quinta-feira, 17 de Março de 2011

O impacto do "tráfico escravagista" na condição das mulheres africanas

CAPÍTULO I

Parte I - "De Mulher Protagonista ..."
Na sociedade africana antiga as mulheres foram sempre rainhas-mães-guerreiras, elas participaram activamente nas suas comunidades em todos os sectores da vida humana, combateram à frente de grandes exércitos, presidiram cultos e dedicaram-se à caça. As mulheres africanas já foram excelentes governantes. Dentre as governantes emergem grandes Rainhas, como a Nzingha, rainha de Ndongo (actualmente Angola) e líder da resistência contra o tráfico de escravos dos portugueses; Aqualtune, Princesa de Congo que participou na organização de uma fuga de escravos para Quilombo de Palmares - Brasil; Nanny, Rainha de Gana que liderou os Maroons de Jamaica; Yaa Asantewa, rainha-mãe de Ejisu, em Gana, que promoveu a batalha dos ashantis em busca do resgate da própria dignidade.
Na África antiga a posição da mulher na sociedade é complementar ao do homem e vice-versa. Cada membro da família tinha as suas funções equitativamente distribuídas. Aliás, anos remotos (aproximadamente 8000 A.C.,), a maioria das sociedades africanas era "matricêntrica", "matrilinear" e "matrifocal". Na civilização núbio-cuxita as dinastias denominadas Candaces eram femininas. A mulher africana tinha uma posição adequada à sua condição, ela é devidamente respeitada e reverenciada.

Parte II - O Tráfico Escravagista (século XV-XVIII)
No século XV os europeus ilegitimamente invadiram o continente africano, capturaram pessoas e institucionalizaram o tráfico de escravos, que provocou muitas e fortes transformações no seio das sociedades africanas, sentidas até hoje. Esgotou-lhe o seu elemento humano: homens, mulheres e crianças foram brutalmente arrancados da sua terra africana e introduzidos na Europa, América, para darem involuntariamente o seu contributo físico no incremento da economia do "país acolhedor".
As mulheres, antes rainhas, guerreiras, foram transformadas em mero objecto, sexo e trabalho. O tráfico demandava muita mão-de-obra forçada feminina. As mulheres eram escravizadas para reproduzir, servir de amantes, fazer trabalhos domésticos e agrícolas.
Mesmo as mulheres, que conseguiram permanecer em Alkebulan (nome original de África), não sobreviveram aos efeitos da escravatura e foram obrigadas a humilhação e gradual degradação, pelos europeus que depois mantiveram nos países africanos sob a forma de colonialismo.

Parte III - "... À Mulher Estigmatizada"
A mulher africana é por muito tempo marcada pelo tráfico de escravos. De mulher protagonista, respeitada e reverenciada foi transformada em "mulher-objecto, mulher-sexo e mulher-labor".
Forçosamente incorporadas a sociedades exclusivamente patriarcais e transformadas em mão-de-obra forçada, ainda, pior, em amantes dos senhores brancos, as mulheres africanas foram perdendo a auto-estima e a própria dignidade. Nos séculos XVI a XIX, ela é ainda percebida como ser inferior.
Com o tráfico de escravos, os homens habituaram-se a comprar mulheres africanas no mercado para torná-las concubinas "suscetíveis de serem despedidas dependendo apenas da vontade do homem" - África Negra. Histórias e Civilizações.
A mulher africana é, assim, subalternizada, estereotipada, discriminada e socialmente excluída. Surgindo, deste modo, o fenômeno das mães solteiras, de mulheres vítimas de violências, no seio familiar ou em campos de refugiados (Senegal, Sudão). De forma contínua, mentalmente oprimidas por sociedades patriarcais.
Não obstante, nós as mulheres africanas ainda temos a essência das grandes rainhas-mães-guerreiras. (...)


CAPÍTULO II
Resistência da Mulher Africana
Rainhas-Guerreiras-Africanas


Sem jamais aceitar a condição de ser inferior, rainhas como Nzingha (Angola), Yaa Asantewa (Gana), Nanny (Gana) e Aqualtune (Congo) lideraram grandes movimentos de resistências contra o tráfico de escravos, dentro e fora do continente africano.

Parte I - Rainha Nzingha (1583-1663)
Nzingha, governante e líder militar dos Jagas, assim como a maioria dos africanos, nunca aceitou a conquista portuguesa e esteve sempre na ofensiva militar. Convenceu o seu povo da influência perniciosa dos portugueses e dirigiu intensivas mensagens politícas e patriotas apelando aos angolanos por seu orgulho de serem africanos. Ela foi uma visionária líder política, competente, altruísta e devotada ao movimento de resistência.
Em 1623, com a idade de 21 anos, Nzingha tornou-se rainha de Ndongo (Angola), e logo fortaleceu sua posição de poder, proibiu ser chamada Rainha, assim como a rainha Hatshepsut, exigiu ser chamada de Rei e, na liderança militar, vestia roupas de homem, exigindo desde esta época a Igualdade de Género.
Com a sua morte, começou a ocupação portuguesa do sudeste de África. A massiva expansão do comércio de escravos português seguiu este evento.
Na resistência ao comércio de escravos e o sistema colonial que seguiu a morte da Rainha Nzingha, muitas mulheres africanas ajudaram a montar ofensivas em toda a África. Entre as mais excepcionais estão: Tinubu, de Nigéria; Nandi, a mãe de Chaka, grande guerreiro Zulu; Kaipkire do povo Herero de Sudeste de África (o povo Herero, a sul de Angola-Namíbia, no século XIX até 1919, desenvolveu uma grandiosa luta contra os soldados alemães europeus); e todo o exército feminino que seguiu o rei de Daomé Behanzin Bowelle.

Parte II - Rainha Aqualtune (século XVII)
Aqualtune é a filha de um rei de Congo, que liderou um exército numa batalha contra os Jagas, antes liderado militarmente pela Rainha Nzingha. Os Jagas devidamente apetrechados com armas de fogo, facultadas pelos escravistas europeus, derrotou o exército de Aqualtune, tornando-a prisioneira. A rainha Aqualtune foi levada cativa para um navio de tráfico de escravos e depois vendida como escrava reprodutora. No navio que dirigia para o Brasil, foi obrigada a ter relações sexuais com outro escravo.
Ela grávida foi vendida e levada para o Pernambuco, onde escutou as histórias de resistência dos africanos contra a escravatura no Brasil, sabendo, assim sobre a existência do Quilombo dos Palmares.
Nos últimos meses de gravidez Aqualtune participou de uma fuga para o quilombo. No quilombo teve a sua ascendência real reconhecida e passou a governar um dos territórios quilombolas, onde as tradições africanas foram mantidas.

Parte III - Rainha Nanny (1680-1730)
A Nanny, rainha guerreira dos Maroons, nasceu em Gana, descendente de família real e foi para a Jamaica, onde até hoje é tida em elevada estima, como a figura mais importante na sua história. Porque ela foi líder espiritual, cultural e militar dos Maroons de Windward. Liderou os Maroons durante o mais intenso período de sua resistência contra os britânicos, entre 1725 e 1740.
A Rainha Nanny exerceu um papel da maior importância na preservação da cultura e da tradição africana. Ela promoveu a unificação dos Maroons. Assim, é, desde 1976, Heroína Nacional da Jamaica.

Parte IV - Rainha Yaa AsantewaNo fim do século XIX, os Britânicos, na sua tentativa de tomar as terras de Gana, em 1896, exilou o Rei Asantehene Prempeh. Em 1900, ainda sem conseguir controlar o Gana, os Britânicos enviaram um governador a Kumasi, capital de Ashanti, para exigir o "Golden Stool", símbolo supremo da soberania e independência do povo ashanti, a sua Arca de Aliança.
No dia 28 de Março de 1900, o governador Hodgson, convocou uma reunião com todos os reis da cidade de Kumasi e informou-lhes que a indemnização exigida pelos britânicos ainda não foi paga e o rei Prempeh não retornará a Gana. Os britânicos exigiam deles o "Golden Stool".
Esta demanda significava um insulto para o povo Ashanti, mas o governador de nenhuma forma entendia o significado sagrado do "Golden Stool", que de acordo com a tradição, continha a alma do Ashanti. O povo Ashanti em silêncio ouviu o governador e assim terminou a reunião.
À noite os chefes fizeram uma reunião secreta em Kumasi, debatiam a guerra contra os homens brancos e a forma de trazer para Gana o seu rei quando Yaa Asantewa percebendo que alguns chefes sentiam medo dizendo que não devia ter guerra porque eles podiam simplesmente implorar o governador para trazer o rei de volta ao Gana, de repente, levantou-se e falou o seguinte: "Sinto que alguns têm medo de lutar pelo vosso rei. Se teve nos dias bravos antigos, Osei Tutu, Okomfo Anokye e Opolu Ware, chefes que não sentaram a ver seu rei ser levado sem disparar um tiro. Nenhum homem branco podia falar aos chefes de Ashanti na forma como o governador falou convosco chefes esta manhã. É verdade que já não há bravos de Ashanti? Não posso acreditá-lo. Sim, não pode ser! Eu preciso dizer isto: Se vocês homens de Ashanti não podem avançar, então vamos nós. As mulheres. Eu posso chamar as minhas compatriotas mulheres. Nós iremos lutar contra o homem branco. Nós iremos lutar até a última de nós cair no campo de batalha" (tradução de texto em inglês).
Por isso à guerra empreendida depois pelo povo ashanti contra os homens brancos foi dada o nome de Yaa Asantewa. A guerra Yaa Asantewa foi a última maior guerra na África liderada por uma mulher.

Por Ababa Abenaa.
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Algumas referências bibliográficas:
1. Afrocentricidade. Uma abordagem epistemológica inovadora. Sankofa 4. Matrizes Africanas de Cultura Brasileira. A identidade contraditória da mulher brasileira: Bases Históricas.
2. Elikia M´Bokolo. África Negra. História e Civilizações. Tomo I (até o século XVIII). Casa das África. EDUFBA.
3. Black Women in Antiquity. Ivan Van Sertima.

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