quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Quarta-Feiras de Cinzas

A Quarta-Feira de Cinzas é o primeiro dia da Quaresma, que é o período de tempo de quarenta dias de jejum e abstinência. É uma data religiosa de tradição para a Igreja católica, em que, a maioria dos fiéis vão à Missa de Imposição de Cinzas, na qual o padre faz uma cruz na fronte dos fiéis com a cinza dos ramos benzidos como símbolo de penitência.

Entretanto, esta data é celebrada pela maioria das famílias caboverdianas com muita fartura, em que grande parte da população participa, confeccionando um mesmo prato tradicional, constituído por cozido de peixe seco, cujo ingredientes são couve, mandioca, batata doce, bata inglesa, “axim” (leite de coco), e uma sobremesa a base de mel e cuscuz.

Têm, ainda, a tradição de após um almoço farto, todos sentarem ao sol para facilitar a digestão. Muitos, também, aproveitam a época para reunir toda a família.

Abeba e Kondoxa

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Carne-Vale

1. Antes “alvo de muita repressão de quem não tolerava a subversão de um mundo virado do avesso”, agora uma festa, oficial, celebrado por todos, no mundo inteiro. Contudo poucos lhe conhecem o significado e a origem.

I. Alguns significados

2. Segundo o Dicionário de Língua Portuguesa, Melhoramentos, o Carnaval é “o período de três dias que precede a quarta-feira de cinzas”, sendo este o primeiro dia da Quaresma, aquele que o padre faz uma cruz na fonte de fiéis com a cinza dos ramos bentos. Fixa ainda que o Carnaval é “festejos que se realizam durante esses dias, iniciando-se no sábado imediatamente anterior”;

3. Concomitantemente, o Dicionário Prático Ilustrado, Lello, assevera que é a “época imediatamente anterior à Quaresma”, o período de abstinência de quarenta dias para os Católicos, entre a quarta-feira de cinzas e o domingo de Páscoa. O “tempo de folia que precede a Quarta-Feira de Cinzas. Entrudo”. E, ainda, “folguedo, orgia”.

4. O carnaval é considerado a ocasião oportuna para “a transgressão, o corpo, o prazer, a carne, a festa, a dança, a música, a arte, a celebração, a inversão de papéis, as cores e a alegria”.

II. Origem

5. A origem das primeiras festas carnavalescas ainda é motivo de polémica, “pois a sua memória vem do inconsciente colectivo dos povos”;

6. Provalmente, a comemoração do Carnaval tem as suas raízes nalguma festa antiga realizada pelos povos originais “em honra do ressurgimento da primavera”;

7. “A folia ter-se-á iniciado como uma espécie de culto feito para louvar uma boa colheita agrária,onde as pessoas, mascaradas, dançavam e bebiam. As pessoas, no momento da festa, afastavam as suas preocupações,e saudavam o que lhes parecia um bem com danças e cânticos para espantar as forças negativas que prejudicavam a fertilidade”. Consiste em “danças e cânticos em torno de fogueiras, incorporando-se aos festejos, máscaras e adereços”;

8. Nesta perspectiva, alguns autores acreditam que o Carnaval “tenha-se iniciado nas alegres festas do antigo Egipto, nomeadamente nos festejos associados ao culto da Deusa Ísis, desde o ano 2000 a.C.”, que possuía títulos, como a água frutificativa, a Rainha da abundância e a fonte de prosperidade, entre muitos outros, todos ligados a agricultura. A festa era “dança e cantoria em volta de fogueiras. Os foliões usavam máscaras e disfarces simbolizando a inexistência de classes sociais”.

9. Consequentemente, surge na Antiga Grécia, nos cultos agrários, de 605 a 527 a.C. “Com o surgimento da agricultura, as pessoas passaram a comemorar a fertilidade e produtividade do solo. Estava associado a “cultos ao Deus Dionísio”, o deus ressurrecto dos gregos, bem como o Deus Osíris (Egipto), o primeiro da longa linha de Deuses Ressurrectos;

10. Consta que as primeiras seguidoras do deus Dionísio foram “mulheres que viram nos dias que lhe eram dedicados um momento para escaparem da vigilância dos maridos, dos pais e dos irmãos, para poderem cair na folia "em meio a danças furiosas e gritos de júbilo";

11. Nos dias permitidos, as mulheres, chamadas de coribantes ou sacerdotes da Deusa Cíbele, saíam aos bandos, com o rosto coberto de pó e com vestes transformadas ou rasgadas, cantando e gritando pelas montanhas gregas. Os homens, transfigurados em silenos (Deus da mitologia greco-romana, companheiro de Baco) e sátiros (Semideus dos pagãos), não demoraram em aderir às procissões de mulheres e ao "frenesi dionisíaco";

12. A festança que se estendia por três dias, encerrava-se com uma bebedeira colectiva no meio de um «vale-tudo» pan-sexualista. O miserável vestia-se de rei, o ricaço de pobretão, o libertino aparece como guia religioso, e a rameira local posava como a mais pura donzela, machos reconhecidos vestem-se como fêmeas, e assim por diante;

13. Dionísio brincalhão, irreverente e debochado, estimulava que virassem o mundo de cabeça para baixo.

14. Depois na Roma, “os festejos eram de tal importância que tribunais e escolas fechavam as portas durante o evento, escravos era malforriados e as pessoas saíam às ruas para dançar. Corridas de cavalo, desfiles de carros alegóricos, brigas de papelinhos,corridas de corcundas, lançamentos de ovos e outros divertimentos generalizavam a euforia. Na abertura dessas festas ao Deus Saturno (Deus das Sementeiras), carros com aparência de navios surgiam na "avenida", com homens e mulheres nus. Estes eram chamados os carrum navalis, para muitos a origem da expressão «carnevale».

15. O Carnaval Pagão da Grécia começa quando o tirano de Atenas, Pisistráto (cerca de 600-527 a. C.), oficializa o culto a Dionísio na Grécia, no século VII a.C. e termina, quando a Igreja Católica adopta a festa em 590 d.C;

16. A Igreja Católica, que considerava tais festejos mundanos, determinou que a folia deveria ser realizada dias antes do início da Quaresma. O Carnaval, que nunca foi bem visto pela Igreja Católica, ganharia, ao menos na teoria, algum significado.

17. Uma vez que a festa da semeadura tornou-se pagã e obscena, “a Igreja decidiu adoptar essas festas, transformando-as em libertárias na tentativa de domesticá-las. A solução foi determinar que todas as festas do género realizadas na época (século XV) fossem promovidas na véspera do início da Quaresma, como uma espécie de compensação para a abstinência que antecede a Páscoa";

18. Estava reduzido o Carnaval à celebração ordeira, de carácter artístico, com bailes e desfiles alegóricos;

19. Originariamente os cristãos começavam as comemorações do Carnaval a 25 de Dezembro, compreendendo os festejos do Natal, do Ano Novo e de Reis, onde predominavam os jogos e os disfarces;

20. O Carnaval fixou-se nas cidades de Nice, Roma e Veneza e passou a irradiar para o mundo inteiro o modelo de Carnaval que ainda hoje identifica esta festa com mascarados, fantasiados e desfiles de carros alegóricos.

21. A festa chegou em Portugal nos séculos XV e XVI, recebendo o nome de Entrudo - isto é, introdução à Quaresma – através de uma brincadeira agressiva e pesada. Tinha característica essencialmente gastronómica e era marcado por um divertimento com alguma violência por isso a festa foi perdendo a sua alegria.

22. Em finais do séc. XIX, nas aldeias portuguesas, o Entrudo era um momento de transgressão calendarizada e aceite por todos. Na cidade, o Carnaval transformou-se numa forma de "luta de classes”. Os exageros do Carnaval urbano foram regulamentados e domesticaram-se os festejos, com a criação dos desfiles (Ramos, 1994: 81-82).

23. Foi exactamente esse Entrudo violento que foi inicialmente importado para o Brasil. O Carnaval brasileiro surge em 1723, com a chegada de portugueses das Ilhas da Madeira, Açores e Cabo Verde. A principal diversão dos foliões era atirar água uns aos outros. Em 1855 surgiram os primeiros grandes clubes carnavalescos, precursores das actuais escolas de samba;

24. Portanto, o Carnaval não é, como muitos pensam, brasileiro. Não obstante, foi no Brasil que ganhou a maior dimensão no mundo e tornou-se, além de uma festa popular, um produto de exportação que atrai em cada início de ano milhares de turistas para o Brasil.

III. Em Cabo Verde

25. Constatou-se, nos anos anteriores, a utilização por parte de alguns foliões, de objectos cortantes, nomeadamente, catanas, facas e paus com pregos, bem como, de trajes e cartazes que apelam à obscenidade durante os desfiles carnavalescos. Por isso as Câmaras municipais apelam aos munícipes para evitarem o uso de armas brancas e de trajes e cartazes com dizeres obscenos;

26. Como previsto no orçamento para 2009, a Câmara Municipal de São Vicente atribuiu 7 mil contos ao carnaval deste ano, destinados a subsidiar os grupos participantes, aos prémios e à preparação e logística do desfile de terça-feira. A cada um dos grupos oficiais, Montessossego, Fonte -Felipe em Acção, Flores do Mindelo, Maravilhas do Mindelo e Cruzeiros do Norte, cabe uma fatia 450.000$00 (quatrocentos e cinquenta mil escudos) da qual já receberam a 1ª tranche, no valor de 250.000$00 (duzentos e cinquenta mil escudos). O restante será entregue após a visita da comissão organizadora aos estaleiros e aos locais de ensaio. O subsídio a ser atribuído aos grupos de animação ainda está por definir, já que as inscrições ainda se encontram abertas e vai, assim, depender do número de inscritos.

27. A Câmara Municipal da Praia disponibiliza 600 mil escudos para galardoar três dos cinco blocos carnavalescos oficiais inscritos para o desfile, de terça-feira, de Carnaval na Avenida Cidade de Lisboa. Bloco Afro Abel Djassi (vencedor do concurso de 2008); Vindos d’África, do Bairro Craveiro Lopes; Estrelas de São Filipe; Grupo Sem Vergonha, de Achada Grande e Grupo Inter Ilhas são os grupos oficiais que concorrem aos prémios carnavalescos de 300, 200 e 100 mil escudos, para os três primeiros classificados. Foi atribuida uma quantia financeira de 250 mil escudos disponibilizados pela autarquia a cada grupo sénior; 100 mil escudos aos de animação; 120 mil para cada uma das escolas do EBI e 75 mil para cada jardim infantil.

28. Conforme o gabinete do Secretário de Estado da Administração Pública, em todas as ilhas, com excepção de S. Vicente, é concedida tolerância de ponto no dia 24 de Fevereiro – Dia do Carnaval, no 2º período e durante todo o dia 25, Dia de Cinzas. Na Ilha de São Vicente, o Executivo concedeu tolerância de ponto na terça-feira, 24, durante todo o dia e quarta-feira, 25, durante o primeiro período do dia.

Abeba

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Ditador

Sobre a tua cabeça
Disparo
A lei desfeita
Em pedaços
E dos pedaços
Desses pedaços
Sai a sorte
Que te destino!

/Almada/

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O “DESASTRE DE ASSISTÊNCIA”

A designação remonta-nos a um dos anos de crise mais terrivéis em Cabo Verde. A última com “mortandades colectivas, restando à população o recurso à emigração”.

“A seca e a fome de 1947 foi uma das que mais marcas deixou na consciência dos cabo-verdianos, por ser a mais recente, violenta e de triste memória”. Além disso, por ser a causa determinante do Desastre de Assistência.

Para combater a crise de 1945 - 1949, o Governo Colonial decidiu mandar construir um barracão – celebremente conhecido por o barracão do Ministério da Colónia - onde se oferecia uma refeição por dia às pessoas com fome.

No dia 20 de Fevereiro de 1949, por volta das 11:30 e 12:00 hs, ouviu-se um “estrondo forte provocado pelo desmoronamento do muro sul que delimitava o quintalão das obras públicas que albergava os assistidos”.

Um alto muro, de péssima construção, desabou sobre o barracão onde 2500 pessoas recebiam refeições oferecidas pelas autoridades coloniais, vitimando 232 pessoas e 47 feridos. Mortalidade determinada não exclusivamente a crise natural, mais a inércia do Governo colonial de Salazar que recusou “a ajuda, prontificada por alguns países” já que predominavam as lutas de libertação nacional nas ex-colónias portuguesas e a independência dos Países Africanos. A Rádio Moscovo bem noticiou que “o desastre na Cidade da Praia define um Governo”.

Contudo, todos os particulares, funcionários e comerciantes, independentemente das classes sociais, cientes da carência actual de recursos humanos, dirigiram-se ao Hospital Agostino Neto para oferecer ajuda e solidariedade.

Acerca do Congo

http://www.youtube.com/watch?v=gKu3vPQ6ZhQ

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Poesia de Abel Djassi

... SIM. QUERO-TE!

Quero-te quando solitário cismo
na nossa vida,
nossa triste vida...
e optimista, esperançoso eu vejo
o me futuro,
o teu futuro,
e uma vida melhor...

Quero-te quando a nossa melodia,
a nossa morna,
cantas docemente...
...e eu sonho, eu vivo, e eu subo a escada mágica
da tua voz serena,
e eu vou viver contigo!

Quero-te quando contemplo o nosso mundo,
um mundo de misérias,
de dor,
e de ilusões...
...e penso, e creio e tenho
a máxima Certeza
de que o romper da aurora
do “dia para todos”
não tarda... e vem já perto...

...e o mundo de misérias
Será um mundo de Homens...
....................
..................................

Eu quero-te! Eu quero-te!
Como o dia de amanhã!...

AS MORTES DE AMÍLCAR CABRAL

1. Aproximadamente três horas da madrugada Amílcar Cabral (Abel Djassi) e a mulher Ana Maria chegam no seu Volkswagen numa casa em Guiné Conacri cujo presidente, na época, era Sekou Touré. Espera-lhes, segundo a His-tória, Inocêncio Kani, um veterano da guerrilha, ex-comandante da Marinha do PAIGC e outros membros do Partido. Uma voz ordena que amarrem Djassi entretanto este RESISTE, não deixa que o atem. O comandante do assalto dispara e atinge-o no fígado. Djassi prôpos diálogo, mas a resposta foi uma rajada de metralhadora que acerta-lhe a cabeça. Teve uma morte imediata.

(...)

2. Amílcar Cabral foi sepultado em Guiné Conacri e assim desaparece, fisicamente, o considerado mais esclarecido dirigente africano da sua geração, o principal teórico da luta armada africana de libertação.

Um homem que sempre viveu em coerência com os seus ideais e líder do movimento guerrilheiro que almejava uma comunidade fraterna que floresceria — em várias ocasiões o escreveu e disse — quando os dois povos levados à guerra se libertassem do opressor comum.

Vítima dum ajuste de contas, o Abel Djassi, teve a segunda morte no golpe de Estado de Nino Vieira de 14 de Novembro de 1980 que impossibilitou o seu grande sonho de fazer da Guiné e de Cabo Verde um único país, ou, um Estado confederado, e desmembrou o PAIGC por ele fundado.

Morreu com a ostentação, a corrupção. Morreu com a miséria, a doença e a fome. Morreu quando velhos camaradas – da luta de libertação — se digladiaram numa luta fratricida infligindo à Guiné-Bissau uma destruição terrivelmente superior à provocada por onze anos de guerra.

Djassi continuará a morrer enquanto o seu povo não lhe dá o merecido respeito, honra e mérito. Enquanto as palavras de ordem não se cumprirem. Enquanto não perceber-mos o passado, não melhorar-mos o presente. Não tornar-mos a luta colectiva nem entender-mos que esta luta continua e em direcção à libertação cultural.

(Fonte: www.Google.com e Waaldé)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

França: cúmplice do genocídio em Ruanda


Jornal francês divulga documentos que provam que o governo do então presidente François Miterrand sabia da preparação dos massacres; mesmo assim, manteve o apoio ao regime ruandês.

Documentos secretos do governo da França, divulgados no começo do mês, revelaram que o país, sob o comando do então presidente François Miterrand (1981-1995), seguiu apoiando os líderes de Ruanda, responsáveis pelo genocídio que matou entre 800 mil e um milhão de pessoas entre abril e julho de 1994, mesmo ciente de que o massacre era iminente e estava sendo planejado com antecedência.

Na época, o governo do país do Leste da África, comandado pela etnia hutu, preparou e executou o assassinato de civis da etnia tutsi e de hutus contrários ao presidente. Embora as causas do genocídio contenham elementos étnicos, muitos analistas apontam que estes foram exacerbados, de forma pensada, em nome de questões políticas.

É a primeira vez que a forte suspeita desse suporte aos executores do massacre por parte da França é confirmada. Os documentos foram obtidos por advogados de seis tutsis sobreviventes, que estão processando o país europeu por "cumplicidade com o genocídio", no Tribunal Militar de Paris.

Telegramas e memorandos antes confidenciais, publicados pelo jornal francês Le Monde no dia 3, sugerem que o ex-presidente (morto em 1996, em decorrência de um câncer) estava obcecado com a ameaça da influência anglo-saxã sobre Ruanda, de língua francesa.

Um dos argumentos que os líderes do chamado Poder Hutu usaram para "convencer" os civis hutus a se voltarem contra os tutsis foi o perigo representado pela Frente Patriótica Ruandesa (FPR), guerrilha formada por refugiados desta última etnia que viviam há muitos anos em Uganda, de língua inglesa, e que tinha como objetivo destituir o governo de Ruanda (veja mais em matéria nesta página).

Alertas desprezados

Um telegrama diplomático de outubro de 1990 – quase quatro anos antes do genocídio, quando a FPR entrou em território ruandês pela primeira vez –, enviado ao governo francês pelo adido de defesa do país em Kigali, capital de Ruanda, já alertava sobre o "número crescente de prisões arbitrárias de tutsis e pessoas próximas a elas. (...) É para se temer que a situação possa se degenerar em uma guerra étnica".

No dia seguinte, o então embaixador da França em Ruanda, Georges Martres, avisava: "Os hutus civis organizados pelo MRND (partido do presidente) intensificaram a procura de tutsis suspeitos nas colinas. Os massacres chamam a atenção no distrito de Kibilira".

Mesmo com tais avisos, o governo francês decidiu enviar militares à Ruanda para o treinamento das Forças Armadas do país. No começo do ano seguinte, as operações foram reforçadas. Em março de 1992, outro memorando, dessa vez do diretor de Assuntos Africanos do Ministério de Relações Exteriores da França, Paul Dijoud, pede um fortalecimento complementar da presença militar francesa em Ruanda, pois "a guerra está pior e mais dura". Como conseqüência, o fornecimento de armas aumentou.

Em 19 de janeiro de 1993, outra mensagem diplomática, enviada pelo embaixador, não deixa dúvidas a respeito da ameaça de um genocídio planejado pelo governo ruandês ser posto em execução. O documento cita a afirmação de um informante local de que o presidente do país, Juvénal Habyarimana, havia sugerido "conduzir um genocídio sistemático usando, se necessário, a assistência do Exército, além de implicar a população local nos assassinatos".

Em um recado de 15 de fevereiro de 1993, Bruno Delaye, conselheiro do governo responsável pela África, alerta que a FPR é "capaz de tomar Kigali (a capital)", e cita a dificuldades existentes na região, favoráveis ao mundo anglo-saxão, além da existência no país africano de um "sistema excelente de propaganda, apoiado por assassinatos horríveis cometidos por extremistas hutus".

Em 3 de março do mesmo ano, o general Christian Quesnot, comandante especial do Exército francês, propõe a Miterrand a incriminação da guerrilha através de uma "forte e imediata reorientação da informação da mídia francesa a respeito de nossa política em Ruanda, lembrando os ataques severos aos direitos humanos cometidos pela FPR: massacre sistemático de civis, limpeza étnica, deslocamento da população, etc".

Uma hora, mil mortes

Três meses antes do início do genocídio, em 12 de janeiro de 1994, um telegrama diplomático enviado pelo embaixador em Kigali é taxativo: o plano começaria com uma provocação às tropas da FPR na capital, para estimular um ataque. "As vítimas ruandesas, que certamente surgiriam como conseqüência de uma reação como essa, seriam então uma razão boa o suficiente para uma eliminação física dos tutsis na capital.

De acordo com o porta-voz da Unamir (a missão da ONU no país), 1.700 homens da milícia Interahamwe teriam recebido treinamento militar e teriam sido armados para tal propósito, com a ajuda do comando das Forças Armadas de Ruanda. A população da capital facilitaria a eliminação de mil tutsis dentro da primeira hora depois do começo dos conflitos".

Levando-se em consideração que, em cem dias, foram assassinadas 800 mil pessoas, chega-se ao número de pouco mais de 300 mortes a cada hora. No entanto, como a maior parte das vítimas foram dizimadas nas primeiras semanas do massacre, é bem provável que a meta tenha sido alcançada.


Em 6 de abril, a derrubada do avião do presidente Juvénal Habyarimana serviu como estopim. O genocídio se inicia. No fim do mesmo mês, Jean- Michael Marlaud, novo embaixador francês em Ruanda, sustenta a tese de que o conflito era espontâneo, e não planejado: "Enquanto a FPR tentar tomar o poder, eles (os hutus) irão reagir com massacres étnicos".

No dia 24 de maio, o general Quesnot alerta para o perigo que a FPR representaria para a estabilidade da região, afirmando que a guerrilha seria uma espécie de "Khmer Negro", uma referência ao Khmer Vermelho, partido comunista do Camboja acusado de matar, entre 1974 e 1978, quando esteve no poder, cerca de 2 milhões de pessoas.

Igor Ojeda
www.brasildefato.com.br/v01/agencia/internacional/franca-cumplice-do-genocidio-em-ruanda

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Jomo Kenyatta, o maasai da independência de Kenia

Em Kenia, os veículos se manejam a inglesa, então até 1963 os britânicos mantiveram sua ocupação nesse país, famoso também por seus enormes parques naturais que preservam a rica fauna e flora africana. Kenia é a terra dos Maasai, rica cultura autóctone que conserva sua dignidade e essência. Kenia sujeitou-se em 1884 as garras avarentas dos impérios europeus, que depois de 300 anos de comércio com seres humanos sequestrados em África para ser escravizados, repartiram o continente africano como se de um bolo se tratasse.

Os Maasais são uma familia étnica de mais de 120 grupos. É uma cultura milenária, deslocada pelos ingleses as terras mais pobres do este de África, porém sempre conservaram seu idioma, seus costumes e sobretudo seu modo de vida colectivo, socialista. Eles se levantaram contra os invasores. Jomo Kenyatta prisioneiro pela liberdade. De família maasai, havia sido baptizado pelos cristãos com o nome de John Meter, a essa identificação renegaria para mudar pelo seu nome indígena (1938). Porque já com trinta anos, em 1922, levantava sua voz contra os abusos ingleses contra o seu grupo, os Kikuyu. A acção rebelde de Kenyatta, em todo o território Keniano, recomeça em 1952, depois de un périplo de formação por Europa e a União Soviética (1929 ? 1946), na qual estudou antropologia, arte, cinema e economia. Reinicia sua actividade política e é detido pelo governo britânico.

Se converte assim no primeiro grande líder africano a ser feito prisionero pela causa da independência, depois viriam outros como Nelson Mandela em África do Sul. Da cadeia manteria uma constante comunicação com outros líderes do panafricanismo como NKrumah de Ghana. Na prisão, Kenyatta fundou o partido União Nacional Africana de Kenia. Enquanto estava na cadeia, na sua pátria se registava uma guerra de resistência contra a ocupação inglesa, que obrigou a coroa britânica a buscar uma saída política a independência de Kenia. Oportuno será citar, o trabalho de Kenyatta durante sua juventude, na qual fundou escolas para seus compatriotas, a fim de alfabetizar e ensinar o amor pela libertade de sua pátria. Importante trabalho, porque a estratégia imperial para submeter os Povos do Sul é evitar a todo custo sua formação, sua instrucção, para com a ignorância os manter submetidos.

Prévio a entrada a cena política de Kenyata, um grupo político que utilizava qualquer forma de resistência contra a ocupação européia, tinha em alerta os britânicos, se tratava do movimento Mau Mau. O líder panafricanista sempre declarou o seu desacordo com os métodos violentos, por considerar que faziam danos a inocentes e civis. É essa uma característica dos grandes homens e mulheres com vocação de libertar: o amor a paz. Ao contrário dos impérios que se impuseram com violência, com sangre. Durante os nove anos de encarceramento se produziram constantes manifestações nacionais que exigiam a liberdade do líder. Se produziu então, algo inédito na história africana. Kenyatta foi suplicado nas primeiras eleições na Kenia pela União Nacional Africana de Kenia (KADU). Kenyatta, foi designado primeiro ministro em 1961 a estabelecer seu partido e em 1963, depois da independência, Presidente da República. Outra vitória da África revolucionária.

Por Reinaldo Bolívar
Traduzido por Abeba