quinta-feira, 17 de março de 2011

O impacto do "tráfico escravagista" na condição das mulheres africanas

CAPÍTULO I

Parte I - "De Mulher Protagonista ..."
Na sociedade africana antiga as mulheres eram rainhas, mães e guerreiras, elas participavam activamente nas suas comunidades em todos os sectores da vida humana, combatiam à frente de grandes exércitos, presidiam cultos e dedicavam-se à caça. As mulheres africanas eram excelentes governantes, dentre as quais emergem grandes Rainhas, como a Nzingha, rainha de Ndongo (actualmente Angola) e líder da resistência contra o tráfico de escravos dos portugueses; Aqualtune, Princesa de Congo que participou na organização de uma fuga de escravos para Quilombo de Palmares - Brasil; Nanny, Rainha de Gana que liderou os Maroons de Jamaica; Yaa Asantewa, rainha-mãe de Ejisu, em Gana, que promoveu a batalha dos ashantis em busca do resgate da própria dignidade.
Na África antiga a posição da mulher na sociedade é complementar ao do homem e vice-versa. Cada membro da família tinha as suas funções equitativamente distribuídas. Aliás, anos remotos (aproximadamente 8000 A.C.,), a maioria das sociedades africanas era "matricêntrica", "matrilinear" e "matrifocal". Na civilização núbio-cuxita as dinastias denominadas Candaces eram femininas. A mulher africana tinha uma posição adequada à sua condição, ela é devidamente respeitada e reverenciada.

Parte II - O Tráfico Escravagista (século XV-XVIII)
No século XV os europeus ilegitimamente invadiram o continente africano, capturaram pessoas e institucionalizaram o tráfico de escravos, que provocou muitas e fortes transformações no seio das sociedades africanas, sentidas até hoje. Esgotou-lhe o seu elemento humano: homens, mulheres e crianças foram brutalmente arrancados da sua terra africana e introduzidos na Europa, América, para darem involuntariamente o seu contributo físico no incremento da economia do "país acolhedor".
As mulheres, antes rainhas, guerreiras, foram transformadas em mero objecto, sexo e trabalho. O tráfico demandava muita mão-de-obra forçada feminina. As mulheres eram escravizadas para reproduzir, servir de amantes, fazer trabalhos domésticos e agrícolas.
Mesmo as mulheres, que conseguiram permanecer em Alkebulan (nome original de África), não sobreviveram aos efeitos da escravatura e foram obrigadas a humilhação e gradual degradação, pelos europeus que depois mantiveram nos países africanos sob a forma de colonialismo.

Parte III - "... À Mulher Estigmatizada"
A mulher africana é por muito tempo marcada pelo tráfico de escravos. De mulher protagonista, respeitada e reverenciada foi transformada em "mulher-objecto, mulher-sexo e mulher-labor".
Forçosamente incorporadas a sociedades exclusivamente patriarcais e transformadas em mão-de-obra forçada, ainda, pior, em amantes dos senhores brancos, as mulheres africanas foram perdendo a auto-estima e a própria dignidade. Nos séculos XVI a XIX, ela é ainda percebida como ser inferior.
Com o tráfico de escravos, os homens habituaram-se a comprar mulheres africanas no mercado para torná-las concubinas "suscetíveis de serem despedidas dependendo apenas da vontade do homem" - África Negra. Histórias e Civilizações.
A mulher africana é, assim, subalternizada, estereotipada, discriminada e socialmente excluída. Surgindo, deste modo, o fenômeno das mães solteiras, de mulheres vítimas de violências, no seio familiar ou em campos de refugiados (Senegal, Sudão). De forma contínua, mentalmente oprimidas por sociedades patriarcais.
Não obstante, nós as mulheres africanas ainda temos a essência das grandes rainhas-mães-guerreiras. (...)


CAPÍTULO II
Resistência da Mulher Africana
Rainhas-Guerreiras-Africanas


Sem jamais aceitar a condição de ser inferior, rainhas como Nzingha (Angola), Yaa Asantewa (Gana), Nanny (Gana) e Aqualtune (Congo) lideraram grandes movimentos de resistências contra o tráfico de escravos, dentro e fora do continente africano.

Parte I - Rainha Nzingha (1583-1663)
Nzingha, governante e líder militar dos Jagas, assim como a maioria dos africanos, nunca aceitou a conquista portuguesa e esteve sempre na ofensiva militar. Convenceu o seu povo da influência perniciosa dos portugueses e dirigiu intensivas mensagens politícas e patriotas apelando aos angolanos por seu orgulho de serem africanos. Ela foi uma visionária líder política, competente, altruísta e devotada ao movimento de resistência.
Em 1623, com a idade de 21 anos, Nzingha tornou-se rainha de Ndongo (Angola), e logo fortaleceu sua posição de poder, proibiu ser chamada Rainha, assim como a rainha Hatshepsut, exigiu ser chamada de Rei e, na liderança militar, vestia roupas de homem, exigindo desde esta época a Igualdade de Género.
Com a sua morte, começou a ocupação portuguesa do sudeste de África. A massiva expansão do comércio de escravos português seguiu este evento.
Na resistência ao comércio de escravos e o sistema colonial que seguiu a morte da Rainha Nzingha, muitas mulheres africanas ajudaram a montar ofensivas em toda a África. Entre as mais excepcionais estão: Tinubu, de Nigéria; Nandi, a mãe de Chaka, grande guerreiro Zulu; Kaipkire do povo Herero de Sudeste de África (o povo Herero, a sul de Angola-Namíbia, no século XIX até 1919, desenvolveu uma grandiosa luta contra os soldados alemães europeus); e todo o exército feminino que seguiu o rei de Daomé Behanzin Bowelle.

Parte II - Rainha Aqualtune (século XVII)
Aqualtune é a filha de um rei de Congo, que liderou um exército numa batalha contra os Jagas, antes liderado militarmente pela Rainha Nzingha. Os Jagas devidamente apetrechados com armas de fogo, facultadas pelos escravistas europeus, derrotou o exército de Aqualtune, tornando-a prisioneira. A rainha Aqualtune foi levada cativa para um navio de tráfico de escravos e depois vendida como escrava reprodutora. No navio que dirigia para o Brasil, foi obrigada a ter relações sexuais com outro escravo.
Ela grávida foi vendida e levada para o Pernambuco, onde escutou as histórias de resistência dos africanos contra a escravatura no Brasil, sabendo, assim sobre a existência do Quilombo dos Palmares.
Nos últimos meses de gravidez Aqualtune participou de uma fuga para o quilombo. No quilombo teve a sua ascendência real reconhecida e passou a governar um dos territórios quilombolas, onde as tradições africanas foram mantidas.

Parte III - Rainha Nanny (1680-1730)
A Nanny, rainha guerreira dos Maroons, nasceu em Gana, descendente de família real e foi para a Jamaica, onde até hoje é tida em elevada estima, como a figura mais importante na sua história. Porque ela foi líder espiritual, cultural e militar dos Maroons de Windward. Liderou os Maroons durante o mais intenso período de sua resistência contra os britânicos, entre 1725 e 1740.
A Rainha Nanny exerceu um papel da maior importância na preservação da cultura e da tradição africana. Ela promoveu a unificação dos Maroons. Assim, é, desde 1976, Heroína Nacional da Jamaica.

Parte IV - Rainha Yaa AsantewaNo fim do século XIX, os Britânicos, na sua tentativa de tomar as terras de Gana, em 1896, exilou o Rei Asantehene Prempeh. Em 1900, ainda sem conseguir controlar o Gana, os Britânicos enviaram um governador a Kumasi, capital de Ashanti, para exigir o "Golden Stool", símbolo supremo da soberania e independência do povo ashanti, a sua Arca de Aliança.
No dia 28 de Março de 1900, o governador Hodgson, convocou uma reunião com todos os reis da cidade de Kumasi e informou-lhes que a indemnização exigida pelos britânicos ainda não foi paga e o rei Prempeh não retornará a Gana. Os britânicos exigiam deles o "Golden Stool".
Esta demanda significava um insulto para o povo Ashanti, mas o governador de nenhuma forma entendia o significado sagrado do "Golden Stool", que de acordo com a tradição, continha a alma do Ashanti. O povo Ashanti em silêncio ouviu o governador e assim terminou a reunião.
À noite os chefes fizeram uma reunião secreta em Kumasi, debatiam a guerra contra os homens brancos e a forma de trazer para Gana o seu rei quando Yaa Asantewa percebendo que alguns chefes sentiam medo dizendo que não devia ter guerra porque eles podiam simplesmente implorar o governador para trazer o rei de volta ao Gana, de repente, levantou-se e falou o seguinte: "Sinto que alguns têm medo de lutar pelo vosso rei. Se teve nos dias bravos antigos, Osei Tutu, Okomfo Anokye e Opolu Ware, chefes que não sentaram a ver seu rei ser levado sem disparar um tiro. Nenhum homem branco podia falar aos chefes de Ashanti na forma como o governador falou convosco chefes esta manhã. É verdade que já não há bravos de Ashanti? Não posso acreditá-lo. Sim, não pode ser! Eu preciso dizer isto: Se vocês homens de Ashanti não podem avançar, então vamos nós. As mulheres. Eu posso chamar as minhas compatriotas mulheres. Nós iremos lutar contra o homem branco. Nós iremos lutar até a última de nós cair no campo de batalha" (tradução de texto em inglês).
Por isso à guerra empreendida depois pelo povo ashanti contra os homens brancos foi dada o nome de Yaa Asantewa. A guerra Yaa Asantewa foi a última maior guerra na África liderada por uma mulher.

Por Ababa Abenaa.
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Algumas referências bibliográficas:
1. Afrocentricidade. Uma abordagem epistemológica inovadora. Sankofa 4. Matrizes Africanas de Cultura Brasileira. A identidade contraditória da mulher brasileira: Bases Históricas.
2. Elikia M´Bokolo. África Negra. História e Civilizações. Tomo I (até o século XVIII). Casa das África. EDUFBA.
3. Black Women in Antiquity. Ivan Van Sertima.

terça-feira, 1 de março de 2011

O Papel das Mulheres Negras na Diáspora

Por Kati*Éwa Ireti

As mulheres Negras tiveram uma experiência histórica diferenciada que o olhar míope e clássico do racismo não reconhece, bem como as opressões sofridas por essas mesmas mulheres passam sem grandes atenções, o que caracteriza situações de exploração, que acaba por influenciar nas construções da identidade feminina negra.

A figura do ser negra no contexto diásporico aparece a partir de uma movimentação política existente desde processo de escravidão. No entanto a situação dessas mulheres é silenciada por esse mesmo processo que as não identifica como sujeito de ação. As mulheres negras representaram no contexto histórico as mentoras de lutas de sobrevivência, sobre tudo as sua, em um cenário onde viver sem possíveis agressões tanto físicas como mentais não nos era permitido.

Em torno de nossa figura, criou-se o mito da super preta, onde o papel de fragilidades era inexistentes, esses por sua vez destinados as moças de pele rosadas denominadas: Sinhás.

Longe de fragilidade, as mulheres negras Africanas na diáspora usavam desta suposta força como estratégias de poder para sobreviverem, transformar a fraqueza (ou fragilidade percebida) feminina em força é quase um rito de passagem para as mulheres Africanas na história.

Audre Lorde Ativista do movimento negro americano (1934-1992) analisa em seu texto incluído na coletânea de Mari Evans (1984, p261) ,que se a fraqueza da mulher Negra de fato existe, é apenas para manifestar sua força. Se a mulher negra Africana atribuir à fraqueza mais substancial do que isso, significa que ela sucumbiu ao medo – que não seria impedimento para trabalhos maiores.

Neste contexto as mulheres negras sobreviveram às opressões sofridas criadas pelo racismo como forma de política de manter seus direitos garantidos.

No entanto a visão criada sobre nós mulheres negras não foge muito de olhar estereotipado, o que mudou foi à forma de sermos vistas, ontem mucamas, a serviços de frágeis sinhás e senhores de engenho, hoje domésticas de mulheres liberais e dondocas ou a eterna imagem de mulatas boas de samba.

Com o inicio das ações políticas feministas, as mulheres negras percebam que sua luta partia de necessidades e processos diferenciados, a busca de emancipação baseado em uma vivência branca, não nos fazia sentido.

Enquanto as mulheres brancas buscavam direitos de evitar filhos, as mulheres negras reivindicavam o direito de tê-los, criá-los e vê-los vivos até a velhice – Como nos ilustra Jurema Werneck em sua passagem no texto A face Negra do Feminismo no Livro Saúde das Mulheres Negras.

Outro ponto identificado e não menos importante era o direito de trabalhar, e serem reconhecidas nos espaços de trabalho, para nós que trabalhávamos há mais de 500 anos em mão de obra escrava e sem escolha de patrão e horas extras de estupros recorrentes, servia apenas a bandeira da luta por direitos trabalhistas.

A importância dessas questões para as populações vistas como descartáveis, como a população negra e sobretudo as mulheres negras, impulsionou um olhar negro sobre o feminismo, longe dessa esfera eurocêntrica na qual não nos contemplava.

A luta de Lélia Gonzáles e Beatriz Nascimento na construção de um novo olhar para esse feminismo e de tantas outras mulheres brilhantes pretas, cria a possibilidade das mulheres negras reafirmarem uma luta histórica de mais de 500 anos de resistência.

Nas diversas formas de interpretar o feminismo, olho com mais atenção a uma forma de construir políticas para as mulheres negras em um paradigma onde a população negra possa andar em conjunto, falo do mulherismo africano, uma articulação feminina totalmente distinta do feminismo branco e de alguns olhares viciados desse mesmo feminismo, muitas vezes vivenciado por nós mulheres negras. Um olhar voltado unicamente pra as interpretações africanas, criado para alcançar todas as mulheres negras em África e Diáspora, baseada em uma vivencia diária em saberes africanos.

Katherine Bankole no seu texto Mulheres Africanas nos estados Unidos - Publicado no livro Afrocentricidades da coleção Sankofa, Volume 4, de 2009 - Apresenta uma olhar mais atenta sobre essa forma de vivenciar o ser mulher negra, faz uma importante analise emergente de como se construir um olhar de feminilidade Africana, criticando esse olhar de feminista apenas em uma construção de gênero.

Vivenciar essa forma de feminilidade é mais próximo de África que podemos chegar, criando regras de avaliação de suas feminilidades, o que na verdade há muito já são vividas por nós mulheres Africanas e Afro-Diásporicas. Embora mulheres negras e brancas se aproximem no diálogo de feminilidade a vivência de mulheres negras não passa pela aprovação ou deliberação de um patriarcalismo branco, essa dependência se torna inexistente, assim como a auto afirmação de uma feminilidade distorcida.

Em um olhar enegrecido sobre as óticas feministas mulheres pretas e homens pretos lutam de uma forma igual à eliminação desta doença eurocêntrica chamada sexismo.

No entanto eliminar essa patologia enraizada é um ponto chave para construção de esse olhar negro. Como nos ilustra mais uma vez Jurema Werneck :

A luta pela emancipação da mulher negra não tem por finalidade apenas formar mulheres seguras, capazes e brilhantes, que visem com isto adquirir privilégios individuais. Essas conquistas são como veículos para gerar transformações na vida da população negra (Extraído do texto A face Negra do Feminismo – Livro A saúde das mulheres Negras).

O papel das mulheres negras na diáspora perpassa pela luta histórica construído por essas mesmas mulheres, vinculado a um berço africano enraizado em nossas vivências diárias de luta e permanência de um saber africano, a possibilidade de uma modelo civilizatória com base nos valores anti-racistas, afrocentrados, vivenciados pela população negra em sua esfera mundial, torna a luta de nós mulheres negras um alicerce para construção de um novo devir... Um devir Negro!

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BIBLIOGRAFIA:

BANKOLE. Katherine. “Mulheres Negras nos Estados Unidos”, Livro: Afrocentricidade: uma abordagem epistemológica inovadora. Elisa Larkin Nascimento (org.). São Paulo: Selo Negro,2009. (Sankofa : Matrizes Africanas da cultura brasileira; 4).

CARNEIRO. Sueli. Enegrecer o Feminismo. Artigo Apresentado no Seminário Internacional sobre Racismo, Xenofobia e Gênero, organizado por Lolapress em Durban, África do Sul, em 27 – 28 de agosto 2001. Publicado em espanhol na revista LOLA Press nº 16, novembro 2001

LEMOS. Rosália Oliveira. “A face Negra do Feminismo – Problemas e Perspectivas”, Livro: O livro da Saúde das Mulheres Negras: Nossos passos vêm de longe. Jurema Werneck (org.), Maisa Mendonça (org.), Evelyn C.White (org.). Maisa Mendonça (tradução), Marilena Agostini (tradução), Maria Cecília MacDowell dos Santos (tradução) – 2 ed. – Rio de Janeiro: Pallas /Criola, 2006.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Escravatura uma Transformação e Exploração Económica


Esse trabalho reflecte um pensamento que foi elaborado no sentido de procurar, esclarecer e debater sobre as origens, e causas do capitalismo no mundo em que vivemos, sobretudo as consequências no nosso continente Africano e no nosso mundo em geral.
Esse é o mundo em que vivemos, onde a dependência doentia da economia baseada em escravos, e a disparidade entre ricos e pobres é o principal factor que origina, a indigência humanitária como a guerra, fome, morte, ditadura, escravatura, e a divisão social e psicológica. O factor económico influencia a soberania, dita as regras, administra os lucros, define os privilegiados e os excluídos, isto é o retrato do mundo dos endinheirados e dos empobrecidos, a causa e o efeito da distribuição económica. Hoje em dia muitos países denominados de “subdesenvolvidos” vivem dependentes das ajudas financeiras externas, como do FMI (Fundo Monetário Internacional) e do BM (Banco Mundial). O capital concedido aos países “subdesenvolvidos” circula numa direcção, o de dar e receber, o dobro do que foi dado, com juros e um conjunto de regulamentos que influenciam para o crescimento da pobreza e o acorrentamento dos países “subdesenvolvidos”.
Para compreendermos o rápido desenvolvimento económico dos países “Subdesenvolvidos” precisamos analisar o percurso da história, continuarmos à procura de factos, que comprovam a exactidão das investigações, cujo o intuito é saber a verdade, e sabendo a verdade, ela nos libertará, tanto ao nível físico como psicológico. O homem transformou-se num ser ambicioso, ganancioso e tornou-se numa potência destrutiva quando, os nossos antepassados Africanos e o mundo em geral foram reduzidos a condição de colónias ou de semi-colónias pelas grandes potências européias entre os séculos XVI e XX, e todos até agora têm permanecido, totalmente ou em grande parte, dependentes dos países desenvolvidos da segunda metade do século XX.
Isso quer dizer que a propagação da pobreza mundial tornou-se mais acessível com a procura de mão-de-obra Africana por parte dos Europeus como meio de auto desenvolverem-se no sector industrial e se proclamarem super potências mundiais com o comércio triangular de escravos. Com o regime esclavagista construiu-se impérios na base da exploração, onde o aumento económico de uns foi a desgraça económica de outros. Eles buscaram a forma fácil e directa de enriquecer, a custa de humilhação e desumanização, precisamente dos nossos antepassados Africanos, onde os efeitos demográficos e perturbadores de um comercio que exigia a captura brutal e a venda de seres humanos atrasaram o desenvolvimento das actividades comerciais e a evolução dos mecanismos institucionais necessários à expansão do capitalismo.
E através do Tráfico Atlântico operou grandes transformações em muitas das economias européias (em especial da Inglaterra, França, Holanda, Espanha e Portugal) porque em alguns aspectos as respectivas estruturas sociais se modificaram, nomeadamente com o surto de classes enriquecidas com o negócio de escravos, uma das actividades mais lucrativas nos séculos XVIII e XIX. A acumulação de bens materiais de uma forma nefasta e prejudicial contribuiu para o desenvolvimento de um capitalismo exposto a dificuldades e crises de crescimento que vai estar na origem da corrida Européia e, acessoriamente, Americana para a partilha do resto do mundo, entre 1870 e 1918, aproximadamente. Contudo, foi com a exploração e partilha do continente Africano que permitiu a solidificação do processo acumulativo que conduziu a revolução industrial à escala mundial. O Comércio triangular, resultou uma enorme contribuição para o desenvolvimento industrial da Grã-Bretanha.
A corrida imperialista não foi pacífica. Os colonizadores usavam de violência com a população, utilizando a exploração pela força e submissão racial. De uma forma ou de outra, sempre menosprezaram os povos colonizados. Além disso, os europeus não estavam preocupados com o progresso e o bem-estar da população africana. A ocupação paralisou o desenvolvimento específico dos povos Africanos e feriu suas culturas e autonomia.
Hoje o continente Africano e o mundo em geral são controlados por “Empresas Multinacionais”, tais como a IBM (Estados Unidos), Volkswagen (Alemanha), Fiat (Itália), General Motors (Estados Unidos), Toyota (Japão), Nokia (Finlândia), Nestlé (Suíça), Sony (Japão), Siemens (Alemanha), Dell (Estados Unidos), Microsoft (Estados Unidos), Peugeot (França), entre outras. Os EUA importam hoje mais petróleo da África do que da Arábia Saudita, e calcula-se que em 2015, 25% venha do continente. São vários os recursos que o continente Africano ofereceu e continua a oferecer para o mundo.
Podemos concluir que sem a escravização dos povos Africanos não haveria o “Capitalismo”, onde o objectivo principal do capitalismo, é sempre e em todo lugar, aumentar a riqueza alcançada, aumentar o capital e garantir o monopólio económico mundial. Com esse sistema económico temos sempre a desvalorização de humanos ao nível social e psicológico, reduzidos a condições de miséria, acompanhados pela violência, destruturação familiar, entre várias outras consequências. Qual é o benéficio que o homem tem em conquistar o mundo e depois arruinar a sua própria Alma?
Habiru Kemet Asante

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Líderes Africanos na Diáspora

Neste dia, na história africana, reconhece-se Timothy Thomas Fortune como o pioneiro do dia.


A National Afro-American League foi fundada pelo Timothy Thomas Fortune, em 1887. E era suportada pelos próprios negros. A liga organizou um programa exigindo direitos para todos os povos africanos, qual depois transformou-se em National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), organização de direitos civis.



Mais informações: Pan-Africanism: The Early Foundersww.assatashakur.org/forum/pan-afrikanism-afrocentricity/41159-pan-africanism-early-founders.html

domingo, 14 de novembro de 2010

Morte de uma mulher negra

Embora lutando com a realidade de um ser humano, em vez de um mito, a mulher negra forte morreu. Autoridades médicas dizem que ela morreu de causas naturais, mas aqueles que a conheceram sabem:

Ela morreu por ficar em silêncio quando ela deveria ter gritado. De ter sorrido, quando ela deveria ter sido violenta. De estar doente e esconder, não querendo que ninguém soubesse, porque sua dor poderia incomodar os senhores e as senhoras.

Ela morreu de uma overdose de outra gente se agarrando a ela quando ela mesma não tinha sequer energia para si mesma.

Ela morreu de amor por homens que não a amam por só amarem a si mesmos e só poderem oferecer-lhes visitas furtivas na calada da noite.

Ela morreu de criar os filhos sozinha.

Ela morreu vítima das mentiras que sua avó contou à sua mãe e sua mãe lhe contou sobre a vida, homens e racismo ...

Ela morreu por ter sido abusada sexualmente quando criança e ter que tomar como natural essa verdade em todos os lugares que ela ia todos os dias da sua vida, barganhando a humilhação, pela culpa.

Ela morreu asfixiada, cuspindo o sangue dos segredos que ela continuava tentando queimar no seu coração, ao invés de se permitir ao tipo de colapso nervoso ao qual ela tinha direito, mas que reservado pelo sistema apenas para as meninas brancas ou mais claras, pois só para essas o estabelecimento pode pagar.

Ela morreu por ser responsável, porque ela era o último degrau da escada e não havia ninguém para quem ela podese repassar.

A mulher negra forte está morta ..

Ela morreu de ser uma mãe aos 15 anos e uma avó de 30 e um antepassado longinquo aos 45.

Ela morreu de tanto ser arrastado para baixo e por sentar-se com irmãs supostamente mais evoluídas posando como irmãs e amigas.

Ela morreu por tolerar um “seu Piedade”, apenas para ter um homem ao redor da casa.

Ela morreu de sacrificar-se por tudo e todos quando o que ela realmente queria era ser uma cantora, uma dançarina, uma professora, ou algo assim, igualmente magnífico.

Ela morreu de mentiras de omissão, porque ela não quis trazer o negro para baixo.

Ela morreu de homenagens de seus colegas que deveriam ter combinado seus esforços no foco da realidade dos guêtos, em vez de tomar a sua imagem e transformar em proselitismo rico em palavras mortas e canções vazias.

Ela morreu dos mitos que não lhe permitia mostrar fraqueza, sem ser castigada como preguiçosa e vadia....

Ela morreu de esconder seus verdadeiros sentimentos, até que tornou-se dura e amarga o suficiente para inundar seus seios, como os tumores e as ulcerações da raiva.

Ela morreu de sempre carregar coisas pesadas,entre caixas de geladeiras sozinha.

A forte mulher negra está morta ..

Ela morreu de nunca ser o bastante do que os homens queriam, ou sendo demais para os homens que ela queria.

Ela morreu por ser muito preta e morreu novamente por não ser suficientemente negra.

Ela morreu por ser mal informada sobre a sua mente, seu corpo e da medida de suas capacidades reais.

Ela morreu de joelhos pressionados ao solo, porque respeito nunca fez parte do que lhe estava sendo empurrado.

Ela morreu de solidão nas salas de parto e solidão nos centros clandestinos de aborto.

Ela morreu nos banheiros com as veias abertas, rebentada pelo auto-ódio, ajudada pela negligência.

E às vezes quando ela se recusou a morrer, quando ela simplesmente se recusou a se dar por morta, ela foi assasinada por imagens brancas de cabelos loiros, olhos azuis e bundas achatadas, importadas diretamente da mídia para a “inclusão social” dos novos ricos dos pagodes ou do futebol.

Às vezes, ela foi pisoteada até a morte pelo racismo e sexismo, executada pela ignorância high-tech, enquanto levava a família em sua barriga, a comunidade em sua cabeça, e a raça nas costas!

A mulher negra forte está morta!

... ... ou não?

Esta mensagem foi enviada pelo Dr. Runoko Rashid, em inglês, e traduzida pelo brasileiro Adelson Brito no blog O Negro Liberto.

sábado, 13 de novembro de 2010

A Todas as Mulheres Negras, de todos os Homens Negros


Rainha-Mãe-Filha da África
Irmã de minha alma
Noiva Negra da Minha Paixão
Meu Amor Eterno

Eu te saúdo, minha Rainha, não com a lamúria servil de um Escravo submisso à qual já te acostumaste, nem com a nova voz, as súplicas oleosas da lustrosa Burguesia Negra, nem com os gritos cruéis do grosseiro Escravo Livre – mas com minha própria voz, a voz do Homem Negro. E embora te saúde de outra maneira, minha saudação não é nova, mas tão velha quanto o Sol, a Lua e as Estrelas. E, ao invés de marcar um novo princípio, significa apenas a minha Volta.

Eu regressei dos mortos. E te falo neste momento do Aqui e Agora. Eu estava morto há quatrocentos anos. Durante quatrocentos anos tu tens sido uma mulher solitária, despojada do teu homem, uma mulher sem homem. Durante quatrocentos anos não fui nem teu homem nem meu próprio homem. O homem branco ficou entre nós, sobre nós, à nossa volta. O homem branco foi o teu homem e o meu homem.

Não te esqueças desta verdade, minha Rainha, pois mesmo que ela tenha incendiado a medula de nossos ossos e diluído nosso sangue, precisamos trazê-la à superfície da mente, ao domínio do conhecimento, fixando nosso olhar sobre ela como uma serpente enroscada nas barras do cercado de brincar de um bebê, ou como as flores frescas sobre o túmulo de uma mãe. Ela deve ser pesada e compreendida no coração, pois o salto da bota do homem branco é o nosso ponto de partida, nosso ponto de Decisão e Volta – o pivô salpicado de sangue do nosso futuro. (Mas eu te pediria para lembrar que, antes que pudéssemos sair da escravidão, tivemos de ser derrubados do nosso trono.)

Do outro lado do abismo estéril da masculinidade negada, de quatro centenas de anos sem minhas Bolas, vemo-nos hoje face a face, minha Rainha. Sinto uma profunda e horrível ferida, a dor da humilhação do guerreiro vencido. A vergonha do corredor exímio que tropeça na partida. Não tenho justificações.

Não posso suportar olhar os teus olhos. Tu não sabes (e certamente deve ter percebido gora: quatrocentos anos!) que durante quatrocentos anos fui incapaz de olhar diretamente os teus olhos? Estremeço por dentro sempre que me olhas. Posso sentir... no brilho dos teus olhos, de um lugar escondido bem lá no fundo, um segredo que guardas há muito tempo. Esta é a simples verdade. Não que eu me sentisse justificado, em tais circunstâncias, em tomar tais liberdades contigo, mas quero que saibas que eu tinha medo de olhar nos teus olhos porque sabia que ali encontraria refletida a Denúncia impiedosa da minha impotência e o irresistível desafio de reaver minha masculinidade conquistada.

Minha Rainha, é difícil para mim dizer-te o que hoje sinto no coração por ti – o que está no coração de todos os meus irmãos negros e de todas as tuas irmãs negras. E tenho medo de fracassar, a não ser que venhas a mim, sintonize-te em mim com a antena do teu amor, o amor sagrado em grau extremo que tu não me pudeste dar porque eu, estando morto, não mereceria recebê-lo; aquele amor de negro, perfeito e radical, com o qual nossos pais floresceram.

Deixa-me beber da fonte do rio do teu amor, deixa as cordas da força do teu amor amarrarem minha alma e cicatrizar as feridas da minha Castração, deixa meu exílio convexo terminar sua Odisséia assombrada na tua essência côncava, que recebe aquilo que pode dar. Flor da África, somente através do poder libertador do teu novo amor é que a minha masculinidade poderá ser resgatada. Pois é nos teus olhos, diante de ti, que minha necessidade deve ser justificada. Só, só, só tu e somente tu podes condenar-me ou deixar-me em liberdade.

Convence-te, Irmã Negra, que o passado não é um panorama proibido, algo para o qual não ousamos olhar com medo de sermos, como a esposa de Loth, transformados em estátuas de sal. Pelo contrário, o passado é um espelho onisciente: contemplamo-lo e nele vemos refletidos nós próprios e todos os outros – o que fomos, o que somos hoje, como ficamos desta maneira e o que estamos nos tornando. Negar-se a olhar para o Espelho do Antes, meu coração, é recusar contemplar a face do Agora.
Eu vivi a sétima vida do gato, encarei Satã e virei as costas a Deus, jantei no chiqueiro dos Porcos, e desci ao ponto mais profundo do Buraco, entrando no Covil e apanhando minhas Bolas de entre os dentes de um leão a rugir!

Beleza Negra, em silêncio impotente eu ouvi, como se fora uma sinfonia de lamentações, os teus gritos de socorro, os apelos angustiados e cheios de pavor que ainda ecoam em todo o Universo e por toda a mente, um milhão de gritos dispersos através dos anos de dor que se fundiram num único som de sofrimento para assombrar e sangrar a alma, um som incandescente para queimar o cérebro e ascender o estopim do pensamento, um som de presas e dentes para comer o coração, um som de fogo se alastrando, um som de gelo que queima, um som de chamas que devoram, um som ardente, um som de fogo para derreter o aço das minhas Bolas. Um som de Fogo Azul, um som Melancólico, um som de morte, um som da minha mulher em pranto, um som do sofrimento da minha mulher,O SOM DA MINHA MULHER CHAMANDO-ME, CHAMANDO-ME, EU OUVI O TEU GRITO DE SOCORRO, OUVI AQUELE SOM AFLITO MAS ABAIXEI A CABEÇA E NÃO DEI ATENÇÃO, OUVI O CHORO DA MINHA MULHER, OUVI O GRITO DA MINHA MULHER, OUVI MINHA MULHER IMPLORAR A PIEDADE DA BESTA POR MIM, OUVI-A IMPLORAR POR MIM, OUVI MINHA MULHER IMPLORAR A PIEDADE DA BESTA POR MIM, OUVI MINHA MULHER MORRER, OUVI O SOM DA TUA MORTE, UM SOM DE ESTALIDO, UM SOM QUEBRADO, UM SOM QUE SOAVA O FINAL, O ÚLTIMO SOM, O DERRADEIRO SOM, O SOM DA MORTE, EU, EU OUVI, EU O OUÇO TODOS OS DIAS, EU O OUÇO AGORA... EU TE OUÇO AGORA... EU TE OUÇO AGORA... EU TE OUÇO... Eu te ouvi então... o grito veio como um raio fulminante deixando um risco nas minhas costas negras. Num estupor covarde, com o coração palpitando e os joelhos tremendo, vi o chicote da morte do Escravizador cortar zunindo o ar e morder com dentes de fogo a sua carne delicada, a carne negra e macia das Mães Africanas, forçando a Vida a sair prematuramente do seu útero dilacerado e ultrajado, o útero sagrado que originou o primeiro homem, o útero que incubou a Etiópia, populou a Núbia e deu à luz os Faraós do Egito, o útero que pintou de preto o Congo e originou o Zulu, o útero de Méris, o útero do Nilo, do Níger, o útero de Songhay, do Mali, de Gana, o útero que senti o poder de Chaka antes de ele ter visto o Sul, o útero Sagrado, o útero que conheceu a forma futura de Jomo Kenyatta, o útero dos Maus-Maus, o útero dos Negros, o útero que nutriu Toussaint L’Ouverture, que aqueceu Nat Turner, Gabriel Prosser e Denmark Vesey, o útero negro que se entregou em lágrimas àquela corrente anônima e interminável da Nata da África, a Nata Negra da Terra, aquela corrente anônima e interminável que com fortes gemidos caiu no esquecimento do grande abismo, o útero que recebeu, alimentou e sustentou firme a semente e devolveu Sojourner Truth, a Irmã Tubman, Rosa Pparks, Bird e Richard Wright, e suas outras obras de arte que usaram e usam nomes tais como Marcus Garvey, DuBois, Kwane Nkrumah, Paul Robeson, Malcolm X e Robert Williams, e aquele que tu suportaste com sofrimento e que se chamou Elijah Muhammad, mas, acima de tudo, todos aqueles anônimos que eles te arrancaram do útero numa inundação de sangue de assassinatos que se espalhou e se infiltrou na lama. E Patrice Lumumba, Emmet Till e Mack Parker.

Oh, Minha Alma! Tornei-me um covarde lamuriento, um desgraçado medroso, um bajulador vil, com o meu desejo de oposição petrificada diante do temor cósmico do Senhor dos Escravos. Ao invés de instigar os Escravos à rebelião com uma oratória eloqüente, suavizei suas feridas e cantei com eloqüência o Blues. Ao invés de atirar minha vida cheia de desprezo na cara do meu Algoz, derramei o nosso precioso sangue! Quando Nat Turner procurou libertar-me do meu temor, esse mesmo Temor entregou-o ao Carniceiro – um monumento martirizado à minha Emasculação. Meu espírito era sem vontade; e minha carne, fraca. Ah, eterna ignomínia!

Eu, o Eunuco Negro, despojado de minhas Bolas, caminhei pela terra com a mente trancada num Frigorífico. Eu mataria um homem ou uma mulher negra mais rápido do que esmagaria uma mosca, enquanto colheria para o homem branco milhares de quilos de algodão por dia. Qual o lucro dos esforços cegos e exaltados dos (Culpados!) Eunucos Negros (Justiceiros!) que escondem suas feridas e menosprezam a verdade para mitigar sua culpabilidade através do pálido sofisma de postular uma Democracia Universal de Covardes, assinalando que na história ninguém pode esconder-se, que, se não numa época, então certamente em outra, o salto de ferro do Conquistador esmagou na lama as Bolas de Todos?

Memórias do ontem não mitigarão as torrentes de sangue que vertem hoje dos meus culhões. Sim, a História lembra um texto escarlate, com seus rabiscos e pontinhos impressos em vermelho com sangue humano. Mais exércitos do que os mostrados nos livros fincaram bandeiras em solo estrangeiro deixando a Castração no seu rastro. Mas nenhum escravo deve morrer de morte natural. Existe um ponto onde a Cautela termina e a Covardia principia. Enfiem-me uma bala no cérebro com a arma do opressor numa noite de sítio. Por que há dança e cantoria nos Bairros Escravos? Um Escravo que morre por causas naturais não pode se comparar a duas moscas mortas na Escala da Eternidade. Ao invés de ser pranteado, merece piedade.

A mulher negra, sem perguntar como, diz apenas que sobrevivemos à nossa marcha e trabalhamos forçados através do Vale da Escravidão, do Sofrimento e da Morte – ali, naquele Vale escondido bem abaixo de nós por uma névoa que se esvai. Ah, que visões, sons e sofrimentos estão por trás daquela névoa! E pensávamos que a dura escalada daquele vale cruel levava a algum lugar agradável, verde, pacífico e ensolarado! Mas aqui tudo é selva, uma região selvagem e bravia que transborda em ruínas.

Mas coloca tua coroa, Minha Rainha, e construiremos uma Nova Cidade sobre estas ruínas.

Eldridge Cleaver, ex-ministro da Informação dos Panteras Negras e fundador da sua sede internacional, se desentendeu com Huey Newton, em 1971, segundo kathleen Cleaver, sua ex-mulher, devido às interferências das forças de inteligência dos EUA, que infiltrou na organização para fomentar inimizades e, assim, destrui-la.

Por Abeba Makeda

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O Drama de Sudão


Há quem ache o movimento das nuvens apenas um processo normal (natural) da ordem universal, sem perceber os seus maravilhosos fluxos e significados. Quem ache, com base no tamanho do próprio cerébro, que é superior, melhor que o outro, suficientemente para subjugá-lo, desculturá-lo depois aculturá-lo, e tentar exterminá-lo. Há quem ache que não houve genocídio em Sudão, que tudo não passa de mero sensacionalismo jornalístico.

Genocídio, depois de 1944, vem sendo definido como a destruição deliberada e metódica de pessoas determinada por diferenças raciais, religiosas, políticas. O professor Molefi Kete Asante defende que “não pode haver desculpa para a escravidão e o genocídio”, sendo ambos “moralmente indefensáveis, brutalmente monstruosos e eticamente repugnantes” (in “Genocide in Sudan”). Em 1991, quando escreveu este artigo, Asante considerou que em Sudão o nacionalismo reivindica uma base biológica para a perseguição, opressão, exploração e escravização de outros, sucedendo a escravização de africanos pelos próprios africanos.

Em sudão unifica-se o famoso Rio Nilo, até o Egipto, vivendo a maioria da população, sobretudo os Shilluk nas suas margens, praticando o cultivo da terra e a agricultura, já que o resto do país é demasiado seca.

Os primeiros povos (Dinka, Jhaynah e outros dentre 500), que habitaram esta parte do continente africano/Alkebulan, eram principalmente constituídos de pastores nómadas que andam com os rebanhos em busca de novos pastos (o que igualmente revela o nível elevado de consciência), mas a “guerra santa” destruiu também as pastagens e rotas de pastoreio.

Desde a antiguidade o Sudão (palavra árabe usada primeiramente pelos geógrafos muçulmanos ao descreverem “a terra dos negros”) foi uma terra de confluência racial, sobretudo depois da queda de Núbia e da chegada dos árabes. Foi a primeira região que os árabes entraram em contacto e onde é grande a influência islâmica. A área divide-se em 3 partes: o Sudão ocidental (interior do Senegal e os rios do Alto Níger); o Sudão central (a leste do último); e o Sudão egípcio (do sul do Egipto). O Sudão egípcio foi conquistado pelo Egipto no século XIX, antes de ser novamente separada e reconquistada como “Sudão anglo-egípcio”. Hoje é o maior estado africano, a república do Sudão.

A fronteira actual entre o Egipto e o Sudão não existia. O Egipto do Sul e a parte norte do Sudão eram conhecidos em conjunto como a Núbia. Subsiste, no entanto, um grande contraste entre o norte e o resto do país. O norte é maioritariamente muçulmano, de língua árabe, o Centro e o Sul expressa línguas e crenças africanas. Os africanos residentes no norte foram convertidos ao islamismo e relacionam-se com o Egipto e o mundo árabe e o restante é na maior parte animista e liga-se ao mundo africano (diferem em relação à língua, formação, cultura e religião). Conflitos entre os dois grupos, assim como sucedeu em Ruanda, resultaram mais de duas décadas de guerra civil.

Desde a independência do país, em 1956, o governo sudanês impõe o islamismo à população. O prof. Molefi diz que “inerente à configuração política da nação foram as sementes da sua própria destruição: o fundamentalismo religioso islâmico e animosidade étnica” fecundadas “por uma da mais severa crise de identidade em toda a África” resultando mortes incomensuráveis, órfãos, refugiados, pobreza. A população residente no Sul do país, de culto e expressão africanos, foram forçados a dirigir-se para Kartum, a capital de Sudão, vivendo agora em bairros de lata nos seus arredores. O prof. Molefi também estima que “o Sudão é um país em crise permanente, pois é uma nação de pessoas totalmente deslocadas de um senso de realismo histórico”.

Assim, o século XIX no Sudão foi de jihads, guerras santas destinadas à propagação do islã e à criação de estados islâmicos. A partir do século XI predomina a vontade de impor o islã por todos os meios e a todos os níveis da vida social. O islã manteve, até o século XI relações de coexistência com as religiões locais africanas largamente dominantes no duplo plano de número dos adeptos e dos efeitos sociais e políticos. Igualmente, no século XI, as relações do islã com as religiões antigas, sobretudo as práticas e costumes locais mudaram quando a aceitação do compromisso e da coexistência cedeu lugar à vontade de impor o islã.

Houve por todo o lado uma vontade de uniformização dos modos de vida, de maneira a torná-los estritamente conformes com os preceitos, a lei e o direito do islã: adopção quase generalizada de nomes muçulmanos, transformação das regras de filiação e de herança, com a desaparição progressiva das regras matrilineares em proveito dos mecanismos da patrilinearidade; homogeneização dos gostos e dos hábitos alimentares na sequência da condenação de certas práticas e da promoção de outros comportamentos, importados ou adaptados de Magreb; mimetismo vestimentar; codificação estrita da condição e dos géneros de vida das mulheres, necessidade para as elites, no caso de quererem ser levadas a sério pelos seus interlocutores árabes, de mostrar que estavam perfeitamente informadas a respeito das teorias e dos debates do momento. O direito muçulmano era solicitado não só para justificar a exclusão dos ditos infiéis da posse da terra, mas também para regularizar os antagonismos crescentes entre os próprios muçulmanos.

Africanos islamizados, roubados da sua tradição africana, afligiram o povo africano, afugentando-o do próprio terreno e comunidade/família, legando-o campos de refugiados, sem nenhuma condição de sobrevivência. Hoje, Inúmeras crianças formam os órfãos do drama em Darfur, as mulheres vítimas de agressões sexuais e os homens estão quase todos mortos ou mutilados.

Entretanto, seguidamente à fragmentação do continente africano, às invasões (motivadas, sobretudo pelo ouro sudanês (petróleo), às longas lutas e conquistas libertadores, ainda, resta aos Alkebulanos o papel de resgatar a tradição africana ancestral, sua identidade, e salvaguardar, para a posteridade, a sua sagrada cultura. O professor Asante, no artigo “The Future of African Gods. The Clash of Civilizations” pede-nos para observar o seguinte: “Show me the gods we africans workship and i will show the extent of our moral and ethical decay”. Concluindo que os africanos esqueceram a sua tradição/memória e aceitaram os deuses daqueles que os escravizaram e colonizaram, por isso actualmente se encontra num estado de Maafa.



Veja o filme “Areias e Lágrimas”.

Abenaa.