sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Educação e Herança Africana no Brasil

A qualidade e o acesso pleno à educação no Brasil são temas sociais complexos e desgastantes devido ao distanciamento entre os teóricos da educação , a herança cultural africana (presente nas salas de aula espalhadas por todo o país) e entre professores.

Em outras palavras, a educação brasileira é pautada e marcada por valores europocêntricos que desconsideram ou desqualificam a herança cultural africana no país, autores europeus como Piaget, Vigosqui e Lacan ainda são as bases fundamentais na formação de professores e na construção de metodologias, conceitos e pedagogias.

As buscas por soluções sobre essas temáticas estão fora de foco e , geralmente, não atingem seus objetivos.

A falta de segurança no interior das escolas, assim como os altos índices de reprovação e evasão escolar são desdobramentos de uma estrutura curricular falha, de um padrão pedagógico distante e incoerente a diversidade cultural do país.

Um jogo em que os professores fingem que ensinam e alunos fingem que aprendem. Disciplinas como Matemática, Biologia, Física, História e Geografia são , propositalmente, dissociadas da realidade, do dia-a-dia das pessoas. E isto justifica a pergunta clássica feita por alunos de diferentes níveis escolares : “Para o que isto me serve?”

A constatação e denúncia destes crimes promovidos pelas elites brasileiras, em nome da manutenção de seus próprios privilégios, não são novidades. Como dramaturgo, economista o ex Senador da República Abdias Nascimento durante a maior parte do século XX denunciou a desvalorização da memória africana no Brasil como massacre, um verdadeiro genocídio.

Ação Afirmativa pra quem?
Como resultado da luta de movimentos sociais, grupos religiosos e organizações não governamentais a partir do ano de 2001, no caso da educação superior, as políticas que garantem o acesso da população afro-brasileira as instituições de ensino público se proliferaram pelo país.

Desde então as chamadas Políticas de Ações Afirmativas tornaram-se o grande tema de debates, livros, conferências e etc. Mas, de forma obscura essas políticas que foram tão abrangentes em Johanesburgo e nos EUA paulatinamente se reduziram à reserva de vagas em universidades, o denominado “sistema de cotas”.

Na perspectiva do sistema de cotas a visão dos alunos contemplados, sua permanência e a qualidade curricular do ensino institucional foram questões praticamente ignoradas. Da mesma forma que foi suplantada a plenitude da aplicabilidade das Políticas de Ação Afirmativa.

Em 2003 foi sancionada a lei 10639 que inseriu no currículo escolar o ensino e estudo da história da África e do negro no Brasil. Contudo, mesmo que as desigualdades sociais entre afros-descendentes e euro-descendentes (negros e brancos) estejam na agenda das políticas públicas educacionais brasileiras a construção do conhecimento e sua aplicabilidade ainda são pautadas por valores europocêntricos e etnocêntricos.

Agora, ano de 2009, é inegável o elevado índice quantitativo de universitários e profissionais afro-brasileiros com ensino superior, um índice muito mais elevado que há cinco, dez ou vinte anos. Por outro lado, qualitativamente a formação desses intelectuais, educadores, e estudantes foi comprometida por uma educação no mínimo cartesiana.

Dúvidas quanto à afirmativa da ação
Os desdobramentos psico-sociais desses crimes são graves. Vidas são desperdiçadas num processo de deseducação e autodestruição permanentes. A escola, com raras exceções, é um verdadeiro martírio para mente de crianças e adolescentes, no geral os afro-brasileiros desde a mais tenra infância aprendem com detalhes a negar seus corpos e a reprimir suas potencialidades intelectuais.

Com destaque ao Estado do Rio de Janeiro, profissionais da educação tanto de escolas primárias quanto de Universidades apresentam uma grande disposição para relegar ao segundo plano o “Gênio Africano” do qual falava Ivan Sertima, e ignorar a “existência de um conhecimento herdado pela tradição”, uma das mais frutíferas teses de Amadou Hampate Bã.

Enfim, a existência milenar de uma cientificidade e tecnologia multidimensional que fundamentam a História Africana, ainda são motivos de deboche, desconfiança e marginalização por parte do mainstream da educação no Brasil.

Trabalho de Campo : a prática (re) direcionada.
Trabalhado de forma isolada o ensino e estudo de história da África se tornam um engodo. A história da África não pode ser desvinculada da filosofia, da geografia, matemática, ecologia africana, e principalmente dos estudos sobre lingüística no continente. A unidade formada por esse mosaico de saberes é a configuração cientifica da História da África.

Somente através de métodos interdisciplinares que a História da África poderá ser útil à qualidade de vida dentro e fora do continente africano, em escala global. Nesse sentido, o método interdisciplinar de educação tem condições propicias para conduzir escolas, professores e alunos a um projeto transdiciplinar de construção do conhecimento.

Esse é o momento em que, no Brasil, devemos aproveitar a lei 10639/03, redirecionando-a aos interesses da população afro, transformar a lei numa brecha, numa arma-político-pedagógica a serviço da libertação física e mental dessa população. Assim será exterminar o lugar de “objeto de estudo” que a contribuição africana ocupa nos livros didáticos, nas instituições de pesquisa e educação no Brasil.

A célebre frase de Abdias do Nascimento de que “O Brasil é o país de indígenas , construído por negros e em benefício dos brancos” é o retrato da situação atual, vigente no país. Mas, atual não quer dizer que seja eterna.

De volta para o Futuro
A maior parte dos ricos do Brasil, as grandes famílias rurais e grupos empresariais têm sua origem financeira nos séculos de escravidão africana.

As comemorações que ocorrerão no mês de Março de 2009 na cidade do Rio de Janeiro em nome dos 121 anos da abolição da escravatura no Brasil é mais uma estratégia de esvaziamento do conteúdo político e histórico da data. Bancadas pelo Governo do Estado, por Secretarias da Prefeitura e por Organizações Não Governamentais essas comemorações desviam a atenção da população afro-brasileira sobre o resgate das dívidas financeiras, patrimoniais e morais que o Estado Democrático de Direito tem para seus cidadãos de origem africana.

Congadas,Vissungos, Bakongos, Quilombos, Favelas ... onde mais a memória africana pode estar viva em plena diáspora, a não ser onde estão os afro-brasileiros, presentes em corpo, e espírito?
Nossa identidade africana jamais será sobrepujada pela nossa identidade nacional brasileira. O Brasil possivelmente é o maior país de miscigenação entre grupos étnicos e culturas africanas fora da África. As identidades africanas estão cruzadas e sobrevivem num só corpo...indomável e diaspórico .

Quem em sua sã consciência trocaria 8.000.000 (milhões) de anos de história por 500 anos de mentiras?

Para essa insanidade o conhecimento é a cura.

Por uma outra história.

Kwesi D-HIM

1 comentário:

  1. Tomara que a verdade venha a tona o mais breve possível, pois esta atrasada em 500 anos, principalmente nas escolas.

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