segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A revolta de Ribeirão Manuel

A 12 de Fevereiro de 1910, Nha Ana Veiga lidera em Santa Catarina, na ilha de Santiago – Cabo Verde, a revolta de rendeiros de Ribeirão Manuel, que se recusaram a pagar as rendas aos “morgados” e passaram a colher, sem licença, sementes de purgueira nas suas propriedades.

A revolta de Rubon Manel, muito marcante entre outras revoltas, ocorreu um mês após a Proclamação da Re-pública em Portugal e a posse, na Cidade da Praia, do Governador Marinha de Campos. Ribeirão Manuel sobressai um contexto que a forma de exploração agrária agrava as estruturas de arrendamento em anos de intensa seca e de má colheita, reanimando as tensões entre os morgados e rendeiros.

Os proprietários rurais, estrangeiros feitos Morgados por cartas régias, com falta de escravos, que fugiam continuamente para o interior das ilhas de Cabo Verde, fixando-se em locais de difícil acesso, e de trabalhadores livres, foram forçados a parcelar as suas fazendas em pequenos tractos, dando-os de arrendamento, a dinheiro ou em regime de parceria, aos escravos alforriados, aos auto-libertados e aos libertos por imposição legal ou nascidos livres.

Estes rendeiros, que foram obrigados a servir de rendeiros e de parceiros, aliados às camadas mais desprotegidas, quando tomaram consciência da sua força e importância social, projectaram e executaram diversas rebeliões contra os grandes proprietários de terras, forçando-os a rever em parte as estipulações do contrato de arrendamento.

A ilha de Santiago, marcada pelo sistema de exploração de morgadios, regista a referida revolta que surge das apanhas de purgueira, planta muito rica utilizada na produção de óleo, sabão e que funcionava como moeda de troca no Ribeirão Manuel. Os terrenos de Riberão Manuel faziam parte do monopólio exclusivo dos morgados, pelo que as tropas da cavalaria, após queixa do morgado Aníbal dos Reis Borges contra algumas mulheres, alegando que estas teriam invadido a propriedade da irmã para roubar a purgueira, surpreendendo estas mulheres, as amarraram mesmo sob o protesto do povo.

Segundo relatos, o Padre António Duarte da Graça insurgiu-se contra a prisão deste pequeno grupo de mulheres que tinham colhido ilegalmente sementes de purgueira selvagem.

E o protesto do padre transformou-se numa revolta da população que, comandados por uma mulher, a Senhora Ana Veiga, organizou-se e decidiu libertar as suas mulheres, os homens de pedras e as mulheres de machados marcharam, sob o lema "Aqui não há negro, não há branco, não há rico, não há pobre... somos todos iguais!", em direcção à cadeia de Cruz Grande que acabou por ser aberta perante a sua determinação.

Assim, resulta o provérbio "Omi faka, mudjer matxadu, mininus tudu ta djunta pedra" (Homem faca, mulher machado, meninos ajuntam pedras).

Abeba

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Reciclando utensílios reutilizando ideias

A Associação Comunitária Waaldé tem na sua linha de actuação os que mais necessitam. Um dos seus objectivos é promover melhores condições às mulheres e crianças.

Pensando nesta camada, desenvolveu um projecto orgulhoso e de grande valor social: “Reciclando utensílios reutilizando ideias”. O projecto teve como base a produção de doces caseiros com produtos naturais e reciclados. O público-alvo da formação foram jovens, mulheres, mães, desempregadas ou de baixo rendimento, residente em Achadinha.

Com o financiamento vindo da própria associação e do Programa Nacional do Voluntariado sob a tutela do Ministério do Ministro-Adjunto e da Juventude e Desportos, o projecto foi adiante com muito entusiasmo e dedicação. Para além do grande propósito ser ajudar estas mulheres a criarem uma fonte de rendimento em comum, também desejou-se que elas criassem uma ligação de amizade e sobretudo de solidariedade e inter-ajuda.

Apesar da data de arranque do projecto ter sido afixado de Setembro a Outubro, a sua preparação começou muito antes com a divulgação no bairro, local onde foi realizado o tão aguardado projecto, e na rádio.

Todas as fases foram feitas com muito esforço e luta por parte dos elementos da associação que, entretanto, nunca desistiu desta grande luta em prol das suas companheiras.

Após todo o trabalho feito, finalmente, chegou o grande dia, que foi acompanhado de muita chuva, para abençoar ainda mais o momento. Os dias foram passando e cada etapa da formação foi mais uma ocasião para amadurecer e fortificar o laço de união criados entre todos os que, de alguma forma, participaram no projecto: quer sejam as formandas, os elementos da Waaldé, ou os formadores, que se disponibilizaram vivamente, para dar a sua contribuição.

No final, todos levaram um pouco de cada um. Com os erros e dificuldades, aprendemos para melhorar futuros projectos que certamente virão. Acreditamos que é possível criar alternativas de sobrevivência com poucos recursos e muita criatividade, respeitando sempre o meio ambiente.

Ama

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Ayiti, a outrora “pérola das Antilhas”


“TODO Homem é UM Homem”.

“Os despertos pertencem a UM mundo, mas os adormecidos têm cada um mundo”.

Conhecida pelo primeiro povo, dito ameríndio, a 7.000 A.C., pelo nome de Quisqueya significando na língua Taíno “Mãe da Terra” e Haiti traduzindo “país montanhoso” ou "terra alta", mais tarde pelos criollos por Ayiti, é depois de Cuba, a segunda maior ilha caraíbas, ocupando a terça parte ocidental da ilha que partilha com a república Dominicana.

Em 1492, no decurso duma viagem de exploração para o ocidente, Cristo-vão Colombo chega a Quisqueya chamando-a de Hispaníola e os espanhóis logo fixaram fortalezas no litoral, desprezando a anterior presença humana. Ou seja, logo depois, colonizam a ilha, segundo eles com o fim de “promover a civilização dos ameríndios”, ocorrendo entretanto a escravização dos ameríndios para trabalharem na agricultura e cerâmica.

Em menos de 15 anos, a Espanha extraiu em Ayiti 15.000 mil toneladas de ouro. Depois de quase exterminar os ameríndios, em 1697, assina o Tratado de Ryswick e concede a parte ocidental da ilha, onde fica Ayiti, à França. Hispaníola passa a ser chamada pelos franceses de Saint Domingue (S. Domingos).

Quanto a França, por durante 100 anos, a "pérola das antilhas" alimentara o essencial do seu comércio internacional. O açúcar, café, algodão, índigo, a madeira, entre outros, enriqueciam os negociantes estrangeiros enquanto os africanos viviam como animais de tracção.

Durante todo o século XVIII os franceses incrementaram a formação da agricultura açucareira na região, importando cerca de 500.000 escravos africanos.

No entanto, torna-se frequentes revoltas de escravos. Em 1757, um escravo originário da Guiné, chamado Makandal, “o velho homem das montanhas”, assume o comando de um grupo de auto-libertos, utiliza as crenças do vodu e incita os negros a matar brancos através de veneno. Em 1758, é capturado, condenado à fogueira como feiticeiro e queimado vivo. Mas os negros continuaram a venerar Makandal como profeta e, desde então, todos os ritos usados por eles passaram a ser chamados de makandals. O carácter político do vodu tornou-se tão evidente que tudo se fez para impedir qualquer manifestação religiosa dos negros. Em consequência, os franceses e principalmente a Igreja Católica passaram a reprimir ferozmente o vodu. Padres manifestaram o desejo explícito de extirpar as crenças africanas no país. Em 1941 decretou-se uma campanha para fulminar o vodu, considerado “macaquice, indigna de povo civilizado”. Em 1860, o Ayti e o Vaticano assinam uma Concordata que conduz a punição criminal do vodu.

Acontece uma outra revolta contra a autoridade colonial francesa, em 1790, liderada pelo Vicente Ogé, que acabou preso e torturado. Contudo, a revolta aumenta e os escravos fugem em massa, precedendo a enorme revolta de escravos de Agosto de 1791.

A revolução aytiana foi sempre constante. Os africanos se rebelaram no momento da sua captura na África, nos navios e nas plantações. Boukmann, líder da revolta de escravos de Agosto de 1791 no Ayiti, era um escravo de campo importado da Jamaica, que deu sua vida num esforço para livrar o mundo da escravidão.

Boukmann presidiu uma reunião política em Bwa Kayiman para planejar o fim da escravidão no Ayiti, um evento que teve repercussão mundial, inspirando rebeliões na Carolina do Sul, Louisianna, Virgínia e nas Américas, levando ao fim da escravidão em todo o mundo jurídico.

Após esta reunião, a revolução entrou em erupção no norte do Ayiti, e se espalhou pela ilha toda. Um terço da população do Ayiti, homens, mulheres e crianças lutaram e morreram para o benefício das gerações futuras, queimando plantações e matando os proprietários e capatazes.

Essa revolução durou até 1804. Financiados pelos ingleses e espanhóis, inimigos dos franceses, negros e mulatos se unem sob a liderança do intelectual africano Toussaient-Louverture, descendente dos reis da Arada, filho de Gaou Guinou, um poderoso guerreiro, que através de lutas em África foi escravizado e embarcado para o Caribe, nasceu a 1 de Novembro, no Caribe, e cresceu para ser um nobre, médico, ervalista e curandeiro.

O general Louverture comanda a revolta de Boukmanns, que conduz a uma guerra de libertação prolongada de 13 anos contra os colonialistas de S. Domingos (hoje capital da República Dominicana) e depois, o exército de Napoleão.

A França declara a abolição da escravatura nas colônias. Toussaient prepara a independência do Ayiti, cuida da volta dos antigos escravos à lavoura do país quase devastado e prepara um projecto de constituição. Entretanto, o novo governo francês, sob o comando do cônsul Napoleão Bonaparte, rejeita a proposta de Toussaient e, valendo-se da traição, envia Toussaient para a França, onde morre prisioneiro, recuperando assim a antiga colónia. Porém, um dos generais de Toussaient, o Jean-Jacques Dessalines, organiza o exército, continua a rebelião e expulsa as tropas francesas, derrotando a França, e proclamando a primeira república negra do mundo, em 1 de Janeiro de 1804.

Adquirida a independência (reconhecida pela França somente em 1838), foi preciso não apenas curar as feridas mas também pagar à França em troca uma indemnização financeira de 150 milhões de francos.

A maioria das nações incluindo os Estados Unidos evitaram Ayiti por quase quarenta anos, temível que seu exemplo poderia agitar lá e em outros países escravocratas. Sobre as seguintes poucas décadas Ayiti é forçada a remover empréstimos de 70 milhões de francos para reembolsar a indemnização e para ganhar reconhecimento internacional.

O inimigo tinha destruído tudo antes de isolar completamente o país, colocando-lhe numa situação impossível com medo do contágio, ante, como referido, o pensamento de que toda a caraíba podia ser influenciada pelo mau exemplo. O país isolado pelas grandes potências ocidentais, obrigado a pagar a Paris o preço em ouro da independência, reduz-se a um estado desestabilizado.

Em 1862, os Estados Unidos finalmente concedem a Ayiti o reconhecimento diplomático enviando o notável abolicionista Frederick Douglass como seu ministro Consular. Depois de 53 anos, em 1915, os fuzileiros navais de Estados Unidos da América ocuparam o Ayiti e estabeleceram o controlo sobre as autoridades alfândegárias e portuárias, assumindo o governo, sob o pretexto de proteger os interesses norte-americanos no país, no entanto a fim de cobrar a dívida externa, reprimir o vodu, entre outros.

De 1915 a 1934 o Ayiti conheceu a mais terrível humilhação da sua história: a colonização americana. A independência duramente conquistada e zelosamente preservada até então, é posta em causa com o desembarque dos “marines” americanos. Sem dúvida, antes de 1915, as potências imperialistas européias, aliadas à burguesia do país já disputavam entre si o mercado aytiano. Mas a ocupação americana, que se fez sob os moldes de colonização directa, acabará por orientar e integrar as estruturas do país dentro do capitalismo monopolista. O Banco Nacional, o comércio, a administração e o Exército serão totalmente colocados sob controlo do imperialismo americano. Camponeses serão expropriados e condenados a trabalhos forçados.

Diante do racismo da ocupação americana, adversários desta ocupação, como Charle-magne Peralte, leva os camponeses da região de Artibonite à insurreição. A resistência camponesa aos ocupantes cresce sob a liderança de Charle-magne, que é traído e assassinado por fuzileiros navais em 1919.

Em 1946, uma rebelião popular derruba o presidente mulato Elie Lescot, levando ao poder o negro Dumarsais Estimé. Desde a considerada crise de 1946, que não chegou a ser uma revolução no país, proprietários de terra e pequenos burgueses negros agitaram a bandeira do nacionalismo por uma participação no poder económico e político até então controlada pela burguesia mulata.

Depois eleições controladas militarmente conduzem à vitória do François Duvalier (1954), que em 1964 declara a si mesmo presidente vitalício e instaura uma ditadura violenta baseada no terror dos tontons macoutes (os "bichos papões"). Durante 35 anos esta ditadura assume uma realidade de exploração, injustiças e crimes.

Expulsos pela brutalidade da máquina repressiva ou pelas estruturas de exploração, muitos ayitianos, os boat-people, fugiram em pequenos barcos para a Flórida/Estados Unidos da América, onde posteriormente foram presos e despachados para o território ayitiano, sem tecto, família nem emprego.

O Ayiti de 1986 a 1990 foi governado por uma série de governos provisórios. Em 16 de dezembro de 1990, Jean-Bertrand Aristide foi eleito e assume a presidência de Ayti, a 07 de Fevereiro, num contexto que segundo o próprio “o país era um depósito de lixo”, as ruas esburracadas, as favelas vulneravéis às chuvas tropicais, à penúria de água, ao calor, aos cheiros, à falta de higiene, às imundicíes, o desprezo, caos, à anarquia.
Comprometendo-se Aristide a realizar uma revolução social, afirmando que antes houve apenas uma independência nominal. Porém 08 meses depois, foi deposto por um novo golpe militar planeado pelo general Cédras que Aristide nomeara para a chefia do Estado-Maior e mais tarde como comandante-chefe do Exército. E a ditadura restaura-se no Ayiti.

Em 1994, apoiado pelo Estados Unidos da América, Aristide reassume o país com a economia destroçada pelas convulsões internas, mesmo assim, o ciclo de violência, corrupção e miséria não é rompido.

Os protestos contra Aristide, em janeiro de 2004, fizeram várias mortes em Porto Príncipe, capital de Ayiti. Em fevereiro de 2004, surgiram conflitos armados em Gonaives, espalhando-se pelas outras cidades. Gradualmente, os rebeldes assumiram o controle do norte do Ayiti. Com o avanço destes rebeldes, o antigo presidente, em 29 de Fevereiro, asila na África do Sul e o Ayiti sofre intervenção internacional pela ONU.

Nesse sentido, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou o envio da Força Multinacional Interina, liderada pelo Brasil. Todavia, “considerando que a situação no Ayiti ainda constituía ameaça para a paz internacional e a segurança na região”, o Conselho de Segurança decidiu estabelecer a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Ayiti (minustah), que assumiu a autoridade exercida anteriormente pela Força Multinacional Interina, em 1 de Junho de de 2004, igualmente comandada pelo Brasil.

Missão que sempre foi combatida pelos ayitianos que a considera um braço do domínio imperialista na América latina, tendo a situação do país piorado após a ocupação das tropas minustah. Procurando garantir apenas a segurança das empresas multinacionais instaladas no país, que exploram brutalmente a mão-de-obra barata (escravos modernos), produzindo para os estados unidos a custos mínimos como na China e Bangladesh. "As tropas não estão cumprindo ajudas humanitárias", pelo contrário reprimem as lutas do povo, assassinam aytianos e estupram mulheres. "A ocupação militar e o plano económico" reduziu Ayti novamente a uma colónia. Saiba mais em www.scribd.com/doc/20850531/null.

Actualmente a economia de Ayiti encontra-se destroçada e em ruínas. O povo sofreu a perversidade de seus dirigentes tanto quanto sofrera a da colonização. Uma pequena minoria inspirou-se nos espanhóis, franceses, ingleses, americanos para perenizar a escravidão sob outras formas. Expulsou-se o mau senhor, mas aprendera-se com ele a pilhar, a roubar, a explorar, a reproduzir a dominação.

A outrora “pérola das Antilhas” que motivara os espanhóis, franceses, ingleses e americanos a explorarem seres humanos, com a captura de milhares de crianças, mulheres e homens da nossa ancestral mãe África para trabalharem nas plantações, é hoje a devastada Ayiti, que a 12 de Janeiro de 2010 foi surpreendida por um terremoto de proporções catastróficas, que alguns dizem merecido pelos séculos de adoração ao diabo, referindo-se ao Vodu (o deus da resistência negra, que assim como o criollo são as raízes do Ayiti, sendo o hougan, sacerdote vodu, um sacerdote completo que canaliza, orienta, revigora e vivifica a fé comunitária), e outros vêem como uma oportunidade para desenvolver a economia interna, conservar o poder e reconhecimento internacional por ditas “ajudas humanitárias” concedidas ao Ayiti.

Os ayitianos sobreviventes são obviamente, pelo seu percurso, um dos povos materialmente mais pobres do mundo, tal-qualmente, como genuíno africano, os mais corajosos da terra, que não se resigna, sempre fiel à Cultura e aos valores da Liberdade, por isso achará o Nia (Caminho, próposito) para continuar a labuta pela própria sobrevivência.

Avante Ayiti, para ti e todos os africanos (dentro e fora da mãe Alkebulan), ainda,
A LUTA CONTINUA.

Abenaa.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

“A LUTA CONTINUA”

No dia 23 de janeiro de 1963, o Secretário Geral do PAIGC (Partido Africano Independente da Guiné e Cabo Verde), Amílcar Cabral, deu início a luta armada contra os colonizadores portugueses. Uma luta pela causa da Justiça e o Direito dos povos da Guiné-Bissau e das Ilhas de Cabo Verde, de governarem suas terras como homens livres, com liberdade de pensar, de criar e caminhar com dignidade enquanto africanos. Uma luta que deu continuidade à nossa história, que foi interrompida pelos imperialistas, de nos desenvolver como uma nação livre e autônoma, contruindo uma nova vida. Uma luta pela qual o objetivo essencial foi a realização das aspirações à liberdade, à paz, ao progresso e a justiça social dos povos africanos.

Hoje, 23 de janeiro de 2010, 47 anos depois do dia em que se iniciou a luta armada, ficam algumas questões de reflexão para os nossos irmãos e irmãs africanos analisarem e consignarem em si mesmo a verdadeira importância do que foi o movimento de libertação nacional do PAIGC e repensar as nossas ações afim de redefinir o rumo em que estamos levando o futuro dos nossos povos. Um futuro que, a meu ver, caminha para o sentido oposto da história da construção do nosso Estado Independente. Unidade, Trabalho e Progresso.

Será que Amílcar Cabral lutou em vão? Qual foi a importância de uma luta armada na nossa história? Como hoje vemos e encaramos esse fato (luta armada) com a realidade presente do nosso País e do nosso Continente Africano?

A luta armada foi uma reação, uma resposta à violência, à brutalidade da opressão colonial e neocolonial. Ela não abrange somente a integridade física e territorial como também, a integridade psíquica e intelectual. Foi uma combinação de teoria e prática revolucionária para defender o nosso povo de um domínio estrangeiro, uma forma dolorosa, mas eficaz de continuarmos com o progresso do nosso povo. Mas antes, de falar da luta armada do PAIGC, é importande relembrar o que foi a colonialização e o que é a neocolonialização para que entendamos as questões já mencionadas e quais são os seus efeitos sobre nós africanos hoje.

No que se refere aos efeitos da dominação imperialista sobre a estrutura social e o processo histórico dos nossos povos, convém averiguar em primeiro lugar quais as formas gerais de dominação, do imperialismo. Elas são pelo menos duas:
1)Dominação direta – por meio de um poder político integrado por agentes estrangeiros ao povo dominado (forças armadas, polícia, agentes da administração e colonos) – à qual se convencionou chamar colonialismo clássico ou colonialismo.
2)Dominação indireta – por meio dum poder político integrado na sua maioria ou na totalidade por agentes nativos – à qual se convencionou chamar de neocolonialismo.”
Arma da teoria, Amílcar Cabral, pag. 31 a 32.

A dominação direta, sabemos que perdurou no mínimo quatro séculos, ou seja, quatrocentos anos sob o comando da igreja católica alegando que os africanos são pagãos e que precisam ser salvos por eles, tendo como base uma ideologia diabólica, racista, cruel e desumana. Construíram o imperialismo com o sangue dos nossos ancestrais, destruíram a nossa cultura, impediram-nos ao progresso e submeteram-nos ao regresso enquanto seres humanos. Esta dominação, a que Amílcar Cabral chamou de colonialismo clássico, não foi só uma forma que usaram para oprimir o nosso povo, foi também uma forma que adotaram para construir e perpetuar o seu domínio facista sobre toda a Terra. Hoje, todos sabemos e compreendemos que as grandes potências foram construídas com grandes sofrimentos, massacres e derrame de sangue, mas é incompreensível como poderíamos nós, descendentes dos oprimidos, continuar nas suas cidades, seus impérios, como se nada tivesse acontecido! Ainda sinto o cheiro de sangue quando caminho nas ruas e praças das suas cidades, as marcas dos nossos ancestrais estão por todos os lados, nos museus, nos arquivos históricos e até mesmo nos cemitérios onde existe a presença dessa dominação, por inúmeros lugares onde existiu a segregação, lugares que são frequentados por brancos separados dos negros, até mesmo em Cabo Verde temos essa prova com o cemitério de brancos e pretos na ilha do Fogo. Não há como não ver isso, mas a grande maioria infelizmente não tem essa percepção com frequência.

Essa falta de consciência foi embutida no nosso povo sistematicamente, planejada e calculada, através do neocolonialismo, o que Amílcar Cabral chamou de dominação indireta, em que eles passam a pseudo-independência para o nativo, continuando com o seu regime opressor e facista numa outra escala de domínio. São várias as teorias racistas que eles inventaram para justificar a escravatura e através destas fundaram as suas sociedades e construíram suas cidades nos usando como força produtiva e em troca nos segregaram dos seus planos sociais, culturais e econômicos. Veja algumas teorias racistas defendidas por eles, tendo-as como base da construção das suas sociedades:

O Rev. Thomas thompson publicou em 1772 uma monografia onde procurou demonstrar a inferioridade do negro diante do brando, intitulada: O Comércio dos Escravos Negros na Costa da África de acordo com os Princípios Humanos e com as Leis Religiosas Reveladas.”
Em 1852, o Rev. J.Priest, conhecido etnógrafo e fundador da Sociedade Antropológica de Londres, publicou em tratado denominado A Bíblia defende a Escravidão, onde é a favor desta, usando uma suposta argumentação biblica favorável, na realidade falsa.
Em 1900, C.Carrol em sua obra Provas Bíblicas e Científicas de que o Negro não é Membro de uma Raça Humana, afirma que todas as pesquisas científicas confirmam sua natureza caracteristicamente símia
.” Superando o Racismo na Escola, Kabengele Munanga – organizador, pag. 48.

Assim permanece as suas normas até hoje, a escravatura sempre existiu e ainda existe, mas não é percebida pelo povo. O neocolonializado. Por isso uma luta armada foi necessária e continua sendo necessário lutar também nesta batalha, para não acabarmos oprimidos por tempos maiores do que já fomos. A luta armada foi um instrumento de unificação, assim como foi um instrumento de progresso cultural, afirma Amílcar Cabral, que reuniu as massas em um único movimento de libertação e em uma única ideologia, A libertação nacional total. A importância da luta armada, além de nos garantir segurança, paz e a integridade física foi, sem dúvida, a consciência ideológica benéfica e louvada de ser compreendida e vivida eternamente em cada africano honesto. A luta exigiu a mobilização e a organização de uma massa significativa da população das diversas categorias sociais à unidade política e moral que hoje não se fala muito ou se fala, mas não se põe em prática.

Se aliarmos a estes fatos, inerentes a uma luta armada de libertação, a prática da democracia, da crítica e da autocrítica, a responsabilidade crescente da população na gestão da sua vida, a alfabetização, a criação de escola e de assistência sanitária, a formação de quadros originários dos meios rurais e operários – assim como outras realizações – veremos que a luta armada de libertação é não apenas um fato cultural mas também um fator de cultura. Essa é, sem dúvida alguma, para o povo, a primeira compensação aos esforços e sacrifícios que são o preço da guerra. Perante esta perspectiva, compete ao movimento de libertação definir claramente os objetivos da resistência cultural, parte integrante e determinante da luta.” Arma da teoria, A. Cabral, pag. 69 a70.

Numa perspectiva coletiva, a impressão que se tem hoje sobre a repercurssão da luta armada no nosso povo é que ela abriu-nos o caminho para a libertação nacional na totalidade, mas não foi efetivamente alcançada, porque o povo não beneficia com o “Estado Independente” , liberdade equitária. As normas da sociedade africanas continuam com os alicerces sobre uma constituição opressora, onde poucos tem de tudo em abundância e muitos nada possuem, na miséria. Esses estados independentes (Guiné e Cabo Verde) não foi capaz de manter a promessa de uma liberdade total sem o seu maior protagonista, o Secretário Geral Amílcar Cabral. O estado independente foi incapaz de continuar com a política revolucionária do PAIGC, porém é capaz de nos passar uma falsa ilusão do desenvolvimento e progresso financeirol. No entanto, na perspectiva individual, a luta de Amílcar Cabral foi e continua sendo uma fonte de inspiração para os retos no pensamento e justos na ação, de uma riqueza intangível, incapaz de ser expressa na totalidade por esse meio. Nos poucos que ainda dão real importância a essa luta, existe neles uma consciência revolucionária, uma luta individual comun as aspirações do nosso povo africano. Assim como Amílcar Cabral afirmou nos tempos passados, hoje cumpre-se rigorosamente palavra por palavra, de que a batalha é diferente à de 47 anos atrás, o inimigo pode ser qualquer pessoa com espírito de colono e a arma para enfrentar esta batalha é o conhecimento matématico e tecnologico.

Que esse dia fique na mente dos patriotas como um dia em que devemos renovar as nossas esperanças, pois o próprio Amílcar Cabral sempre mostrava essa esperança nos povos e assim viveu até os seus últimos dias em que esteve conosco fisícamente porque acreditava no destino da África, Alkebu-Lan. Cabral Vive!

Deixo esse discurso do Secretátio Geral, Amílcar Cabral, em Addis-Abeba, Etiópia, em abril de 1971 na Oitava Conferência dos Chefes de Estado de Governos da Organização da Unidade Africana (OUA): “Há pessoas ou combatentes que desesperam, mas os povos nunca desesperam. É necessário confiar nos povos e nós combatentes da liberdade africana, nós que estamos prontos para morrer e vimos camaradas tombar ao nosso lado, nós não temos qualquer razão para não acreditar no destino da África, na capacidade de qualquer que seja o povo africano de se libertar totalmente do jugo colonial e racista e de tomar nas suas mãos o seu destino, como vós próprios o fizestes.” A Arma da teoria, Amilcar Cabral, pag. 11.

Por Vadinho. Uma contribuição de www.Khemsvibes.wordpress.com

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Um pouco sobre a musicalidade de Cabo Verde

Esclarece o antropólogo caboverdiano João Lopes Filho, no seu livro “Introdução à Cultura Cabo Verdiana”, editado pelo antigo Instituto Superior de Educação de Cabo Verde, que a música Caboverdiana é de “melopeia bantu”, ou seja, de origem essecialmente africana.

Como o surgimento da sua população, os instrumentos musicais caboverdianos foram introduzidos em Cabo Verde com o tráfico de escravos, pelos próprios africanos escravizados.

A Cimbó ou Cimboa, uma espécie de rabeca, cujo termo, segundo o referido João Lopes citando António Carreira, é de origem mandinga. Mais diz João, que corroboramos, este instrumento musical preciso ser preservado para não desaparecer. Poucos o conhecem em Cabo Verde e menos ainda o sabem tocar. Diz-nos João que actualmente existe apenas na ilha de Santiago, mas já foi presente em Sto. Antão, S. Nicolau, Fogo e Maio, sendo estas as primeiras ilhas de Cabo Verde a serem povoadas. A Cimboa é normalmente utilizada nas festas da tabanca e no batuque.

Utilizou-se também em Cabo Verde o tambor africano, o Tam-Tam, mas a igreja proibiu o seu uso e substituiu-o pelo tamboril e o tambor português, ambos bimembrafones. O tambor africano desapareceu muito cedo de Cabo Verde. Entretanto, sempre é possível o seu resgate para a preservação, divulgação e manutenção da nossa história, cultura e identidade africana.

Coabitou no ambiente musical, violinos, violões, cavaquinho e bandolim (banjo). O banjo, igualmente, já quase não se usa. Jogo de maracás (chocalho), viola de 10 cordas (5 cordas duplas). Clarinete, trompete, tocados na Morna acústica.
*
As Cantigas de guarda-de-sementeiras, resultado de um meio rural tradicional, caracterizada pela existência ancestral e pela sua função utilitária, ligada ao exercício da actividade agrícola em condições de permanente desafio à natureza (cultura de sequeiro, donde provém o milho e o feijão). A escassez da chuva que causava perdas de sementeiras, e a necessidade de guardar a sementeira evitando corvos, parvais e galinhas-de-mato, determinara o surgimento das cantigas de guarda-de-sementeira, sendo eles as suas personagens.

As Cantigas de curral-de-trapiche, também conhecidas por “cóla-boi” ou “aboios”, surgem com a introdução da cana-de-açúcar em Cabo Verde. Em substituição dos animais de tracção era utilizada a força física do escravo africano nos primeiros engenhos de açúcar, assim, surgindo estas cantigas da “bestialização”, brutificação, destes escravos.

Em situações idênticas de trabalho escravo, surgiram as Cantigas de mondadores, na época da monda (sementeiras), que são designadas de bombena.

Fazem ainda parte da música e dança caboverdiana, a morna, na epóca considerada pelos moradores brancos de Cabo Verde “batuque que agora tocam por aí e que não permite às pessoas dormir”, a coladeira, o batuque - com finaçon e o funaná tendo como lugar próprio o «terrero» - e a mencionada tabanca (peregrinação dançante) de ascendência africana.

(...)
Abenaa.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Ruanda - A história que não se conta: crimes contra hutus, entre 1990 e 2002

O tribunal nacional descobriu uma realidade que não foi investigada pelo Tribunal Penal Internacional para Ruanda, que se limita a julgar os massacres contra a população Tutsi entre abril e julho de 1994 e deixa na impunidade os crimes cometidos contra os hutus ao longo da década, entre 1990 e 2002. O que se segue é um resumo da história contida no acto de processamento do magistrado Fernando Andreu a quarenta altos funcionários do actual governo ruandês, por crimes contra a humanidade e genocídio. Uma história que se explica pouco, porque revela a pilhagem econômica que incita o conflito étnico.

A guerra começa
Em 1 de Outubro de 1990, cerca de 3.000 soldados da FPR (Frente Patriótica do Ruanda: braço político, o Exército Patriótico de Ruanda: ala militar), equipados e treinados pelo Uganda de Museveni - amigo dos Estados Unidos e Reino Unido - invadem o nordeste do Ruanda e massacram a população, provocando ondas de refugiados entre os Hutus perseguidos. Os ocupantes são os filhos da aristocracia tutsi favorecida pelo governo colonial que tinha “deixado” o país, por não aceitar o resultado das eleições de 1961, que levaram à presidência o hutu Grégoire Kayibanda em uma Ruanda constituida em república democrática, que se declarou independente em 1 de Julho de 1962.

O isolamento armado de FPR persegue três objectivos: o extermínio dos hutus, a conquista do poder pela força – ainda mais sacrificando os tutsis que haviam permanecido no país, considerados traidores – e a articulação de uma estratégia com a participação de aliados ocidentais para aterrorizar a região dos Grandes Lagos e apropriar-se das riquezas do vizinho Zaire (hoje Congo).

Matanças selectivas
Intelectuais e líderes políticos hutus são eliminados, a fim de silenciar as vozes de consenso medir a resposta da população civil aos crimes. Entre outras, a 8 de maio de 1993 é assassinado Emanuel Gapsysi, líder do Movimento Republicano Democrático e líder do Fórum para a Paz e Democracia, e em 21 de Fevereiro de 1994 Felicien Gatabazi, presidente do Partido Social-Democrata. As operações são executadas pelo comando Rede, um grupo de elite treinado para matar a sangue frio. O partido do governo criou a sua milícia, o Interahamwe, que atacam a população tutsi. O FPR é inteligente o suficiente para atribuir os próprios ataques ao Interahamwe. Isso gera confusão sobre as origens da violência e uma situação caótica que faz com que o país seja ingovernável.

Frente Política e mediática
A estratégia da FPR centra-se em provocar a raiva dos hutus massacrando a líderes hutus e as populações deste grupo. O FPR faz tudo para construir uma imagem inclusiva através da infiltração das missões diplomáticas. Criar um canal de expressão para reviver os confrontos étnicos: Rádio Muhabura, activa desde 1991 e que em 1993 teria resposta na televisão Radio Libre das Mil Colinas, nas mãos de milícias hutu. Atacando os membros da Igreja, considerada culpada da perda de poder tutsi em 1961, por ter denunciado a fidelidade dos hutus ao estatuto privilegiado dos tutsis, uma desigualdade reforçada pelos interesses coloniais. Liquidar testemunhos que pudessem transmitir uma versão não manipulada dos eventos.

"Gukubura ": limpeza
No início de 1994 havia um milhão de refugiados no interior do país que fugiam das matanças de FPR. Muitos cadáveres foram queimados e os campos são atacados com armas pesadas. Em 14 de março de 1994 se ordenou a gukubura a limpeza total de qualquer elemento hutu nas regiões de Byumba, Umutura e Kibungo. As zonas vazias são ocupadas pelos tutsis provenientes de Uganda. Os presidentes mortos em 6 de Abril de 1994, o Falcon 50, em qual viajam os presidentes de Ruanda e Burundi, Juvenal Habyarimana e Cyprien Ntayamira, é atacado por dois mísseis enquanto se prepara para aterrar em Kigali. Todos os ocupantes morrem. De acordo com pesquisas recentes, a ordem veio de Paul Kagame, um militar treinado em Estados Unidos e máximo responsável da estrutura político-militar da FPR /APR e que tem como finalidade criar um estado declarado de guerra civil, para facilitar a operação de assalto ao poder. A ONU se recusou a investigar.

Violência calculada
O assassinato do presidente Hutu leva a uma espiral de violência calculada contra a população tutsi. O FPR ataca o exército ruandês sujeito ao embargo internacional de armas (FPR recebe armas de Uganda). É a batalha final para a conquista do poder que se resolve a favor dos tutsi de FPR, em 17 de julho de 1994. Desde abril a julho os massacres são relatados e leva a aproximadamente 500.000 vítimas, segundo o ACNUR. Esse episódio passa a história como o genocídio de Ruanda e a comunidade internacional tem escrito uma das suas mais lamentáveis páginas quando a ONU se retirou e deixa a população indefesa. Se bem que a maioria dos mortos eram tutsis, se tem dado pouco a conhecer, até recentemente, a violência contra hutus por parte de FPR: 150.000 assassinatos, desde o momento da invasão, e mais 312.726 entre julho de 1994 e Julho de 1995.

Denúncia Vallmajó
Em 23 de abril cerca de 2.500 camponeses hutus desarmados são metralhados no campo de futebol de Byumba. Paul Kagame dá a ordem. Os corpos são queimados no Parque Akagera ou enterrados em valas comuns. Em 24 de Abril são assassinadas mil pessoas na Escola Social de Bom Conselho e no Centro Escolar de Buhambe. Em abril de 26 de abril militares de APR/FPR levam um padre branco, filho de Joaquim Navata Vallmajó Sala, e os sacerdotes hutus José Hitimana, Faustin Mulindwa e Fidèle Milinda. Seus corpos não foram encontrados. Vallmajó era um testemunho perigoso que difundia as violações dos direitos humanos, também as dos extremistas tutsis de FPR, e denunciou a sua campanha de desinformação.

Testemunhos molestos
Os cooperantes de Médicos do Mundo, Maria Flors Sirera Fortuna (nascida em Tremp), Manuel Madrazo Osuna (Sevilla), Luis Vultueña Gallego (Madrid) também são provas do regime de terror imposto pelo FPR uma vez chegado novamente ao poder. Em dezembro de 1996, iniciam um projeto de saúde para 200.000 pessoas. Em 16 de Janeiro de 1997, um vizinho lhes mostra as valas comuns com centenas de cadáveres do massacre do campus Universitário de Nyakinana. A visita é detectada pelos serviços secretos e isto representa sua sentença, executada dois dias depois. Seguindo a mesma estratégia de silenciar as vozes críticas são assassinados os espanhóis Servando Mayor, Julio Rodríguez, Miguel Angel Isla e Fernando de la Fuente (31 de outubro de 1996, no campo de refugiados de Nyamitangwe) e o sacerdote guipuzcoano Isidro Uzcudun, que foi baleado na boca como uma mensagem (10 de Junho de 2000, em Mugina). São nove as vítimas espanhóis.

Perseguição aos refugiados
A tomada do poder pela FPR/APR faz que milhares e milhares de hutus busquem proteção em campos situados na zona oeste de Ruanda e que, a ser atacados, atravessam a fronteira com a Tanzânia, Burundi e Zaire. Em julho de 1994, há quase 3 milhões de refugiados ruandês, mais de um milhão no Zaire. Em Ruanda os massacres continuam em 95, 96 e 97 como a propagação de conflitos ao Zaire: Laurent Kabila se levanta contra Mobutu no fim de 1996 e com um exército de unidades ruandesas, ugandesas e burundesas toma o poder em julho de 1997. Um ano depois, quando não aceita a tutela externa em seu país - agora designada Congo – fazem a guerra desde Kivu, zona que controla Ruanda. (Kabila seria assassinado em 2001 por um comando da FPR) Os campos de refugiados são bombardeados pelo FPR e as câmeras recolhidos. Ruanda declara acabada a guerra e abre as fronteiras.

Triste papel de ACNUR
Embora o relatório Gersory já havia verificado em 1994 que o regime de Kigali não reunia as condições de segurança, o Alto Comissário das ONU para os Refugiados (ACNUR) inicia o programa de repatriação forçada dos hutus ruandeses a seu país, onde lhes aguarda a prisão e a morte. Metade deles, cerca de 500.000 recusam voltar e no final de 1996, começam dentro do território congolês, uma longa caminhada – mais de 2.000 quilômetros, árdua, a falta de alimentos e remédios - um êxodo incerto para tentar salvar a vida, perseguidos como um objectivo militar, mas inexistente aos olhos da comunidade internacional: ACNUR proclama que todos os ruandeses voltaram voluntariamente para casa. Em janeiro e fevereiro de 1997, Juan Carrero e outros membros na Fundação S'Olivar fazem greve de fome reclamando o fim da violência na região dos Grandes Lagos. Emma Bonino, Comissária Europeia para a Acção Humanitária, visita o campo de Tingi-Tingi, acompanhada de câmeras para mostrar ao mundo que os refugiados estão lá. Logo após vai ali mesmo Sadako Ogata, Alta Comissária da ONU para os refugiados e afirma que só pode assegurar a protecção daqueles que voltar ao Ruanda. O campo Tingi-Tingi é destruído em 1 de março pelo FPR; estavam concentradas ali cerca de 300.000 pessoas. Alguns dos quais haviam abandonado o local e conseguiram chegar à República do Congo [Brazzaville] ou a república Centro-Africana. No total cerca de 500.000 refugiados perdem a vida

A presa
A tutela que não aceita Kabila de seus amigos ruandeses é a da pilhagem das vastas riquezas naturais do seu país, na realidade, o principal argumento da primeira guerra do Congo (no final de 1996 e 1997, que leva Kabila ao poder), da segunda guerra do Congo (em 1998 a invasão do Uganda e Ruanda, com o apoio dos Estados Unidos), também conhecida como o genocídio de Congo, e da violência que até hoje continua. O resultado? Cerca de 6 milhões de mortos desde 1996. Embora apresentado ao mundo como uma guerra tribal o fogo está atiçado desde o Ocidente. Alguns anos atrás a congressista dos Estados Unidos Cynthia McKinna denunciou o envolvimento directo da American Mineral Fields (Campos Minerais Americanos) e até agora dezenas de empresas multinacionais de mineração americanas, canadenses e europeus financiam o conflito, saqueando e extraindo ouro, diamantes, coltan, cassiterita e madeira dentro regime neo-esclavagista.

Fonte:CasasdeÁfrica.
Traduzido por Abenaa.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Acordo de Lisboa 19.12.74

O Acordo de Argel, foi um acordo assinado em 26 de Novembro de 1974 em Argel, pelos representantes de Portugal e do PAIGC, na presença do presidente argelino Houari Boumedienne. Com este acordo é definida a independência de São Tomé e Príncipe para 12 de Julho de 1975 e a independência da Guiné-bissau para 10 de Setembro de 1974. Em relação à Guiné-bissau, ficou definido nesse acordo que as tropas portuguesas sairiam do território até à data limite de 31 de Outubro de 1974. (in wikipédia)
*
A 19 de Dezembro de 1974, assinava-se, em Lisboa, um Acordo que determinava o calendário e os demais processos prévios ao reconhecimento do Estado de Cabo Verde e a proclamação da independência do arquipelágo.
Estabeleceu-se neste acordo, entre outros, que seria criado em Cabo Verde um Governo de Transição, presidido por um Alto-comissário indigitado por Portugal e constituido por mais cinco ministros, sendo dois escolhidos e nomeados por Portugal e os demais três indigitados pelo PAIGC. Fixou-se, ainda, 5 de Julho de 1975 a data para a proclamação da independência e a investidura dos representantes do povo de Cabo Verde.
TEXTO DA PROCLAMAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA DE CABO VERDE (in Boletim Oficial da República de cabo Verde n.º 1, de 05 de Julho de 1975)

Diz a História que as reiteradas tentativas de emancipação social das nossas ilhas, embora tenham deixado mártires e gerado heróis anónimos, foram sempre estranguladas pela opressão colonial.
Coube às modernas gerações, iluminadas pela ideologia de libertação dos povos colonizados e impregnadas do espírito de Bandung, compreender que o problema da miséria e do atraso social das ilhas de Cabo Verde reconduzia-se a um problema político e, como tal, jamais poderia ser resolvido no quadro da sujeição colonial e da alienação da liberdade humana. Antes de mais postulava a reinvindicação e a luta pela independência.
Todavia, para empreender com êxito esta luta, desigual face à expressão numérica das realidades em confronto e ao prestígio de falsos valores dominantes em vastas regiões da comunidade internacional era, na conjuntura histórica, necessário que os Povos Africanos superassem a escala nacional e potenciassem a sua energia vital na cooperação de esforços e na unidade de propósitos revolucionários.
Assim, AMÍLCAR CABRAL, Fundador e Militante N.º 1 do P.A.I.G.C., concebe a genial idéia de renovar no sentido do Povo e de reestruturar na matriz política da libertação dos Povos do Terceiro Mundo, a Unidade dos filhos da Guiiné e Cabo Verde. Assim se funda e se constrói o Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde, força de expansão revolucionária e aglutinante da consciência nacionalista na Guiné e em Cabo Verde, motor histórico de renovação mental, social e ideológica, segundo as linhas da acção construtiva e da pedagogia política do nosso imortal guia, Amílcar Cabral.
O princípio da Unidade da Guiné e Cabo Verde, concebido para a luta e forjado na luta, que já estava prefigurado na nossa comunhão de sangue, de martírios e de História, deu provas irrecusáveis como factor decisivo de mobilização da consciência nacional, de organização para a luta e de transmutação da nossa Sociedade.
Coroada de glória a confrontação política e armada na Guiné Bissau, onde se iniciou a denúncia do Império Colonial Português, o P.A.I.G.C. intensificou a luta revolucionária nas Ilhas: lançou justas palavras de ordem correspondentes às profundas aspirações e aos interesses vitais do nosso povo, mobilizou as camadas trabalhadoras alienadas à omnipotência do Estado Colonial, deu aos trabalhadores públicos e da actividade privada uma nova consciência de dignidade na liberdade, inspirou greves e manifestações de protesto contra actos repressivos da Ordem Colonial, dinamizou movimentos de massa para reinvidicação de bens e valores pertencentes ao sagrado património do Povo.
Assim, a vontade inequívoca das massas populares confirmou, no terreno firme e eloquente dos factos, a legitimidade representativa que o P.A.I.G.C. haviam reconhecido as mais altas instâncias da Organização da Unidade Africana e das Nações Unidas.
Assim, nós, Povo das Ilhas, quebramos as cadeias da subjugação colonial e escolhemos livremente o nosso destino Africano. E a História reterá que filhos do nosso Povo glorioso de Cabo Verde, que se bateram com valentia na frente de luta armada na Guiné, estiveram prontos e decididos para o combate armado em Cabo Verde também, se tal viesse a revelar-se como a única via para a libertação das nossas queridas Ilhas.
Povo de Cabo Verde.
Hoje, 5 de Julho de 1975, em teu nome, a Assembleia Nacional de Cabo Verde Proclama Solenemente a República de Cabo Verde como Naçção Independente e Soberana.
Camaradas e compatriotas,
O Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde foi e continuará a ser a força, a luz e o guia do nosso Povo. Como na República irmã da Guiné, e em Cabo Verde, continuará a ser a força política dirigente da nossa Sociedade hoje totalmente livre.
A República de Cabo Verde é estado de vocação democrática e opção anti-imperialista, onde o poder soberano é exercido no sagrado interesse das massas populares, impondo-se-lhe como objectivo primeiro o prosseguimento na luta pela libertação total do Povo e a consequente edificação duma sociedade isenta de exploração do homem pelo homem.
A República de Cabo Verde assume o solene compromisso de promover a organização económica do País e de criar as bases materiais para a participação no avanço da Ciência e da Técnica e no desenvolvimento da Cultura humanística, rumo ao bem-estar e ao progresso integral do Povo e à realização final da Paz na convivência humana.
As Forças Armadas Revolucionárias do Povo (FARP), nascidas no fragor da batalha pela Independência Nacional, são o braço armado do nosso Partido, ao serviço do nosso Povo. A elas cabe, em primeiro lugar, defender a soberania nacional e a integridade do território, salvaguardar as conquistas revolucionárias do Povo e participar na construção do País, pelo combate ao sub-desenvolvimento e às suas componentes: a miséria, a fome, o analfabetismo.
A conquista da Independência de Cabo Verde é ... ímpar no evoluir da nossa existência, não só para as heroícas populações confinadas ao exíguo espaço da nossa insularidade, mas também para toda a Comunidade Cabo-verdeana esparsa pela Europa, América, Ásia e Oceania. Vitória para África, Mãe Eterna, berço de Culturas e Civilizações milenárias.
A República de Cabo Verde e a República da Guiné-Bissau são duas flores nascidas do esforço e de sacrifício comuns dos filhos da Guiné e Cabo Verde, unidos num mesmo combate, sob a bandeira gloriosa do nosso Partido. Como os filhos de Cabo Verde, que na terra livre da Guiné-Bissau contribuem, como nacionais, para a construção do País, os filhos da Guiné-Bissau terão nesta terra mais uma Pátria, gozando dos mesmos direitos e sujeitando-se aos mesmos deveres que os cidadãos livres da República de Cabo Verde. E o dia não vem longe em que as duas Nações irmãs, associadas numa união fraterna – dois corpos e um só coração – constituirão a bela realidade que o melhor filho do nosso Povo, Amílcar Cabral, sonhou e fez consagrar no Programa Maior do nosso Partido.
A República de Cabo Verde solidariza-se com todos os Povos que lutam pela emancipação social, em particular com os povos do nosso continente, no combate contra o colonialismo, o racismo e o neo-colonialismo. Ela participa activamente na luta pela Unidade dos Estados Africanos, princípio vital da sua existência e missão no Mundo, na base do respeito estrito da liberdade, dignidade e personalidade colectiva dos respectivos povos.
A República de cabo Verde propõe-se, na base do Direito Internacional, estabelecer e estreitar laços de amizade, de cooperação e solidariedade com os Estados Africanos e com todos os demais Estados que reconheçam e respeitem a sua soberania e apoiem a sua justa luta pela libertação de todas as formas de sujeição e alienação. Ela dá uma particular atenção à criação e desenvolvimento de relações de franca cooperação, no interesse recíproco, com países que tradicionalemente acolhem emigrantes caboverdeanos os quais, pelo trabalho perseverante e honesto, têm contribuído para a construção económica dos outros continentes.
No concerto das Nações, e de acordo com as opções do nosso Partido, a República de cabo Verde adopta os princípios de respeito mútuo da soberania nacional, da não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados, da reciprocidade de interesses e vantagens, do não alinhamento, pela paz e cooperação entre os Povos.
A República de Cabo Verde lança um apelo a todos os Estados Independentes, organizações e organismos internacionais, para que a reconheçam de jure como Estado soberano, de harmonia com o Direito e a prática internacionais.
Viva a República de Cabo Verde!
Viva a República da Guiné-Bissau!
Glória Eterna a todos os heróis e mártires da libertação nacional!
Glória Eterna a AMÍLCAR CABRAL, Fundador e Militante N.º 1 do nosso Partido!
Viva o PAIGC, Força, Luz e Guia do nosso Povo, na Guiné e Cabo Verde!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Thomas Sankara, íntegro líder revolucionário africano

As lutas para a segunda liberação da África (I)
O período das independência dos países africanos a partir de finais dos anos 50 e princípios dos anos 60, marca uma etapa importante na vasta luta dos povos africanos por libertar-se do jugo colonial e de todas as demais formas de dominação estrangeira. Este período suscitou grandes esperanças nos povos africanos. Foi percebido como uma etapa crucial para um desenvolvimento endógeno cujos pilares seriam a soberania política dos povos e controle dos recursos naturais.

As independências da década de 1960 representaram uma total vitória sobre a ideologia imperialista da pretendida “missão civilizadora'' do Ocidente em África. Estas independências haviam contribuido a restaurar algum orgulho aos africanos, abrindo uma via para a redescoberta e a reapropriação da verdadeira história do continente. Sob o impulso do presidente Nkrumah, os primeiros países independentes haviam iniciado um processo de unidade, que culminou na criação da Organização da Unidade Africana (OUA), em 25 de Maio de 1963, em Addis Abeba (Etiópia). Esta unidade, apesar das diferenças ideológicas e políticas dos líderes africanos, dava um novo impulso às lutas de liberação no continente e na luta contra o odioso regime de apartheid na África do Sul. As independências tiveram também alguma influência sobre as lutas dos povos africanos contra a opressão e a discriminação que sofriam. Foi sobretudo do movimento pelos direitos cívicos dos E.E.U.U. nos anos sessenta.

I) Os limites da primeira liberação de África

Portanto 50 anos mais tarde, não podemos deixar de notar que as independências não haviam terminado com a dominação do continente africano. Sobretudo, não conduziram a uma ruptura com o modelo herdado da colonização. A dependência externa de África aumentou, o controle e a pilhagem dos seus recursos se deterioraram e a perda de soberania sobre a elaboração de suas políticas de desenvolvimento acelerou-se com os programas de ajustes impostos a quase três décadas pelo Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Apesar da criação da União Africana e da existência de vários grupos regionais, a África está muito longe da unidade, como tem demonstrado as negociações com a UE sobre Acordos de Parceria Económica. Sem dúvida alguma, o continente carece de liderança que pode mobilizar as pessoas em torno de uma visão ousada e unificadora, como fizeram Nkrumah (Gana), Nasser (Egipto), Nyerere (Tanzânia) e muitos mais na ocasião das independências.

A) nascimento do neocolonialismo

Uma grave carência destas independências decorre do fato de que a maioria delas foram concedidas pelas antigas potências coloniais, as quais as torna em independência superficial. Como resultado, essas potências coloniais substituiram a colonização indirecta – o neocolonialismo - à colonização directa. Quase todas as relações de dominação permaneceram intactas assim como as instituições criadas com o fim de legitimá-las. Tanto que na maioria dos casos, a independência foi uma farsa e dava a ilusão de uma''soberania'' que só existia no papel. De facto, alguns países que se encontravam nesta categoria serviram de base para desestabilizar a outros países realmente independentes e alguns movimentos de liberação nacional de paises ou nacões ainda dominados. Por exemplo, na África Ocidental, Costa do Marfim e Senegal têm sido utilizados pela França para desestabilizar a Guiné, durante os anos da presidência de Sékou Touré.

Na esfera económica, estas políticas de desestabilização consistiam em sabotar economicamente ou em estrangular as finanças do país para impedir o sucesso dos esforços de reconstrução nacional dos regimes “hostis”. A nível político, levaram a cabo alguns golpes de estado contra líderes acusados de ''pro-comunistas'' por os países ocidentais durante a Guerra Fria. Foi o caso do presidente Nkrumah em Gana e do presidente Modibo Keita em Mali. Em outros casos, foram cometidos crimes hediondos, como os assassinatos de Patrice Lumumba no Congo ou Thomas Sankara em Burkina Faso. Portanto, um dos factores mais importantes do relativo fracasso da primeira libertação de África foi a substituição do colonialismo pelo neocolonialismo. As estruturas económicas, financeiras e políticas que serviu para subjugar os africanos e para a pilhagem dos seus recursos permaneceram intactas. Além disso, as antigas potências coloniais estabeleceram bases militares ou impuseram acordos de defesa que lhes deram o controle sobre os exércitos recém-criados daqueles países e, portanto, sobre a sua segurança. Através deste controle, as antigas potências coloniais foram capazes de realizar uma desestabilização permanente dos novos estados, como evidenciado a proliferação de golpes militares que assolaram o continente durante as duas primeiras décadas e depois.

B) A continuidade e persistência da ''balcanização''

O triunfo do neocolonialismo se tornou possível graças à persistência da balcanização do continente, herdado do período colonial. Ao concordar em manter as fronteiras definidas pelos colonizadores, os jovens estados africanos agravaram a sua situação de debilidade, sua fragilidade e incapacidade em resistir às pressões das antigas potências coloniais. Esta balcanização consideravelmente limitava o alcance do projecto de unidade africana, que representava a Organização para a Unidade Africana (OUA), o antecessor da União Africana (UA). Entretanto, o presidente Nkrumah havia advertido sobre os perigos desta divisão, ao dizer que ''Africa deve unir-se ou perecer.'' Mas não tinha sido escutado. À luz da situação actual do continente, sua advertência soa como uma profecia e África ainda está pagando um preço muito alto por sua fragmentação, tanto político como económico. A principal razão do fracasso dos esforços realizados para alcançar uma verdadeira união política reside talvez nas pressões e sabotagens das antigas potências coloniais, que vêem nesta unidade um perigo para a manutenção de sua dominação. A rejeição da maioria dos presidentes dos países independentes é um segundo factor.
Eles preferem manter suas ''independências'' e especialmente a sua bandeira, suas relações bilaterais ''privilegiadas'' com a sua antiga metrópole. Este é particularmente o caso dos países “francófonos”, isto é, das antigas colônias francesas. Explica, por exemplo, o fracasso de algumas tentativas de unificação, como a Federação de Mali, entre ele presentes o Mali e o Senegal. Explica também a manutenção de uma moeda como o franco CFA, totalmente controlada pela França.

Finalmente, a Guerra Fria entre o bloco soviético e os países ocidentais contribuiu também para minar a unidade dos países africanoa e aumentar as divisões entre os líderes africanos, submetidos a uma constante pressão por ambos os lados.

C) Debilidade da liderança

Uma parte dos factores herdados da colonização, a natureza da liderança africana, especialmente na maioria dos países cuja independência tinha sido “outorgada'', desempenhou um papel importante na persistência da balcanização e do fracasso da Primeira liberação da África. De facto, em muitos países, os líderes concordaram com os planos da metrópole, ou seja, a aplicação do neocolonialismo. Ao aceitar a continuidade das relações herdadas da colonização, aqueles líderes renunciaram a qualquer intento de transformação económica e social e a um autêntico programa de construção nacional e de unificação africana. Assim, fomentavam o fortalecimento dos laços de dependência que os unia com a metrópole, em todos os âmbitos. Na verdade, a maioria dos líderes dos primeiros anos das independências tinham uma “consciência nacional” bastante fraca, isto é, tal como entendia Frantz Fanon, que careciam de vontade política e certa disposição para superar os interesses pessoais ou de grupo com o fim de defender os interesses vitais da nação. Muitos líderes não tinham outra ambição que a de exercer o poder para tirar proveito. Seu compromisso com a ideologia neocolonial era mais fácil ainda porque tinham herdado de países sem verdadeira infraestrutura e com uns recursos humanos muito limitados. Se juntarmos a desconfiança de alguns líderes de seus próprios povos e intelectuais, muitas vezes considerados como umas simples perturbações, entendemos a facilidade com que os presidentes se renderam ao controle da metrópole. A preponderância deste tipo de liderança que levou ao fracasso de todos os intentos de unidade política de África assim como de integração económica, a nivel sub-regional e continental. Na verdade, a natureza da liderança na maioria dos países foi e continua sendo um dos principais problemas do continente. Portanto, a combinação destes fatores explica o fracasso da primeira libertação de África, iniciada pelas independências no início dos anos sessenta. Este fracasso foi ainda mais palpável quando o FMI e o Banco Mundial inicaram suas intervenções no final dos anos setenta, como resposta à crise da dívida externa. Eles encontraram um continente que, em grande parte, foi encaminhado para o processo de recolonização. A maior parte das realizações destas duas primeiras décadas de independência tinha sido questionada. Os estados pós-coloniais estavam enfrentando uma profunda crise de legitimidade após o fracasso do projeto neocolonial, o qual foi um dos elementos-chave. O Banco Mundial e o FMI não fizeram outra coisa senão exacerbar esse processo de recolonização impondo seus programas de ajuste estrutural nos anos oitenta.

II) As lutas pela segunda libertação de África

No entanto, aquilo não foi suficiente para quebrar a resistência dos povos africanos. Ao contrário, os sindicatos de trabalhadores se opuseram fortemente aos planos de austeridade impostos pelo FMI e o Banco Mundial. Os intelectuais africano, através de várias ONGs e institutos de investigação, desmontaram as análises e as teorias daquelas duas entidades. A OUA e a Comissão Económica para África (ECA), publicaram o Plano de Acção de Lagos (LAP), um primeira e ousada tentativa do continente em romper com os modelos herdados da colonização. Este plano, resultado de vários anos de discussões e reuniões entre líderes e intelectuais africanos, foi um produto 100% Africano, sem intervenção externa. Mas alguns meses mais tarde, o Banco Mundial publicou um documento conhecido como o ''Plano Berg'', o nome do seu autor, Elliot Berg, cujo objectivo principal era contrariar o Plano de Lagos. Politicamente, e apesar de recursos escassos, a OUA continuava mobilizando a opinião africana e internacional para apoiar a luta do povo sul-Africano contra o odioso regime do apartheid e libertar as últimas colônias do continente.

A) As contribuições de Sankara

Neste contexto, a figura emblemática de Thomas Isidore Sankara, um líder carismático da revolução burkinabé, toma uma dimensão significativa. O advento de Sankara e seus companheiros ao poder foi o resultado da resistência liderada pelas forças políticas e sociais africanas contra o neocolonialismo e as tentativas de recolonização dos programas de ajustamento estrutural. Sankara e seus companheiros de armas tomaram o poder em um país considerado como um ''dos mais pobres'' do mundo! O génio de Sankara consistiu em entender que a primeira coisa que tinha de fazer era emancipar as mentes de seus conterrâneos e de descolonizar suas mentes. Isso explica por que começou a restaurar seu orgulho convertendo o''alto Volta'' em Burkina Faso'', ou ''país dos homens íntegros''. Não foi uma simples mudança de nome, como aconteceu com o Zaire de Mobutu. Com Sankara, essa mudança tinha um fundo ideológico, político e cultural. A referência ao ''país os homens íntegros'' permitiu que o povo recuperasse o seu orgulho e dignidade, para que tenha confiança em si mesmo e fé na sua capacidade de trabalhar um futuro, baseando-se principalmente em suas próprias forças.

As lutas para a segunda libertação de África (II)

A luta pela segunda libertação da África está numa fase avançada, e a batalha se estende a todas as frentes. Apesar das aparências, a África está no caminho da sua emancipação. As convulsões actuais são sinais anunciadoras de uma nova África que nasce em meio da dor. Os povos africanos retomaram a tocha acesa por Nkrumah, Lumumba, Sankara e outros líderes e intelectuais africanos, a fim de cumprir a sua missão. Não querem continuar permitindo que outros falem em nome da África e decidam por ela.

1) Um líder visionário
Além de ser um revolucionário sincero, Thomas Sankara era um grande visionário, como Kwame Nkrumah (Gana). Na verdade, todas as grandes questões que constituíam o núcleo das lutas dos povos africanos e dos debates internacionais, tinham estado na mira das políticas implementadas por Sankara. Ele tinha dado grande importância à proteção do meio ambiente, que agora se tornou uma prioridade mundial. Ele entendeu também que a liberdade e a independência de um país deve fundamentar-se na capacidade deste país de se alimentar por si só. Daí a grande mobilização do povo de Burkina Faso para alcançar a soberania alimentar. Para além desta soberania, exortou o seu povo a consumir o que produzia. Estas políticas foram os pilares da sua visão de um desenvolvimento autocentrado, em ruptura com a herança colonial e imperialista. A luta contra a corrupção, muito em voga nestes dias, e que os países ocidentais utilizam como condição para a concessão de sua suposta “ajuda", era uma das prioridades de Thomas Sankara. Não fazia para obter os ''favores'' dos países desenvolvidos, mas para limpar a moral pública e fortalecer a confiança do povo em seus líderes e instituições públicas. A promoção e a protecção dos direitos das mulheres, a guerra contra todas as formas de discriminação de gênero, também fazia parte das prioridades da sua política. Como a dívida de África, foi o único chefe de Estado que a denunciava como um instrumento de dominação e até mesmo como uma nova forma de escravização do continente. Em julho de 1987, poucos meses antes de seu assassinato, disse: ''a dívida, sob a sua forma actual, é uma reconquista da África, perpetrada de forma inteligente, para que seu crescimento e seu desenvolvimento sigam certos padrões, umas normas totalmente desconhecidas por nós. Fazendo de tal modo que cada um de nós se torne num escravo financeiro, isto é, o escravo sem mais, de pessoas que provaram ser suficientemente oportunista, maliciosa e mentirosa como para investir seus recursos em nossos países com a exigência de que os devolvéssemos.'' Esta análise pertinente do papel da dívida externa da África ainda exemplifica o carácter visionário da liderança de Sankara. Na verdade, a dívida provou ser um instrumento de dominação nas mãos dos países ocidentais, o Banco Mundial e o FMI para recolonizar África e acelerar a pilhagem dos seus recursos através da privatização e outras políticas neoliberais que têm tirado os países africanos o direito de desenvolver as suas próprias políticas de desenvolvimento.

2) Herdeiro dos líderes e pensadores revolucionários
Os pensamentos e as acções de Thomas Sankara assumiram sua principal fonte de inspiração em alguns dos ''pais da independência'' e os eminentes pensadores do continente. Na verdade, Thomas Sankara era um digno herdeiro de Kwame Nkrumah, Patrice Lumumba, Amílcar Cabral, Julius Nyerere, Gamal Abdel Nasser, Ahmed Ben Bella, Steve Biko e muitos outros líderes revolucionários e panafricanistas. Sankara conhecia também as idéias de grandes pensadores africanos e da Diáspora, como Cheikh Anta Diop, Joseph Ki-Zerbo, Frantz Fanon, Osende afana, Felix Moumié, Abdou Moumouni, William E. DuBois, Malcolm X, Walter Rodney e muitos outros pensadores pan-africanistas. Mas Thomas Sankara, como revolucionário, foi também influenciado por outros pensadores revolucionários a nivel mundial. Nesse sentido, organizou uma semana antes de ser assassinado uma cerimônia de comemoração do grande revolucionário e indomável combatente para a liberdade que foi Ernesto ''Che'' Guevara. Esta homenagem foi também uma forma de demonstrar a sua profunda admiração e indefectível apoio para a Grande Revolução cubana liderada por Fidel Castro. Apoiava todos os povos na luta contra o imperialismo e o neocolonialismo. Aproveitava todas as oportunidades, tanto em Burkina Faso como fora do país para denunciar as agressões e os crimes do sistema imperialista mundial contra os povos do mundo, e para apoiar as lutas dos povos e das nações contra o colonialismo e a exploração do sistema capitalista. Para Shankara, esse apoio era muito natural, pois que para ele, a revolução de Burkina Faso era herdeira de todas as revoluções do mundo, de todas as lutas empreendidas pelos povos e nações oprimidas da história. Muito antes dos estragos causados pelos programas de ajustamento estrutural, tinha denunciado as políticas do Banco Mundial e do FMI e rejeitou a sua “assistência”. Tratava os “especialistas” de charlatões, cujos conselhos não faziam outra coisa senão afundar ainda mais os países em crise econômica e a dependência externa. Ao mesmo tempo, fustigava a ''ajuda'' internacional que contribuia para um agravamento da dependência internacional dos países do sul. Isso fez dele um revolucionário profundamente sincero e solidário com todos os povos em luta. Seu valor, sua coragem, seu carisma e liderança visionária haviam torná-lo numa lenda viva. Seu último sacrifício e a profundidade de sua mensagem, fez dele um herói lendário, um 'magnífico princípe negro'' que, como Malcolm X, o afro-americano, voltará algum dia para libertar os povos africanos da opressão. .

3) A visão de Sankara sobre a Libertação de África
Para Thomas Sankara, a luta é a única via possível para a liberdade e felicidade. Havia então que mobilizar o povo para que lutar para o progresso social, a justiça, a liberdade, a soberania e por recuperar a sua dignidade humana. Para ele, essa dignidade era fundamental. Tudo o mais era subordinada a este objectivo primordial. Portanto pensava que a distribuição do produto nacional e o modelo de consumo devia ser dependentes da realização deste objectivo. Daí o princípio segundo o qual, se deve ''contar com suas próprias forças'' e consumir o que produzem. A soberania alimentar era uma das estratégicas políticas de Sankara, porque era consciente de que um país que não poderia alimentar-se corria o risco de perder não só a sua independência mas, sobretudo sua dignidade. Para mobilizar o povo e reforçar sua unidade, Sankara sabia que tinha que acabar com o apartheid nacional, um sistema em que uma minoria tinha a maioria dos recursos. Esta situação resultou de relações feudais incentivada pela colonização. Para Sankara, a realização destes objectivos passava pelo fim do neocolonialismo e da reconquista da soberania dos povos sobre seus próprios recursos. Na verdade, para ele, o necolonialismo é o principal inimigo que impede a realização destes objectivos. Assim, combater e vencer o neocolonialismo é a condição necessária para a culminação da libertação de África. Sankara aprofundou neste sentido mais que qualquer líder revolucionário ou progressista depois de Nkrumah e Cabral, aplicando o princípio de que para ser autêntica, a segunda libertação da África tinha de levar à construção do socialismo. Em outras palavras, a verdadeira libertação não era possível sob o capitalismo. Isto é ainda mais compreensível se considerarmos o alto preço que África pagou para o nascimento e desenvolvimento do capitalismo. Como bem sabemos, a escravidão desempenhou um papel fundamental no que Karl Marx chamou “acumulação primitiva” de capital. O colonialismo tem desempenhado um papel importante no desenvolvimento do capitalismo em E.E.U.U. e em particular a Europa. A prosperidade actual desses países vem em grande parte da pilhagem dos recursos do continente africano e de outros países em desenvolvimento. Portanto, qualquer emancipação econômica, social, política e cultural do continente deve necessariamente passar pela ruptura com o capitalismo. A visão, as idéias e acções de Thomas Sankara têm sido largamente ecoada em todo o continente, porque ele encarnava a permanente subversão contra os valores e as instituições do imperialismo e do colonialismo, contra a dominação estrangeira. Encarnava uma visão optimista do futuro, contra o discurso que predominava na África. Portanto se opôs ao fatalismo da ''pobreza'' para mobilizar a seu povo a fim de enfrentar seus próprios problemas, em vez de contar com uma suposta ''ajuda'' international. Com o seu ímpeto, o povo de Burkina Faso fez proezas impensáveis, incluindo a construção da ferrovia entre Ouagadougou e Kara, o número de barragens pequenas e, especialmente, a realização da soberania alimentar.

Em quatro anos, entre 1983 e 1987, conseguiu quebrar alguns mitos, muito tenazes, e minar a credibilidade de muitos estereótipos sobre a África graças a sua grande visão, a clareza do seu pensamento e da sinceridade de suas convicções.

B) As lutas actuais em várias frentes

Mas a visão e acção de Sankara tinham um alcance que transbordava as fronteiras de Burkina Faso e das do próprio continente. Ele tinha muitos seguidores no resto da África. Assim, ele se tornou no herói e na referência da juventude e todas as forças que lutam em distintas frentes pela segunda libertação da África.

1) As lutas dos intelectuais e movimentos sociais
Como já mencionado anteriormente, as políticas que faziam parte das prioridades de Thomas Sankara são hoje o núcleo das lutas dos intelectuais e movimentos sociais africanos. A mobilização contra os programas de ajustamento estrutural, a luta pela anulação da dívida externa ilegítima do continente, a celebração dos ideais pan-africanistas e de integração de África, e rejeição das políticas neoliberais, formam uma série de lutas que todas tendem à libertação total de África, para que o continente possa assumir o seu destino. Essas lutas são apoiadas por movimentos sociais e intelectuais como Samir Amin, Théophile Obenga, grande discípulo de Cheikh Anta Diop, Jean-Marc Ela, Aminata Traore, Boubacar Boris Diop, Pheko Mohau, Thandika Mkandawire, Yash Tandon, Issa Shivji, Adebayo Olukoshi e os pesquisadores agrupados dentro do Conselho para o desenvolvimento da pesquisa em ciências sociais em África (CODESRIA), Sra. N? dri Assie Lumumba e as pesquisadoras agrupadas na Associação de Mulheres Africanas para a Investigação e Desenvolvimento (AFARD ), os Srs. George Nzongola, Elikia Mbokolo, Djibril Tamsir Niane, eminentes historiadores, e muitos mais.

Todas estes intelectuais compartilham os valores incorporados por Sankara e seus ilustres antecessores. Contituem um verdadeiro ''exército da sombra, e levam a cabo uma luta sem concessões contra o neocolonialismo e os seus representantes na África, em particular contra a “Françafrique”, contra a dominação imperialista e todas as formas de dominação estrangeira, assim como contra a pilhagem dos recursos de África. Algumas delas reagiram fortemente às falácias e palavras insultuosas que Nicolas Sarkozy pronunciou contra a África, durante sua visita a Dakar em julho de 2007. Estes intelectuais liderando a luta contra o Banco Mundial, o FMI e a Organização Mundial do Comércio (OMC). Eles têm contribuído significativamente para subtrair crédito a estas instituições e a deslegitimar suas políticas. também têm contribuído significativamente a chamar a atenção dos líderes africanos sobre o perigo dos Acordos de parceria económica que a UE quer impor a África. Ao nível político, têm desempenhado um papel fundamental na consciencialização dos líderes africanos sobre a necessidade de acelerar a unidade do continente e reapropriação das idéias defendidas por Nkrumah, Lumumba, Cabral, Nasser, Cheikh Anta Diop, Nyerere e Sankara, entre outros. O debate actual sobre os Estados Unidos de África e do governo da União Africana é um exemplo claro da sua influência. Eles são os portadores de um pensamento radical que tende a destruir a mentalidade herdada da escravidão e do colonialismo. Trata-se de um pensamento profundamente optimista e que tem fé na capacidade dos povos africanos para moldar o seu próprio futuro de forma independente e para encontrar sua própria via de desenvolvimento, fora dos supostos modelos “universais”. Por este pensamento, não pode haver uma experiência de desenvolvimento ''universal'', mas sim experiências marcadas pelo seu tempo e pelas características do seu espaço cultural e social. Podem conter algumas lições úteis, mas não pode ser aplicadas tal qual em outras sociedades. Esse pensamento é profundamente libertadora e se basea na confiança que tem na inteligência criativa do pensamento dos povos africanos. Se trata de pensamento audaz, subversivo e vigilante contra qualquer forma de dominação. Esses intelectuais estão integrados em movimentos sociais africanos, que desafiam o paradigma neoliberal e procuram construir de Outra África. Estão também influenciados pelas idéias e exemplo de Sankara e seus ilustres antecessores. O legado de Sankara e a influência de suas idéias e suas mensagens são tão presentes que o ano de 2007, correspondente ao vigésimo aniversário de seu assassinato, foi declarado ''Ano Sankara'' pelos movimentos sociais africanos. Esses movimentos querem construir uma Outra África através e para seus povos. Uma África libertada da dominação estrangeira, uma África unida, democrática e forte, que têm um peso significativo no mundo. Este objectivo desafia de forma magistral as forças que querem continuar exercendo a sua dominação sobre a África e a pilhagem dos seus recursos. A prossecução deste objectivo é um Manifesto de liberdade e emancipação intelectual, política, económica e cultural de grande significado histórico. Na verdade, o primeiro passo para acabar com a dominação imperialista e neocolonialista é a emancipação dos espíritos. Não dizia Steve Biko, herói e mártir da Revolução na África do Sul que ''a arma mais poderosa nas mãos do opressor é a mente do oprimido''?
E um dos papéis fundamentais dos intelectuais e movimentos sociais africanos é o de contribuir para essa emancipação, sem a qual todas as outras formas de emancipação não teriam nenhum sentido. Rejeitar e subtrair créditos aos valores do sistema imperialista, deslegitimar a este sistema e as suas instituições, este é o processo que deve levar a liberação mental e intelectual, sem a qual não pode haver nenhuma libertação. Ao mesmo tempo, devemos forjar novos valores e conceitos a partir da realidade vivida pelos próprios africanos e não a que os outros descrevem para eles. Mas a influência de Sankara para a Segunda Libertação da África não se limita aos movimentos sociais e intelectuais. Também é notável a nível dos Estados Africanos e dentro das instituições regionais e continentais.

2) A nível dos Estados

Sem dúvida, a queda do odioso regime do apartheid na África do Sul em 1994, deu uma nova dimensão à luta pela Segunda libertação de África, a nivel politico. A criação da União Africana em 2001, o debate actual sobre os Estados Unidos de África são outras etapas importantes nesta luta. Na verdade, ele reflecte uma determinada tomada de consciência por parte dos líderes africanos, de que a unidade real de África é o único meio de sobrevivência do continente face aos desafios colocados pela globalização neoliberal. Mas o debate sobre os E.U. da África constitue sobretudo uma homenagem a Kwame Nkrumah e a todos aqueles que compartilharam sua grande visão e sua luta pela unidade não só dos povos africanos, mas também da diáspora. A rejeição unânime dos Acordos de parceria económica (APE) pelos chefes africanos, em Lisboa, 8 e 9 de Dezembro de 2007 é outro exemplo da maturidade de um processo de ruptura com o neocolonialismo.

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Fonte:CasasdeÁfrica.
Escrito por Demba Moussa Dembele
Traduzido por Abenaa.