sábado, 31 de outubro de 2015

HABARI GANI !WALTER RODNEY - HISTORIADOR MILITANTE

Nascido na Guyana em 1942, Walter Rodney foi um dos intelectuais mais influentes do século XX.
O seu trabalho como historiador e militante pan-africanista foi radicalmente combatido por acadêmicos racistas, elites africanas, governos corruptos das américas e políticos imperialistas europeus.

O assassinato brutal de Walter Rodney em 1980 não foi capaz de silenciar as suas mensagens sobre identidade africana, consciência política e resistência cultural através do conhecimento histórico africano .

A obra deste honorável ancestral, debatida em Cabo Verde, significa continuar o processo de Reafricanização de Espíritos e Mentalidades, desencadeado por Amílcar Cabral .

Durante este encontro haverá doação de livros e oficialização de parcerias com organizações interessadas em construir bibliotecas para estudos pan-africanos.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O cabelo crespo


Há dias eu estava entre amigas e irmãs e veio-me, novamente, a problemática sobre o cabelo “crespo”. Dessa vez, se tratava de uma aluna do ensino secundário, quem recebeu um aviso da direção da escola “Amor de Deus”, onde estuda, de que tinha até segunda-feira para pentear o seu cabelo, ou seja, ir para a escola penteada, senão não poderia assistir às aulas. 
Sucede que essa aluna é apenas uma adolescente de pele negra e cabelo crespo. Segundo a mãe, uma criança que gosta muito do seu cabelo black power e passa horas se penteando ao espelho. Mas, a referida escola foi de opinião diferente, considerou que a menininha estava despenteada, por essa razão, violava o regulamento escolar e, portanto, não poderia assistir às aulas. 
Embora é de se considerar esse acto discriminatório, racista e um atentado à identidade africana, a referida escola quer apresentá-lo tão-somente como esforço de se fazer cumprir uma das regras previstas no seu regulamento interno, que como as outras, também, precisa ser respeitada. Entretanto, independentemente disso, o cerne da questão é por quê prever num regulamento interno ou uma regra escolar que a criança negra não pode ir para a escola com o cabelo crespo solto, em estilo black power. Por quê a criança africana não pode ir para a escola com o seu cabelo crespo solto?
Precisamos dar nomes às coisas...

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Da manifestação ao preconceito

Há um mês começou a circular-se nas mídias cabo-verdianas de que o ilhéu de Santa Maria ou “Djeu”, situado na Baía da Gamboa, Cidade da Praia, finalmente foi concedido ao empresário macauense David Chow por um período de 75 anos, prorrogável por 30 anos e recebe Cape Verde Integrated Resort & Casino, um empreendimento turístico considerado por muitos como “o maior investimento alguma vez realizado no país”. Preocupada com os impactos sociais negativos deste investimento econômico e pretendendo proteger e preservar o valor biológico, histórico e cultural do ilhéu de “Djeu”, há duas semanas, uma rede denominada “Korenti di ativistas” organizou a ocupação do referido  ilhéu (que resultou temporária) e assim manifestou-se publicamente contra o início das obras do resort e casino. Enquanto sujeitos de direitos e liberdades, alguns leitores do jornal online "A Semana" passaram a comentar o artigo sobre esta manifestação. Entretanto, certos leitores, com a permissão desse jornal online, voluntariamente, ultrapassaram o limite do bom-senso e do respeito mútuo, também identificaram os manifestantes como sendo “rastas” ou “rastafaray”, então, classificaram-lhes de “fundamentalistas, herbívoros, que odeiam trabalho, fumadores de padjinha (maconha), ladrões, malucos, desordeiros, preguiçosos, subversivos, sem norte, nem direção, chulos, inúteis, sem valor social, drogados, armados em ambientalistas” e consideraram que, para estes, o referido ilhéu significava apenas “um lugar de matar o stress dos charros que fazem para lembrar da filosofia Bob Marley”.

O que se leu e ouviu esses últimos dias em Cabo Verde acerca desses jovens manifestantes, que foram rotulados de rastas, bandidos e drogados tão-somente por causa do aspecto dos cabelos de alguns, tornam evidentes mentalidades preconceituosas que prejudicam os valores da liberdade e igualdade, preconizados logo após a proclamação da independência política na Constituição da República de Cabo Verde. Em qualquer Estado que se diz de Direito Democrático, a princípio, todas as pessoas beneficiam do direito à imagem e são livres para manifestarem ideias, opiniões, pensamentos conforme a convicção ou consciência, sem qualquer tipo de oposição, evidentemente dentro dos limites estabelecidos pelos costumes e na lei. E têm o direito de serem tratadas como seres humanos iguais e de forma tolerante independentemente da opinião política ou filosófica, aspecto, condição, gênero, raça, crença, etc. Sobretudo porque as imagens muitas vezes enganam, existindo pessoas com aspectos parecidos com alguns dos manifestantes denominados de rastas, mas nem por isso são bandidos e drogados, pelo contrário, são excelentes cidadãos e profissionais. Aaabraaammm as vossas mentes...por favor. O optar pela discriminação, a rotular os manifestantes de rastas, bandidos e drogados, entre outros nomes ofensivos meramente por causa do aspecto do seu cabelo, com total desprezo pela verdade, pois entre aqueles havia licenciados e profissionais, é um acto movido por ódio e puro Preconceitooo... 

domingo, 26 de maio de 2013

O dia de África.

O dia 25 de Maio é o nosso dia de celebrar a mãe/pai Alkebulan (hoje África), com honras e todo o esplendor de sua realeza, elevando-a efetivamente ao patamar de mãe/berço de todos, e parar de só usufruir dela e do seu povo, como a escravatura e os resultados da Conferência de Berlim nos ensinaram e acostumaram, esgotando-os sem retribuir ou retribuir de forma insuficiente e inadequada.

O 25 de Maio é um dia, no mínimo, para honrar Alkebulan e retribui-la o amor, o respeito, o conhecimento e as riquezas, indemnizando-a de todos os males até agora infligidos ao continente e ao povo africano, as suas crianças, idosos, homens e mulheres.
É tempo de retribuir à nossa querida África o amor que dela ainda emerge naturalmente, a sua beleza e honra.
O dia 25 de Maio, é uma oportunidade de retorno às nossas raízes africanas.
É o tempo de REAFRICANIZAR OS ESPÍRITOS.
Um dia para o conhecimento do nosso ser elevado, tempo de afirmação, troca e libertação da nossa linda africanidade, sem preconceitos. Basta de males.
É tempo de união e UNIDADE AFRICANA.
Hetepu.

Ababa Abena.

domingo, 31 de março de 2013

O legado de Amílcar Cabral na perspetiva contemporânea

O passado dia 20 de Janeiro foi marcado por um Fórum sobre Amílcar Cabral, realizado na Assembleia Nacional (Cabo Verde) pela Fundação Amílcar Cabral - que tem como missão estatutária preservar a obra e a memória de Amílcar Cabral promovendo o enriquecimento e aprofundamento do seu legado -, 40 anos após a sua morte, com um vasto programa de atividades.

Este Fórum tem por objetivo dar seguimento à divulgação e promoção da obra e do pensamento de Amílcar Cabral na perspectiva contemporânea; mobilizar a comunidade científica nacional e internacional a realizar pesquisas sobre a obra de Amílcar Cabral e incentivar o gosto pelo debate e pela partilha de conhecimentos; pôr em contato académicos nacionais e estrangeiros que tenham vindo a desenvolver trabalhos sobre temas ligados ao legado de Amílcar Cabral; analisar e debater questões da atualidade caboverdiana, africana e mundial; contribuir para a formação e informação da nova geração caboverdiana. Grifo Nosso.

O primeiro programa de atividades foi realizado no dia 18 de Janeiro de 2013 e teve duração de três dias, o segundo será em 12 de Setembro de 2013 na ocasião do 90º aniversário de Amílcar Cabral. Embora aberto a todos que se interessam por Amílcar Cabral, apenas alguns estudantes, investigadores, antigos combatentes e uma pequena parcela da sociedade caboverdiana usufruíram desta oportunidade positiva de participar em Sessões Plenárias, Grupos de Trabalho e Mesas Rendodas com debates de temas sobre "A Educação para a emancipação: uma perspetiva cabralista”, “O pensamento de Amílcar Cabral na perspetiva contemporânea”, “Cabo Verde: os caminhos do futuro, desafios e perspetivas” e “Questões do mundo global: integração e interdependências” .

As apresentações mostraram Amílcar Cabral como “promotor da idéia pan-africana” e fizeram uma releitura do pensamento de Amílcar Cabral na perspetiva da contemporaneidade face aos desafios da construção do Estado em África, demonstraram o papel importante das mulheres caboverdianas e guineenses na luta pela libertação de Cabo Verde e Guiné Bissau e a necessidade de dar continuidade essa valorização da Mulher, como defendeu Amílcar Cabral. Infelizmente não conseguimos assistir a comunicação sobre a recém-criada Cátedra Amílcar Cabral na Universidade de Cabo Verde porque diversas atividades decorriam ao mesmo tempo.

O debate intergeracional começou com a seguinte pergunta: Será que os jovens caboverdianos sabem de Amílcar Cabral?

Para alguns jovens, a juventude caboverdiana é alienada e não sabe quem é Amílcar Cabral. Estes exigiram maior e melhor participação dos jovens questionando o contributo do fórum para o melhoramento da vida do povo caboverdiano. Para outros jovens, não conhecem Amílcar Cabral, sobretudo, porque para levar o pensamento de Amílcar Cabral aos bairros é preciso primeiro que o orçamento estatal também chegue lá.

Enquanto os anciãos, investigadores caboverdianos, antigos dirigentes políticos e combatentes da pátria, ainda acreditam que os jovens caboverdianos conhecem Amílcar Cabral. Mas, defendem que precisam saber mais sobre os seus heróis nacionais e de ser eles mesmos heróis, lutando pelo próprio espaço político (politricks). Também, advertiram que as escolas caboverdianas não ensinam os seus jovens a pensar criticamente de forma a acumular os acontecimentos evidenciando a necessidade da reforma do curriculum escolar de Cabo Verde.

No final do debate intergeracional, um jovem estudante, investigador, cantor, poeta e desportista, manifestou que acredita profundamente na era de África e perguntou novamente aos anciãos o que pensavam fazer e os jovens deverão fazer. Por sua vez, um combatente só lhe respondeu que eles fizeram o que podiam, não foram mobilizados, estavam todos à procura de algo para engajar e lutar por Cabo Verde. Porém, uma jovem lhe sugeriu que apenas através da Cultura e Educação continuaremos o legado de Amílcar Cabral.
Infelizmente, relativamente à questão de identidade ou reafricanização dos espíritos proposta por Amílcar Cabral, alguém defendeu, numa perspetiva contemporânea, que os caboverdianos devem caboverdianizar os espíritos. E que o retorno às fontes não era necessário porque nunca foram abandonadas, embora influenciadas pelas metrópoles.

A luta continua.

Abenaa Ababa.

sábado, 23 de março de 2013

Piratas ou Guarda-costas Voluntários de Somália



A propósito, Cabo Verde renovou por um período de cinco anos o Acordo de Parceria no Setor das Pescas com a União Europeia (UE), nos termos do qual receberá anualmente um "apoio financeiro" de 435 mil euros.


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Cape Verde Independence July 5th and 6th, 1975


Na 5 di Julhu di 1975, dia komemorason di independensia Kauverdi, nu ta podi odja atraves des video, grandi movimentason di povu/kabuverdianu. Grandi partisipason di mudjeris kabuverdianas na forzas armadas. Tcheu musika, dansa, kantigas. Inda paxenxa di futurus governantis kabuverdianus dianti atitudi di portugueses di kenha ki staba ta oferesenu independensia kuandu na verdadi nu LUTA tcheu, suor, sangui y lagrimas pa konseguil.
Storia di África/Alkebulan tem kontadu gloriosus momentus di konvison y kompromisu di lideris afrikanus, sima Presidenti Aristides Pereira na formason di kabuverdi komu um nason indipendenti di “ordem kolonial” (termu usadu pa Presidenti Pedro Pires na sirimonia di ominagi a kamarada Pereira, na Asembleia Nasional, antis se funeral). Na livru Crónicas da Libertação”, skritu pa Luís Cabral, irmon de Amílcar Cabral, nu ta konxi kontributu esensial di S. Exia. Aristides Pereira.
Aristides Pereira y Amilcar Cabral planea, elabora, fomenta, funda Partido Africano para a Independência de Guiné-Bissau e Cabo Verde.
Tcheu homis y mudjeris kontribui pa libertason di Guiné y Kauberdi, mas prezensa y participason di Aristides Pereira foi fundamental, e konvivi diretamenti ku Amílcar Cabral y Luís Cabral (primeiru presidenti di Guiné-Bissau), sob o mesmu tetu.
Aristides foi sekretariu di PAIGC y, dipos morti Amilcar Cabral e kontinua objetivu kontinental di liberta povu afrikanu y garantil um sosiedadi justa sem kualker tipu di diskriminason.


Pó nu ta torna.

Abenaa.


segunda-feira, 2 de maio de 2011



Èwa Ireti*Acessórios Artesanais
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Encomendas,Oficinas e Feiras
Fones: (21) 3351.6342/9896.1226(Vivo)/8849.8405 (Oi) /8033.0462 (Tim)
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Katiuscia Ribeiro

segunda-feira, 21 de março de 2011

Na mumentu sertu


“Antis din ganhau, nkre ganha nha kabesa.

Antis dim konkista bu rispetu, nten ki konkista nha rispetu y amor propriu.

Antis dim amau nten ki ama nha kabesa.

Antis dim odjau, nten ki odja nha kabesa, nten ki xinti kada padas di nha ser.

Antis dim nkontra ku bo, ntem ki marka um inkontru ku mi mesmu.

Antis dim tokau, nten ki toka nha ser, imprizional, dal mó, viaja ku el y lebal pa undi nkre lebau,

Antis di tudu, inda nten ki fazi pa mi mesmu kel prumesa di amor eternu, ka fazi nha ser sufri, difendel, di tudu sentimentus, atus e palavras negativus.

Dipos di tudu keli, y na momentu sertu nta ama a mi y a bo

Nta sta prontu pa amanu, sem skeci di mi y di bo.

Sem skesi di Nos”.

Por Ama

quinta-feira, 17 de março de 2011

O impacto do "tráfico escravagista" na condição das mulheres africanas

CAPÍTULO I

Parte I - "De Mulher Protagonista ..."
Na sociedade africana antiga as mulheres eram rainhas, mães e guerreiras, elas participavam activamente nas suas comunidades em todos os sectores da vida humana, combatiam à frente de grandes exércitos, presidiam cultos e dedicavam-se à caça. As mulheres africanas eram excelentes governantes, dentre as quais emergem grandes Rainhas, como a Nzingha, rainha de Ndongo (actualmente Angola) e líder da resistência contra o tráfico de escravos dos portugueses; Aqualtune, Princesa de Congo que participou na organização de uma fuga de escravos para Quilombo de Palmares - Brasil; Nanny, Rainha de Gana que liderou os Maroons de Jamaica; Yaa Asantewa, rainha-mãe de Ejisu, em Gana, que promoveu a batalha dos ashantis em busca do resgate da própria dignidade.
Na África antiga a posição da mulher na sociedade é complementar ao do homem e vice-versa. Cada membro da família tinha as suas funções equitativamente distribuídas. Aliás, anos remotos (aproximadamente 8000 A.C.,), a maioria das sociedades africanas era "matricêntrica", "matrilinear" e "matrifocal". Na civilização núbio-cuxita as dinastias denominadas Candaces eram femininas. A mulher africana tinha uma posição adequada à sua condição, ela é devidamente respeitada e reverenciada.

Parte II - O Tráfico Escravagista (século XV-XVIII)
No século XV os europeus ilegitimamente invadiram o continente africano, capturaram pessoas e institucionalizaram o tráfico de escravos, que provocou muitas e fortes transformações no seio das sociedades africanas, sentidas até hoje. Esgotou-lhe o seu elemento humano: homens, mulheres e crianças foram brutalmente arrancados da sua terra africana e introduzidos na Europa, América, para darem involuntariamente o seu contributo físico no incremento da economia do "país acolhedor".
As mulheres, antes rainhas, guerreiras, foram transformadas em mero objecto, sexo e trabalho. O tráfico demandava muita mão-de-obra forçada feminina. As mulheres eram escravizadas para reproduzir, servir de amantes, fazer trabalhos domésticos e agrícolas.
Mesmo as mulheres, que conseguiram permanecer em Alkebulan (nome original de África), não sobreviveram aos efeitos da escravatura e foram obrigadas a humilhação e gradual degradação, pelos europeus que depois mantiveram nos países africanos sob a forma de colonialismo.

Parte III - "... À Mulher Estigmatizada"
A mulher africana é por muito tempo marcada pelo tráfico de escravos. De mulher protagonista, respeitada e reverenciada foi transformada em "mulher-objecto, mulher-sexo e mulher-labor".
Forçosamente incorporadas a sociedades exclusivamente patriarcais e transformadas em mão-de-obra forçada, ainda, pior, em amantes dos senhores brancos, as mulheres africanas foram perdendo a auto-estima e a própria dignidade. Nos séculos XVI a XIX, ela é ainda percebida como ser inferior.
Com o tráfico de escravos, os homens habituaram-se a comprar mulheres africanas no mercado para torná-las concubinas "suscetíveis de serem despedidas dependendo apenas da vontade do homem" - África Negra. Histórias e Civilizações.
A mulher africana é, assim, subalternizada, estereotipada, discriminada e socialmente excluída. Surgindo, deste modo, o fenômeno das mães solteiras, de mulheres vítimas de violências, no seio familiar ou em campos de refugiados (Senegal, Sudão). De forma contínua, mentalmente oprimidas por sociedades patriarcais.
Não obstante, nós as mulheres africanas ainda temos a essência das grandes rainhas-mães-guerreiras. (...)


CAPÍTULO II
Resistência da Mulher Africana
Rainhas-Guerreiras-Africanas


Sem jamais aceitar a condição de ser inferior, rainhas como Nzingha (Angola), Yaa Asantewa (Gana), Nanny (Gana) e Aqualtune (Congo) lideraram grandes movimentos de resistências contra o tráfico de escravos, dentro e fora do continente africano.

Parte I - Rainha Nzingha (1583-1663)
Nzingha, governante e líder militar dos Jagas, assim como a maioria dos africanos, nunca aceitou a conquista portuguesa e esteve sempre na ofensiva militar. Convenceu o seu povo da influência perniciosa dos portugueses e dirigiu intensivas mensagens politícas e patriotas apelando aos angolanos por seu orgulho de serem africanos. Ela foi uma visionária líder política, competente, altruísta e devotada ao movimento de resistência.
Em 1623, com a idade de 21 anos, Nzingha tornou-se rainha de Ndongo (Angola), e logo fortaleceu sua posição de poder, proibiu ser chamada Rainha, assim como a rainha Hatshepsut, exigiu ser chamada de Rei e, na liderança militar, vestia roupas de homem, exigindo desde esta época a Igualdade de Género.
Com a sua morte, começou a ocupação portuguesa do sudeste de África. A massiva expansão do comércio de escravos português seguiu este evento.
Na resistência ao comércio de escravos e o sistema colonial que seguiu a morte da Rainha Nzingha, muitas mulheres africanas ajudaram a montar ofensivas em toda a África. Entre as mais excepcionais estão: Tinubu, de Nigéria; Nandi, a mãe de Chaka, grande guerreiro Zulu; Kaipkire do povo Herero de Sudeste de África (o povo Herero, a sul de Angola-Namíbia, no século XIX até 1919, desenvolveu uma grandiosa luta contra os soldados alemães europeus); e todo o exército feminino que seguiu o rei de Daomé Behanzin Bowelle.

Parte II - Rainha Aqualtune (século XVII)
Aqualtune é a filha de um rei de Congo, que liderou um exército numa batalha contra os Jagas, antes liderado militarmente pela Rainha Nzingha. Os Jagas devidamente apetrechados com armas de fogo, facultadas pelos escravistas europeus, derrotou o exército de Aqualtune, tornando-a prisioneira. A rainha Aqualtune foi levada cativa para um navio de tráfico de escravos e depois vendida como escrava reprodutora. No navio que dirigia para o Brasil, foi obrigada a ter relações sexuais com outro escravo.
Ela grávida foi vendida e levada para o Pernambuco, onde escutou as histórias de resistência dos africanos contra a escravatura no Brasil, sabendo, assim sobre a existência do Quilombo dos Palmares.
Nos últimos meses de gravidez Aqualtune participou de uma fuga para o quilombo. No quilombo teve a sua ascendência real reconhecida e passou a governar um dos territórios quilombolas, onde as tradições africanas foram mantidas.

Parte III - Rainha Nanny (1680-1730)
A Nanny, rainha guerreira dos Maroons, nasceu em Gana, descendente de família real e foi para a Jamaica, onde até hoje é tida em elevada estima, como a figura mais importante na sua história. Porque ela foi líder espiritual, cultural e militar dos Maroons de Windward. Liderou os Maroons durante o mais intenso período de sua resistência contra os britânicos, entre 1725 e 1740.
A Rainha Nanny exerceu um papel da maior importância na preservação da cultura e da tradição africana. Ela promoveu a unificação dos Maroons. Assim, é, desde 1976, Heroína Nacional da Jamaica.

Parte IV - Rainha Yaa AsantewaNo fim do século XIX, os Britânicos, na sua tentativa de tomar as terras de Gana, em 1896, exilou o Rei Asantehene Prempeh. Em 1900, ainda sem conseguir controlar o Gana, os Britânicos enviaram um governador a Kumasi, capital de Ashanti, para exigir o "Golden Stool", símbolo supremo da soberania e independência do povo ashanti, a sua Arca de Aliança.
No dia 28 de Março de 1900, o governador Hodgson, convocou uma reunião com todos os reis da cidade de Kumasi e informou-lhes que a indemnização exigida pelos britânicos ainda não foi paga e o rei Prempeh não retornará a Gana. Os britânicos exigiam deles o "Golden Stool".
Esta demanda significava um insulto para o povo Ashanti, mas o governador de nenhuma forma entendia o significado sagrado do "Golden Stool", que de acordo com a tradição, continha a alma do Ashanti. O povo Ashanti em silêncio ouviu o governador e assim terminou a reunião.
À noite os chefes fizeram uma reunião secreta em Kumasi, debatiam a guerra contra os homens brancos e a forma de trazer para Gana o seu rei quando Yaa Asantewa percebendo que alguns chefes sentiam medo dizendo que não devia ter guerra porque eles podiam simplesmente implorar o governador para trazer o rei de volta ao Gana, de repente, levantou-se e falou o seguinte: "Sinto que alguns têm medo de lutar pelo vosso rei. Se teve nos dias bravos antigos, Osei Tutu, Okomfo Anokye e Opolu Ware, chefes que não sentaram a ver seu rei ser levado sem disparar um tiro. Nenhum homem branco podia falar aos chefes de Ashanti na forma como o governador falou convosco chefes esta manhã. É verdade que já não há bravos de Ashanti? Não posso acreditá-lo. Sim, não pode ser! Eu preciso dizer isto: Se vocês homens de Ashanti não podem avançar, então vamos nós. As mulheres. Eu posso chamar as minhas compatriotas mulheres. Nós iremos lutar contra o homem branco. Nós iremos lutar até a última de nós cair no campo de batalha" (tradução de texto em inglês).
Por isso à guerra empreendida depois pelo povo ashanti contra os homens brancos foi dada o nome de Yaa Asantewa. A guerra Yaa Asantewa foi a última maior guerra na África liderada por uma mulher.

Por Ababa Abenaa.
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Algumas referências bibliográficas:
1. Afrocentricidade. Uma abordagem epistemológica inovadora. Sankofa 4. Matrizes Africanas de Cultura Brasileira. A identidade contraditória da mulher brasileira: Bases Históricas.
2. Elikia M´Bokolo. África Negra. História e Civilizações. Tomo I (até o século XVIII). Casa das África. EDUFBA.
3. Black Women in Antiquity. Ivan Van Sertima.

terça-feira, 1 de março de 2011

O Papel das Mulheres Negras na Diáspora

Por Kati*Éwa Ireti

As mulheres Negras tiveram uma experiência histórica diferenciada que o olhar míope e clássico do racismo não reconhece, bem como as opressões sofridas por essas mesmas mulheres passam sem grandes atenções, o que caracteriza situações de exploração, que acaba por influenciar nas construções da identidade feminina negra.

A figura do ser negra no contexto diásporico aparece a partir de uma movimentação política existente desde processo de escravidão. No entanto a situação dessas mulheres é silenciada por esse mesmo processo que as não identifica como sujeito de ação. As mulheres negras representaram no contexto histórico as mentoras de lutas de sobrevivência, sobre tudo as sua, em um cenário onde viver sem possíveis agressões tanto físicas como mentais não nos era permitido.

Em torno de nossa figura, criou-se o mito da super preta, onde o papel de fragilidades era inexistentes, esses por sua vez destinados as moças de pele rosadas denominadas: Sinhás.

Longe de fragilidade, as mulheres negras Africanas na diáspora usavam desta suposta força como estratégias de poder para sobreviverem, transformar a fraqueza (ou fragilidade percebida) feminina em força é quase um rito de passagem para as mulheres Africanas na história.

Audre Lorde Ativista do movimento negro americano (1934-1992) analisa em seu texto incluído na coletânea de Mari Evans (1984, p261) ,que se a fraqueza da mulher Negra de fato existe, é apenas para manifestar sua força. Se a mulher negra Africana atribuir à fraqueza mais substancial do que isso, significa que ela sucumbiu ao medo – que não seria impedimento para trabalhos maiores.

Neste contexto as mulheres negras sobreviveram às opressões sofridas criadas pelo racismo como forma de política de manter seus direitos garantidos.

No entanto a visão criada sobre nós mulheres negras não foge muito de olhar estereotipado, o que mudou foi à forma de sermos vistas, ontem mucamas, a serviços de frágeis sinhás e senhores de engenho, hoje domésticas de mulheres liberais e dondocas ou a eterna imagem de mulatas boas de samba.

Com o inicio das ações políticas feministas, as mulheres negras percebam que sua luta partia de necessidades e processos diferenciados, a busca de emancipação baseado em uma vivência branca, não nos fazia sentido.

Enquanto as mulheres brancas buscavam direitos de evitar filhos, as mulheres negras reivindicavam o direito de tê-los, criá-los e vê-los vivos até a velhice – Como nos ilustra Jurema Werneck em sua passagem no texto A face Negra do Feminismo no Livro Saúde das Mulheres Negras.

Outro ponto identificado e não menos importante era o direito de trabalhar, e serem reconhecidas nos espaços de trabalho, para nós que trabalhávamos há mais de 500 anos em mão de obra escrava e sem escolha de patrão e horas extras de estupros recorrentes, servia apenas a bandeira da luta por direitos trabalhistas.

A importância dessas questões para as populações vistas como descartáveis, como a população negra e sobretudo as mulheres negras, impulsionou um olhar negro sobre o feminismo, longe dessa esfera eurocêntrica na qual não nos contemplava.

A luta de Lélia Gonzáles e Beatriz Nascimento na construção de um novo olhar para esse feminismo e de tantas outras mulheres brilhantes pretas, cria a possibilidade das mulheres negras reafirmarem uma luta histórica de mais de 500 anos de resistência.

Nas diversas formas de interpretar o feminismo, olho com mais atenção a uma forma de construir políticas para as mulheres negras em um paradigma onde a população negra possa andar em conjunto, falo do mulherismo africano, uma articulação feminina totalmente distinta do feminismo branco e de alguns olhares viciados desse mesmo feminismo, muitas vezes vivenciado por nós mulheres negras. Um olhar voltado unicamente pra as interpretações africanas, criado para alcançar todas as mulheres negras em África e Diáspora, baseada em uma vivencia diária em saberes africanos.

Katherine Bankole no seu texto Mulheres Africanas nos estados Unidos - Publicado no livro Afrocentricidades da coleção Sankofa, Volume 4, de 2009 - Apresenta uma olhar mais atenta sobre essa forma de vivenciar o ser mulher negra, faz uma importante analise emergente de como se construir um olhar de feminilidade Africana, criticando esse olhar de feminista apenas em uma construção de gênero.

Vivenciar essa forma de feminilidade é mais próximo de África que podemos chegar, criando regras de avaliação de suas feminilidades, o que na verdade há muito já são vividas por nós mulheres Africanas e Afro-Diásporicas. Embora mulheres negras e brancas se aproximem no diálogo de feminilidade a vivência de mulheres negras não passa pela aprovação ou deliberação de um patriarcalismo branco, essa dependência se torna inexistente, assim como a auto afirmação de uma feminilidade distorcida.

Em um olhar enegrecido sobre as óticas feministas mulheres pretas e homens pretos lutam de uma forma igual à eliminação desta doença eurocêntrica chamada sexismo.

No entanto eliminar essa patologia enraizada é um ponto chave para construção de esse olhar negro. Como nos ilustra mais uma vez Jurema Werneck :

A luta pela emancipação da mulher negra não tem por finalidade apenas formar mulheres seguras, capazes e brilhantes, que visem com isto adquirir privilégios individuais. Essas conquistas são como veículos para gerar transformações na vida da população negra (Extraído do texto A face Negra do Feminismo – Livro A saúde das mulheres Negras).

O papel das mulheres negras na diáspora perpassa pela luta histórica construído por essas mesmas mulheres, vinculado a um berço africano enraizado em nossas vivências diárias de luta e permanência de um saber africano, a possibilidade de uma modelo civilizatória com base nos valores anti-racistas, afrocentrados, vivenciados pela população negra em sua esfera mundial, torna a luta de nós mulheres negras um alicerce para construção de um novo devir... Um devir Negro!

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BIBLIOGRAFIA:

BANKOLE. Katherine. “Mulheres Negras nos Estados Unidos”, Livro: Afrocentricidade: uma abordagem epistemológica inovadora. Elisa Larkin Nascimento (org.). São Paulo: Selo Negro,2009. (Sankofa : Matrizes Africanas da cultura brasileira; 4).

CARNEIRO. Sueli. Enegrecer o Feminismo. Artigo Apresentado no Seminário Internacional sobre Racismo, Xenofobia e Gênero, organizado por Lolapress em Durban, África do Sul, em 27 – 28 de agosto 2001. Publicado em espanhol na revista LOLA Press nº 16, novembro 2001

LEMOS. Rosália Oliveira. “A face Negra do Feminismo – Problemas e Perspectivas”, Livro: O livro da Saúde das Mulheres Negras: Nossos passos vêm de longe. Jurema Werneck (org.), Maisa Mendonça (org.), Evelyn C.White (org.). Maisa Mendonça (tradução), Marilena Agostini (tradução), Maria Cecília MacDowell dos Santos (tradução) – 2 ed. – Rio de Janeiro: Pallas /Criola, 2006.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Escravatura uma Transformação e Exploração Económica


Esse trabalho reflecte um pensamento que foi elaborado no sentido de procurar, esclarecer e debater sobre as origens, e causas do capitalismo no mundo em que vivemos, sobretudo as consequências no nosso continente Africano e no nosso mundo em geral.
Esse é o mundo em que vivemos, onde a dependência doentia da economia baseada em escravos, e a disparidade entre ricos e pobres é o principal factor que origina, a indigência humanitária como a guerra, fome, morte, ditadura, escravatura, e a divisão social e psicológica. O factor económico influencia a soberania, dita as regras, administra os lucros, define os privilegiados e os excluídos, isto é o retrato do mundo dos endinheirados e dos empobrecidos, a causa e o efeito da distribuição económica. Hoje em dia muitos países denominados de “subdesenvolvidos” vivem dependentes das ajudas financeiras externas, como do FMI (Fundo Monetário Internacional) e do BM (Banco Mundial). O capital concedido aos países “subdesenvolvidos” circula numa direcção, o de dar e receber, o dobro do que foi dado, com juros e um conjunto de regulamentos que influenciam para o crescimento da pobreza e o acorrentamento dos países “subdesenvolvidos”.
Para compreendermos o rápido desenvolvimento económico dos países “Subdesenvolvidos” precisamos analisar o percurso da história, continuarmos à procura de factos, que comprovam a exactidão das investigações, cujo o intuito é saber a verdade, e sabendo a verdade, ela nos libertará, tanto ao nível físico como psicológico. O homem transformou-se num ser ambicioso, ganancioso e tornou-se numa potência destrutiva quando, os nossos antepassados Africanos e o mundo em geral foram reduzidos a condição de colónias ou de semi-colónias pelas grandes potências européias entre os séculos XVI e XX, e todos até agora têm permanecido, totalmente ou em grande parte, dependentes dos países desenvolvidos da segunda metade do século XX.
Isso quer dizer que a propagação da pobreza mundial tornou-se mais acessível com a procura de mão-de-obra Africana por parte dos Europeus como meio de auto desenvolverem-se no sector industrial e se proclamarem super potências mundiais com o comércio triangular de escravos. Com o regime esclavagista construiu-se impérios na base da exploração, onde o aumento económico de uns foi a desgraça económica de outros. Eles buscaram a forma fácil e directa de enriquecer, a custa de humilhação e desumanização, precisamente dos nossos antepassados Africanos, onde os efeitos demográficos e perturbadores de um comercio que exigia a captura brutal e a venda de seres humanos atrasaram o desenvolvimento das actividades comerciais e a evolução dos mecanismos institucionais necessários à expansão do capitalismo.
E através do Tráfico Atlântico operou grandes transformações em muitas das economias européias (em especial da Inglaterra, França, Holanda, Espanha e Portugal) porque em alguns aspectos as respectivas estruturas sociais se modificaram, nomeadamente com o surto de classes enriquecidas com o negócio de escravos, uma das actividades mais lucrativas nos séculos XVIII e XIX. A acumulação de bens materiais de uma forma nefasta e prejudicial contribuiu para o desenvolvimento de um capitalismo exposto a dificuldades e crises de crescimento que vai estar na origem da corrida Européia e, acessoriamente, Americana para a partilha do resto do mundo, entre 1870 e 1918, aproximadamente. Contudo, foi com a exploração e partilha do continente Africano que permitiu a solidificação do processo acumulativo que conduziu a revolução industrial à escala mundial. O Comércio triangular, resultou uma enorme contribuição para o desenvolvimento industrial da Grã-Bretanha.
A corrida imperialista não foi pacífica. Os colonizadores usavam de violência com a população, utilizando a exploração pela força e submissão racial. De uma forma ou de outra, sempre menosprezaram os povos colonizados. Além disso, os europeus não estavam preocupados com o progresso e o bem-estar da população africana. A ocupação paralisou o desenvolvimento específico dos povos Africanos e feriu suas culturas e autonomia.
Hoje o continente Africano e o mundo em geral são controlados por “Empresas Multinacionais”, tais como a IBM (Estados Unidos), Volkswagen (Alemanha), Fiat (Itália), General Motors (Estados Unidos), Toyota (Japão), Nokia (Finlândia), Nestlé (Suíça), Sony (Japão), Siemens (Alemanha), Dell (Estados Unidos), Microsoft (Estados Unidos), Peugeot (França), entre outras. Os EUA importam hoje mais petróleo da África do que da Arábia Saudita, e calcula-se que em 2015, 25% venha do continente. São vários os recursos que o continente Africano ofereceu e continua a oferecer para o mundo.
Podemos concluir que sem a escravização dos povos Africanos não haveria o “Capitalismo”, onde o objectivo principal do capitalismo, é sempre e em todo lugar, aumentar a riqueza alcançada, aumentar o capital e garantir o monopólio económico mundial. Com esse sistema económico temos sempre a desvalorização de humanos ao nível social e psicológico, reduzidos a condições de miséria, acompanhados pela violência, destruturação familiar, entre várias outras consequências. Qual é o benéficio que o homem tem em conquistar o mundo e depois arruinar a sua própria Alma?
Habiru Kemet Asante

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Líderes Africanos na Diáspora

Neste dia, na história africana, reconhece-se Timothy Thomas Fortune como o pioneiro do dia.


A National Afro-American League foi fundada pelo Timothy Thomas Fortune, em 1887. E era suportada pelos próprios negros. A liga organizou um programa exigindo direitos para todos os povos africanos, qual depois transformou-se em National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), organização de direitos civis.



Mais informações: Pan-Africanism: The Early Foundersww.assatashakur.org/forum/pan-afrikanism-afrocentricity/41159-pan-africanism-early-founders.html

domingo, 14 de novembro de 2010

Morte de uma mulher negra

Embora lutando com a realidade de um ser humano, em vez de um mito, a mulher negra forte morreu. Autoridades médicas dizem que ela morreu de causas naturais, mas aqueles que a conheceram sabem:

Ela morreu por ficar em silêncio quando ela deveria ter gritado. De ter sorrido, quando ela deveria ter sido violenta. De estar doente e esconder, não querendo que ninguém soubesse, porque sua dor poderia incomodar os senhores e as senhoras.

Ela morreu de uma overdose de outra gente se agarrando a ela quando ela mesma não tinha sequer energia para si mesma.

Ela morreu de amor por homens que não a amam por só amarem a si mesmos e só poderem oferecer-lhes visitas furtivas na calada da noite.

Ela morreu de criar os filhos sozinha.

Ela morreu vítima das mentiras que sua avó contou à sua mãe e sua mãe lhe contou sobre a vida, homens e racismo ...

Ela morreu por ter sido abusada sexualmente quando criança e ter que tomar como natural essa verdade em todos os lugares que ela ia todos os dias da sua vida, barganhando a humilhação, pela culpa.

Ela morreu asfixiada, cuspindo o sangue dos segredos que ela continuava tentando queimar no seu coração, ao invés de se permitir ao tipo de colapso nervoso ao qual ela tinha direito, mas que reservado pelo sistema apenas para as meninas brancas ou mais claras, pois só para essas o estabelecimento pode pagar.

Ela morreu por ser responsável, porque ela era o último degrau da escada e não havia ninguém para quem ela podese repassar.

A mulher negra forte está morta ..

Ela morreu de ser uma mãe aos 15 anos e uma avó de 30 e um antepassado longinquo aos 45.

Ela morreu de tanto ser arrastado para baixo e por sentar-se com irmãs supostamente mais evoluídas posando como irmãs e amigas.

Ela morreu por tolerar um “seu Piedade”, apenas para ter um homem ao redor da casa.

Ela morreu de sacrificar-se por tudo e todos quando o que ela realmente queria era ser uma cantora, uma dançarina, uma professora, ou algo assim, igualmente magnífico.

Ela morreu de mentiras de omissão, porque ela não quis trazer o negro para baixo.

Ela morreu de homenagens de seus colegas que deveriam ter combinado seus esforços no foco da realidade dos guêtos, em vez de tomar a sua imagem e transformar em proselitismo rico em palavras mortas e canções vazias.

Ela morreu dos mitos que não lhe permitia mostrar fraqueza, sem ser castigada como preguiçosa e vadia....

Ela morreu de esconder seus verdadeiros sentimentos, até que tornou-se dura e amarga o suficiente para inundar seus seios, como os tumores e as ulcerações da raiva.

Ela morreu de sempre carregar coisas pesadas,entre caixas de geladeiras sozinha.

A forte mulher negra está morta ..

Ela morreu de nunca ser o bastante do que os homens queriam, ou sendo demais para os homens que ela queria.

Ela morreu por ser muito preta e morreu novamente por não ser suficientemente negra.

Ela morreu por ser mal informada sobre a sua mente, seu corpo e da medida de suas capacidades reais.

Ela morreu de joelhos pressionados ao solo, porque respeito nunca fez parte do que lhe estava sendo empurrado.

Ela morreu de solidão nas salas de parto e solidão nos centros clandestinos de aborto.

Ela morreu nos banheiros com as veias abertas, rebentada pelo auto-ódio, ajudada pela negligência.

E às vezes quando ela se recusou a morrer, quando ela simplesmente se recusou a se dar por morta, ela foi assasinada por imagens brancas de cabelos loiros, olhos azuis e bundas achatadas, importadas diretamente da mídia para a “inclusão social” dos novos ricos dos pagodes ou do futebol.

Às vezes, ela foi pisoteada até a morte pelo racismo e sexismo, executada pela ignorância high-tech, enquanto levava a família em sua barriga, a comunidade em sua cabeça, e a raça nas costas!

A mulher negra forte está morta!

... ... ou não?

Esta mensagem foi enviada pelo Dr. Runoko Rashid, em inglês, e traduzida pelo brasileiro Adelson Brito no blog O Negro Liberto.

sábado, 13 de novembro de 2010

A Todas as Mulheres Negras, de todos os Homens Negros


Rainha-Mãe-Filha da África
Irmã de minha alma
Noiva Negra da Minha Paixão
Meu Amor Eterno

Eu te saúdo, minha Rainha, não com a lamúria servil de um Escravo submisso à qual já te acostumaste, nem com a nova voz, as súplicas oleosas da lustrosa Burguesia Negra, nem com os gritos cruéis do grosseiro Escravo Livre – mas com minha própria voz, a voz do Homem Negro. E embora te saúde de outra maneira, minha saudação não é nova, mas tão velha quanto o Sol, a Lua e as Estrelas. E, ao invés de marcar um novo princípio, significa apenas a minha Volta.

Eu regressei dos mortos. E te falo neste momento do Aqui e Agora. Eu estava morto há quatrocentos anos. Durante quatrocentos anos tu tens sido uma mulher solitária, despojada do teu homem, uma mulher sem homem. Durante quatrocentos anos não fui nem teu homem nem meu próprio homem. O homem branco ficou entre nós, sobre nós, à nossa volta. O homem branco foi o teu homem e o meu homem.

Não te esqueças desta verdade, minha Rainha, pois mesmo que ela tenha incendiado a medula de nossos ossos e diluído nosso sangue, precisamos trazê-la à superfície da mente, ao domínio do conhecimento, fixando nosso olhar sobre ela como uma serpente enroscada nas barras do cercado de brincar de um bebê, ou como as flores frescas sobre o túmulo de uma mãe. Ela deve ser pesada e compreendida no coração, pois o salto da bota do homem branco é o nosso ponto de partida, nosso ponto de Decisão e Volta – o pivô salpicado de sangue do nosso futuro. (Mas eu te pediria para lembrar que, antes que pudéssemos sair da escravidão, tivemos de ser derrubados do nosso trono.)

Do outro lado do abismo estéril da masculinidade negada, de quatro centenas de anos sem minhas Bolas, vemo-nos hoje face a face, minha Rainha. Sinto uma profunda e horrível ferida, a dor da humilhação do guerreiro vencido. A vergonha do corredor exímio que tropeça na partida. Não tenho justificações.

Não posso suportar olhar os teus olhos. Tu não sabes (e certamente deve ter percebido gora: quatrocentos anos!) que durante quatrocentos anos fui incapaz de olhar diretamente os teus olhos? Estremeço por dentro sempre que me olhas. Posso sentir... no brilho dos teus olhos, de um lugar escondido bem lá no fundo, um segredo que guardas há muito tempo. Esta é a simples verdade. Não que eu me sentisse justificado, em tais circunstâncias, em tomar tais liberdades contigo, mas quero que saibas que eu tinha medo de olhar nos teus olhos porque sabia que ali encontraria refletida a Denúncia impiedosa da minha impotência e o irresistível desafio de reaver minha masculinidade conquistada.

Minha Rainha, é difícil para mim dizer-te o que hoje sinto no coração por ti – o que está no coração de todos os meus irmãos negros e de todas as tuas irmãs negras. E tenho medo de fracassar, a não ser que venhas a mim, sintonize-te em mim com a antena do teu amor, o amor sagrado em grau extremo que tu não me pudeste dar porque eu, estando morto, não mereceria recebê-lo; aquele amor de negro, perfeito e radical, com o qual nossos pais floresceram.

Deixa-me beber da fonte do rio do teu amor, deixa as cordas da força do teu amor amarrarem minha alma e cicatrizar as feridas da minha Castração, deixa meu exílio convexo terminar sua Odisséia assombrada na tua essência côncava, que recebe aquilo que pode dar. Flor da África, somente através do poder libertador do teu novo amor é que a minha masculinidade poderá ser resgatada. Pois é nos teus olhos, diante de ti, que minha necessidade deve ser justificada. Só, só, só tu e somente tu podes condenar-me ou deixar-me em liberdade.

Convence-te, Irmã Negra, que o passado não é um panorama proibido, algo para o qual não ousamos olhar com medo de sermos, como a esposa de Loth, transformados em estátuas de sal. Pelo contrário, o passado é um espelho onisciente: contemplamo-lo e nele vemos refletidos nós próprios e todos os outros – o que fomos, o que somos hoje, como ficamos desta maneira e o que estamos nos tornando. Negar-se a olhar para o Espelho do Antes, meu coração, é recusar contemplar a face do Agora.
Eu vivi a sétima vida do gato, encarei Satã e virei as costas a Deus, jantei no chiqueiro dos Porcos, e desci ao ponto mais profundo do Buraco, entrando no Covil e apanhando minhas Bolas de entre os dentes de um leão a rugir!

Beleza Negra, em silêncio impotente eu ouvi, como se fora uma sinfonia de lamentações, os teus gritos de socorro, os apelos angustiados e cheios de pavor que ainda ecoam em todo o Universo e por toda a mente, um milhão de gritos dispersos através dos anos de dor que se fundiram num único som de sofrimento para assombrar e sangrar a alma, um som incandescente para queimar o cérebro e ascender o estopim do pensamento, um som de presas e dentes para comer o coração, um som de fogo se alastrando, um som de gelo que queima, um som de chamas que devoram, um som ardente, um som de fogo para derreter o aço das minhas Bolas. Um som de Fogo Azul, um som Melancólico, um som de morte, um som da minha mulher em pranto, um som do sofrimento da minha mulher,O SOM DA MINHA MULHER CHAMANDO-ME, CHAMANDO-ME, EU OUVI O TEU GRITO DE SOCORRO, OUVI AQUELE SOM AFLITO MAS ABAIXEI A CABEÇA E NÃO DEI ATENÇÃO, OUVI O CHORO DA MINHA MULHER, OUVI O GRITO DA MINHA MULHER, OUVI MINHA MULHER IMPLORAR A PIEDADE DA BESTA POR MIM, OUVI-A IMPLORAR POR MIM, OUVI MINHA MULHER IMPLORAR A PIEDADE DA BESTA POR MIM, OUVI MINHA MULHER MORRER, OUVI O SOM DA TUA MORTE, UM SOM DE ESTALIDO, UM SOM QUEBRADO, UM SOM QUE SOAVA O FINAL, O ÚLTIMO SOM, O DERRADEIRO SOM, O SOM DA MORTE, EU, EU OUVI, EU O OUÇO TODOS OS DIAS, EU O OUÇO AGORA... EU TE OUÇO AGORA... EU TE OUÇO AGORA... EU TE OUÇO... Eu te ouvi então... o grito veio como um raio fulminante deixando um risco nas minhas costas negras. Num estupor covarde, com o coração palpitando e os joelhos tremendo, vi o chicote da morte do Escravizador cortar zunindo o ar e morder com dentes de fogo a sua carne delicada, a carne negra e macia das Mães Africanas, forçando a Vida a sair prematuramente do seu útero dilacerado e ultrajado, o útero sagrado que originou o primeiro homem, o útero que incubou a Etiópia, populou a Núbia e deu à luz os Faraós do Egito, o útero que pintou de preto o Congo e originou o Zulu, o útero de Méris, o útero do Nilo, do Níger, o útero de Songhay, do Mali, de Gana, o útero que senti o poder de Chaka antes de ele ter visto o Sul, o útero Sagrado, o útero que conheceu a forma futura de Jomo Kenyatta, o útero dos Maus-Maus, o útero dos Negros, o útero que nutriu Toussaint L’Ouverture, que aqueceu Nat Turner, Gabriel Prosser e Denmark Vesey, o útero negro que se entregou em lágrimas àquela corrente anônima e interminável da Nata da África, a Nata Negra da Terra, aquela corrente anônima e interminável que com fortes gemidos caiu no esquecimento do grande abismo, o útero que recebeu, alimentou e sustentou firme a semente e devolveu Sojourner Truth, a Irmã Tubman, Rosa Pparks, Bird e Richard Wright, e suas outras obras de arte que usaram e usam nomes tais como Marcus Garvey, DuBois, Kwane Nkrumah, Paul Robeson, Malcolm X e Robert Williams, e aquele que tu suportaste com sofrimento e que se chamou Elijah Muhammad, mas, acima de tudo, todos aqueles anônimos que eles te arrancaram do útero numa inundação de sangue de assassinatos que se espalhou e se infiltrou na lama. E Patrice Lumumba, Emmet Till e Mack Parker.

Oh, Minha Alma! Tornei-me um covarde lamuriento, um desgraçado medroso, um bajulador vil, com o meu desejo de oposição petrificada diante do temor cósmico do Senhor dos Escravos. Ao invés de instigar os Escravos à rebelião com uma oratória eloqüente, suavizei suas feridas e cantei com eloqüência o Blues. Ao invés de atirar minha vida cheia de desprezo na cara do meu Algoz, derramei o nosso precioso sangue! Quando Nat Turner procurou libertar-me do meu temor, esse mesmo Temor entregou-o ao Carniceiro – um monumento martirizado à minha Emasculação. Meu espírito era sem vontade; e minha carne, fraca. Ah, eterna ignomínia!

Eu, o Eunuco Negro, despojado de minhas Bolas, caminhei pela terra com a mente trancada num Frigorífico. Eu mataria um homem ou uma mulher negra mais rápido do que esmagaria uma mosca, enquanto colheria para o homem branco milhares de quilos de algodão por dia. Qual o lucro dos esforços cegos e exaltados dos (Culpados!) Eunucos Negros (Justiceiros!) que escondem suas feridas e menosprezam a verdade para mitigar sua culpabilidade através do pálido sofisma de postular uma Democracia Universal de Covardes, assinalando que na história ninguém pode esconder-se, que, se não numa época, então certamente em outra, o salto de ferro do Conquistador esmagou na lama as Bolas de Todos?

Memórias do ontem não mitigarão as torrentes de sangue que vertem hoje dos meus culhões. Sim, a História lembra um texto escarlate, com seus rabiscos e pontinhos impressos em vermelho com sangue humano. Mais exércitos do que os mostrados nos livros fincaram bandeiras em solo estrangeiro deixando a Castração no seu rastro. Mas nenhum escravo deve morrer de morte natural. Existe um ponto onde a Cautela termina e a Covardia principia. Enfiem-me uma bala no cérebro com a arma do opressor numa noite de sítio. Por que há dança e cantoria nos Bairros Escravos? Um Escravo que morre por causas naturais não pode se comparar a duas moscas mortas na Escala da Eternidade. Ao invés de ser pranteado, merece piedade.

A mulher negra, sem perguntar como, diz apenas que sobrevivemos à nossa marcha e trabalhamos forçados através do Vale da Escravidão, do Sofrimento e da Morte – ali, naquele Vale escondido bem abaixo de nós por uma névoa que se esvai. Ah, que visões, sons e sofrimentos estão por trás daquela névoa! E pensávamos que a dura escalada daquele vale cruel levava a algum lugar agradável, verde, pacífico e ensolarado! Mas aqui tudo é selva, uma região selvagem e bravia que transborda em ruínas.

Mas coloca tua coroa, Minha Rainha, e construiremos uma Nova Cidade sobre estas ruínas.

Eldridge Cleaver, ex-ministro da Informação dos Panteras Negras e fundador da sua sede internacional, se desentendeu com Huey Newton, em 1971, segundo kathleen Cleaver, sua ex-mulher, devido às interferências das forças de inteligência dos EUA, que infiltrou na organização para fomentar inimizades e, assim, destrui-la.

Por Abeba Makeda