colonialista Bélgica que não faria nada para mudar a situação. Tanto aquele cruel monarca como o seu império, contaram desde 1884 com o apoio dos governos dos Estados Unidos, os impérios europeus, e a Igreja Católica. Após iniciar os anos 1960, os imperialistas belga, empregaram métodos brutais para explorar a população congolesa. O flagelo (ou chicote) era utilizado às vezes até matar aqueles que não cumpriam com o seu trabalho escravo, incluindo bebés. Foram milhões os mortos pela exploração imperial.


Lumumba, morrer para viver
Nesse Congo oprimido e rasgado cresceu Patrice Lumumba. Era um dos 100 ou menos nacionais que conseguiram alcançar a educação universitária no seu país antes de 1950. Ele organizou o Movimento Nacional Congolês, e exigiu pacificamente a independência aos imperialistas Belgas. Estes depois de medirem os seus passos, acederam por causa do grande apoio popular do jovem Lumumba. Fizeram tudo para sabotar a nova nação independente.Levaram até os telefones de escritório, infiltraram o exército, limparam as contas bancárias. Eles não queriam aquele negro que desafiou o rei Beduino com estas palavras:
"Durante os anos 80 de domínio colonial sofremos tanto que não podemos afastar as feridas da memória. Fomos forçados a trabalhar como escravo por salários que nem sequer nos permitam comer o suficiente para afugentar a fome, ou vestir-mos, ou encontrar alojamento, ou criar os nossos filhos como seres queridos que são. Sofremos ironias, insultos e agressões dia após dia só porque somos negros... As leis de um sistema judicial que somente reconhece a lei do mais forte nos arrebatam as terras. Não há igualdade; as leis são suaves com os brancos, porém cruéis com os negros. Os condenados por convicções políticas ou religiosas sofreram horrivelmente; exilados no seu próprio país, a vida tem sido pior que a morte. Nas cidades, os brancos têm casas magníficas e os negros espalhados em barracos; aos negros não permitiram-nos entrar no teatro, restaurantes ou as lojas para europeus; tínhamos que viajar em porões ou aos pés dos brancos sentados em cabinas de luxo. Quem pode esquecer os massacres de muitos dos nossos irmãos, ou as celas que foram metidos aqueles que não se submetem à opressão e exploração? Irmãos, assim tem sido a nossa vida ".

"Mas nós, os que vão dirigindo nosso querido país como representantes eleitos, que sofreram no corpo e na alma a opressão colonial, declaramos em voz alta que tudo isso está acabado agora. Foi proclamada a República do Congo e o nosso país está em mãos de seus próprios filhos ".

Este homem negro era perigoso. Anunciava que os congoleses administrariam suas próprias riquezas, anunciava que as multinacionais estavam indo embora. Era um louco! Um revolucionário! Isso não o permitiria os imperialistas do mundo. Isso não estava nos planos da CIA, era uma catástrofe para o "mundo livre." Os imperialistas E.U. e belgas decretaram a sua morte imediata. Em 6 de Outubro de 1960, o governo belga ordenou "eliminar definitivamente Lumumba.

E veio a perseguição e a traição. A cumplicidade das tropas da ONU que permitiram a sua tortura sem intervir. Assim, foi capturado em 2 de Dezembro de 1960, submetido a torturas e exibido como um criminoso perante jornalistas e diplomatas inertes. Mas ele jamais perdeu a sua dignidade.

Em 18 de janeiro de 1961, o primeiro-ministro Patrice Lumumba, de apenas 35 anos, foi baleado por um esquadrão de assassinos. Seu corpo foi dissolvido em ácido de mineração. Um capitão belga dirigiu a operação na presença de agentes da CIA e traidores da pátria.
Carta à sua mulher, Pauline Lumumba, janeiro 1961, uma semana antes de seu assassinato
"Nenhuma brutalidade, maus-tratos ou tortura me demove, porque preferiria morrer com a cabeça erguida, com uma fé inquebrável e uma profunda confiança no futuro do meu país, a viver submetido e pisoando princípios sagrados. Um dia a história nos julgará, mas não será a história conforme Bruxelas, Paris, Washington ou as NU senão a dos países emancipados do colonialismo e seus fantoches ".

Hoje, os congoleses continuam a luta contra as transnacionais de petróleo e mineração, patrocinados pelos impérios. Mais do que nunca fazem eco as palavras pronunciadas por Lumumba no dia da independência. Por ele não devemos acreditar numa palavra dos imperialistas.
Reinaldo Bolívar
www.rebelion.org/noticia.php?id=52727
Em Casas de Africa.

terça-feira, 16 de março de 2010

“Mulher Sagrada: O estado do seu ventre reflete o estado da sua vida*”

O ventre é o portão de toda a vida humana. Quando o ventre é honrado e respeitado, ele se torna um canal de poder, criatividade e beleza – e a sua alegria reina sobre a terra. Quando a sua voz não é ouvida, não é respondida, é negada, o ventre torna-se um vaso de doença.

O estado coletivo dos ventres das mulheres reflete a condição do mundo. Quando, de fato, muitos úteros de mulheres sofrem de tumores, cistos, frigidez, e sangramento mestrual excessivo, quando, de fato, muitas mulheres experimentam atos agressivos sexualmente e histerectomias (extração total do útero) desnecessárias, então a desarmonia cobre a terra.


A condição dos ventres das mulheres também reflete diretamente as condições das mentes, dos espíritos, e ações das mulheres. O ventre é o depósito das nossas emoções. Ele coleta todos os sentimentos – bons e maus. Hoje nós temos alcançado coletivamente um estado de “poder negativo do ventre”.


A vida não natural e o estilo de vida não sadio perpetua o poder negativo do ventre, e isto transforma-se em suporte de conflitos de homens contra o planeta, homens contra homens, e mulheres contra o ventre. A condição do ventre das mulheres reflete a condição de todos as seus relacionamentos. Quando o ventre da mulher está num estado saudável, sua vida é uma reflexão deste balanço.


O amor e o cuidado que a mulher dá ao seu ventre reflete o seu verdadeiro nível emocional, espiritual, físico e saúde mental. Infortunadamente, muitas mulheres no mundo de hoje também experimentam alguma forma de degeneração do ventre que resulta em doença. Como nós mulheres curamos e transformamos nossos ventres, nós mudamos nosso destino e o destino do nosso planeta.


Mulheres, está na hora de pegarmos de volta o controle. Nós devemos defender nossos ventres com nossas vidas, porque o ventre é a terra natal de todas as nossas habilidades criativas.


*Pequeno trecho traduzido de “The state of your womb reflects the state of your life” p. 2. In Sacred Woman: A guide to healing the feminine body, mind, and spirit, de Queen Afua, a partir de leituras feitas entre Núbia Maré e Vadinho, e Núbia Maré e Indira.

kontribuison khemsvibe.

segunda-feira, 8 de março de 2010

MULHER

Nossa mãe-rainha.

Outrora grandes Candaces (mães-rainhas), criadoras, governantes, conselheiras, protectoras, divindades, guerreiras, companheiras. Desde o princípio a mulher sempre esteve Pre-sente. Contribuiu, juntamente com o homem, no percurso normal do Un-I-Verso, de forma recíproca. É a fundadora e a primeira educadora da humanidade. Recebe a Vida, lhe alimenta, cria e apresenta ao mundo, à sociedade.

No início eram a mulher e o homen, “Carne da minha Carne e Ossos dos meus Ossos” - Umoja. Por isso, adulto “o homem deixa o seu pai e a sua mãe para se unir com a sua mulher, e os dois se tornam UMA só pessoa” (in bíblia sagrada).
«A mulher é o repositório da civilização, a guardiã dos segredos da sociedade, mãe de deuses, a manifestação de um princípio universal “feminino” que viu o universo, a terra e o subconsciente como o “útero” para a expressão da vontade Divina».[1]

Podemos citar a Candace Tyie, “a moda é profundamente influenciada por ela. Seu estilo de cabelo, seus brincos, ... dita a beleza feminina na corte real.”[2]

Governou como cônjuge rainha e mãe rainha de Egipto por metade de um século, antes de Cleopatra e Nefertiti. Foi a Candace nubia (terra de ouro) de egipto, Grande Esposa Real de Amen-hotep III, que disse ser ela «a rainha, a mais estimada, a esposa de graça, delicada em seu amor, quem preencheu o palácio com a sua beleza, a Regente de Norte e Sul, a Grande Mulher Rainha do Rei que a ama, a senhora de ambas as terras».

Mãe, por imposição legal, de Candace Nefertiti, que era casada com Akhen-aton, o mais velho dos seus sete filhos. Quando tinha quase 50 anos trouxe ao mundo o seu último filho, Tut-ankh-amen.

Nefertiri, foi uma outra grande Candace: a Rainha duma Missão Sagrada. No seu Tempo a mulher não era principal, que profetizava ou participava nas políticas sociais, mas objecto de sensualidade ou para ser usada pelos homens. Regista o Código de Hamurabi (fonte das actuais legislações) a época que havia o Tirhato, o preço da mulher para transações afectivas. O esposo comprava a sua mulher e podia fazer dela o que quisesse. Tornar a mulher um valor de troca, fazê-la assim sentir, foi empiricamente determinado por psicólogos antigos que pretendiam eliminar o ar de superioridade do nariz da mulher.

Entretanto, Amun-hotep IV (posteriormente, Akhenaton) escolheu a Nefertiri para ser a sua grande rainha mulher, a fundação da sua família. Ela que foi a mulher mais estimada daquele tempo. Principalmente porque não tencionava perpetuar a antiga ordem. Não quis relegar-se a norma tradicional de rainha servil.

Ela visionava um papel activo para ela na remodelação da civilização. Então, numa época de intensos conflitos no Egipto contra o domínio do clero sobre a sociedade, Nefertiri e Ankhenaton decidiram construir uma nova cidade, Akhetaten. “Uma cidade onde a arte pode florescer, onde homem/mulher querem representar a beleza, paz e felicidade”. Nesta cidade, puderam dar nascimento à sua sagrada missão: a missão à procura da Vida Divina, durante a qual tiveram seis filhas.

Como Isis, Nefertiri fez o que pode para manter o domínio de Ma´at (mulher rainha da Ordem, Equilíbrio, Equidade, Verdade, Justiça, rectidão).

E a Isis é a nossa «original madonna (Virgem) negra, a senhora dos milhares de títulos, a Grande Feiteceira, Senhora do Paraíso, sensibilidade feminina, Amor de Irmã, Senhora da Magia, Senhora da Luz, Aposento-de-Nascimento-de-um-Deus, Senhora do Nascer do Sol, A Bela e a Amada, Senhora da Abundância, Rainha Abelha: Fazedora de Mel, Aquela que Chora...» e abunda o Vale de Nilo.

Em períodos mais recentes já sobressaem as grandes rainhas guerreiras africanas como a Grande Rainha Hatshepsut, uma das primeiras rainha-guerreira da história africana, que proclamou-se Pharaoh de Egypto e bem a governou por, dissem, 21 anos.

Também quando a Ethiopia era o centro do mundo, antes da Europa emergir, era governada por uma rainha, Candace Makeda, a Rainha de Sheba. Dissem-nos que a sua luta foi mais diplomacia do que militar, ao contrário do que foi para a Hatshepsut.

Em Angola, outrora Ngoli Nbondi, havia a poderosa Nzinga que fortemente lutou contra o colonialismo português. Quando os portugueses desembarcaram, ela tentou negociar (conversar) com eles, mas quando percebeu que eles pretendiam apenas roubá-los, assimilá-los, desculturá-los e aculturá-los, em detrimento da sua própria cultura africana, organizou o exército e liderou-lhe numa luta armada contra tal colonialismo.

Grande defensora da independência e Liberdade do seu país, ela dizia “mais valia a morte de arco e lança na mão, sim senhor, que a vida, mesmo de mil anos, servindo. A vida de escravo.” (Leia mais neste blog sobre: Nzinga Mbandi Ngola. Meio caminho não andaram: uma carta).

Na resistência ao comércio de escravos e o sistema colonial, mulheres africanas, ao lado dos seus companheiros ou maridos, ajudaram a montar ofensivas por todo o continente africano: Empress Menem e Titul Bitul de Ethiopia, Tinubu de Nigéria; Nadi, a mãe do grande guerreiro Chaka; Kaipkire do povo Herrero de sudoeste de África; e o exército feminino que seguiu o grande rei daomeano, Behanzin Bowele.

A Yaa Asantewa, mãe rainha de Ejisu, que foi expatriada por ter inspirado a guerra do povo Ashanti – a denominada Guerra Yaa Asantewa – contra os britânicos que mantinham exilado o seu rei Prempeh para conseguirem o Banco Dourado, a arca de aliança deste povo.

A Harriet Tubman, grande condutora de Underground Railroad, que levou à liberdade vários escravos nos Estados Unidos da América, e outras grandes mulheres africanas da actualidade (dentro e fora do continente), fundadoras e educadoras das suas famílias, companheiras, grandes líderes e governantes, que permanecem perseverantes na luta pela liberdade, igualdade, justiça.

A mulher tinha (e ainda tem) um valor (não de troca para transações afectivas) e sabia disso, conhecia o Segredo da Vida e respeitava-a, não havia necessidade de preocupar-se com a afirmação. No entanto, a mulher de hoje co-habita mais o homem num círculo activo de agressões (verbal, física e espiritual). Sendo poucas aquelas que queixam-se ou libertam-se deste ambiente ambivalente e inúmeras as que suportam a dor conforme podem (Leia “Foram as dores que o mataram”, em Mornas as Noites de Dina Salústio,).

É unânime que a Educação (principalmente a educação-alternativa) é o principal remédio para a resolução efectiva desta problemática denominada “violência baseada no Género” ou, concretamente, “Violência Doméstica”. Uma situação, condição ou factor crescente de corrompimento da raiz da família, que reduz caoticamente a actuação positiva da mulher na sociedade como fundadora e educadora da família, ao invés, constitue famílias desiquilibradas e desestruturadas, uma plêiade de jovens com mentes transtornados, assim, de efeito espiral.

Presentemente, a luta permanente da mulher africana tem sido resgatar o seu valor e dignidade ancestral e não apenas a Igualdade e Equidade de Género. Ela pretende alcançar um estado de igualdade com o homem, mas, permitam-nos dizê-lo, claro sem generalizar, tem o feito de forma equivocada, sem antes procurar o ontem, no passado. Sem antes identificar ou conhecer o que fora. Aí, ela vem mudando e ensinando comportamentos, faz trabalhos pesados como carregar penedos, é novamente chefe, porém prossegue desconhecendo o seu Real Valor.

Analiticamente, em relação à mulher Rainha e guerreira de Nubia, Egypto, Ethiopia, Angola, Gana, Nigéria, Daomé, nota-se que hoje ela reflecte, mesmo inconscientemente, os hábitos e aspirações da mulher européia, principalmente da antiga Grécia e Roma, em constante repressão à acção da sua verdadeira identidade.

Interessa à mulher africana actual, rainha e guerreira, ser e estar em equilíbrio e harmonia com a Vida em total respeito à Ordem das coisas. Ela precisa regressar ao seu útero (nascer de novo) e destruir este sistema anacrónico que lhe atribue apenas um valor pecuniário, a condição de simples propriedade privada (“pikena”).

Neste mês de Março, considerado da Mulher e principalmente a Mulher Africana, honramos todas as nossas grandes mulheres mães, rainhas e guerreiras.

Ababa Abenaa.

[1 e 2] Tradução

... A MULHER IDEAL ...

Amando como um louco, em busca da ventura,
procuro em vão no mundo uma mulher ideal!
Por cada amor que tive, uma mulher fatal
surgiu na minha estrada, e trouxe-me amargura!

Por cada amor que tive – um sonho meu desfeito,
um sonho encantador, que abraço com paixão!
Sonhar que se desfaz em cálida ilusão,
que abruma, sangra, fere e abandona meu peito!

Por cada vez que amei, imaginei um anjo,
uma mulher divina, altiva e caprichosa!
A flor do meu jardim, a perfumada Rosa,
um ente celestial mais puro que um arcanjo!

Por cada vez que amei, minha rosa sonhadora
sonhou prazer, ventura e um mundo delicioso ...
Viu tudo côr de rosa, ameno e fulgoroso,
E, ao fim, quedou-se triste, aflita e sofredora!

Por cada amor que tive, a minha lira pobre,
entusiasmada e alegre, o meu amor cantou.
A flor por mim amada, ao píncaro elevou
da pura adoração, da santidade nobre!

Desiludida, ao fim, em voz triste e pungente,
a lira que cantara, a minha dor chorou!
Em verso doloroso, amargo, ele cantou
meu mal, minha ilusão, a sina dum sofrente!

Por cada amor que tive, eu tive uma ilusão,
um sonho de inocente, um dia de amargura!
Ferido pela dor, em vez de ter ventura,
recolhe-se a chorar meu pobre coração!

Meu peito desdenhado em busca dum amparo,
volúvel se tornou, amando dia a dia!
Procuro, em vão no mundo, o amor, uma alegria,
duma mulher celeste, um ente puro e raro!

Amando como um louco, em busca da ventura,
procuro em vão no mundo uma mulher ideal!
Porém, por cada amor, uma mulher fatal
encontro em minha via, e deixa-me amargura!


Abel Djassi (Amílcar Cabral)